❛ — Cuidando do meu tio? Isso só pode ser algum tipo de piada! Eu não vou ficar falando mal da sua mãe pra você, mas, acredite, você ainda vai se arrepender de vê-la como esse anjo, Verena. ❜ esse era o máximo que Briana pretendia falar, mas as provocações da outra acabaram fazendo com que o seu sangue subisse para a sua cabeça. Como Verena podia ser tão cega a ponto de não enxergar como a maneira com que Frederica tratava a sua enteada? A sua madrasta sequer fazia questão de esconder o quanto a detestava! ❛ — E o que a sua mãe seria? A mocinha indefesa? Ela faz da minha vida um inferno desde que se casou com o meu pai e você parece ser a única a não perceber isso! ❜ o seu tom de voz se encontrava mais elevado do que o usual, as íris castanhas passando a ostentar um brilho de pura raiava enquanto as suas mãos eram fechadas em punhos. ❛ — Nonostante? Perché non mi sarebbe piaciuta la tua famiglia? Andiamo! Dimmi! ¹ ❜ exigiu, as unhas sendo cravadas contra a palma de sua mão com tamanha força que, provavelmente, causariam marcas posteriores. O motivo daquela acusação estava muito claro na mente de Briana. E se Verena ousasse dizer uma palavra em voz alta, não existiria laço familiar que faria com que a garota parasse de bater em sua irmã! ❛ — Eu não te bati! Você está sendo exagerada! ❜ falou de volta, soltando um grunhido de irritação à medida que soltava ambas as mãos para passá-las por seu rosto numa tentativa de manter a calma.
No entanto, qualquer tentativa de manter a sua postura acabou no instante em que sentiu um puxão de cabelo, seguido de um tapa de raspão em sua face. A dor pelos gestos sendo abafada pela raiva que subia por seu corpo. Era briga que Verena queria? Então era uma briga que teria! ❛ — E você? Sua anoréxica tapada! ❜ rebateu de maneira irritadiça, se levantando de seu banco para que pudesse voar nos cabelo da irmã. As mãos agarraram os fios loiros com força desnecessária e o tronco fora afastado para que pudesse desviar dos tapas desgovernados que a outra tentava acertar-lhe, um grito de pura raiva deixando a sua garganta. E, bem, o destino parecia ter chegado ao fim, pois a herdeira sentiu o solavanco do carro sendo parado. O motorista contratado apareceu instantes depois para abrir a porta e a herdeira não podia agradecer mais pelo gesto. Precisava de um espaço maior para descontar a sua raiva em Verena! A italiana, então, colocou o corpo para o lado de fora, tratando de puxar a mais nova consigo ainda pelos cabelos, antes de empurrá-la bruscamente em direção ao chão. ❛ — Chiama papà ora! ² ❜ esbravejou antes de se ajoelhar no chão para que pudesse subir em cima da irmã, passando a dar alguns tapas por seu corpo, mas tomando um certo cuidado para não acertar a face alheia.
“Sim, isso mesmo! Cuidando de titio! O que você não está fazendo agora, não é? Então pare de falar dela desse jeito!” Exigiu emburrada, batendo o pé uma única vez, certa de que tinha dado o assunto por encerrado. “O nosso pappa! Por que você sempre tem que deixar claro que ele é só seu? Pappa é tanto meu quanto teu, e não há nada que você possa fazer a respeito.” Mostrou a língua à Briana, em uma clara demonstração de infantilidade, típica de uma Verena contrariada. “Se eu não percebo é porque realmente não existe, Briana! Per l’amor de Dio! Já passou pela sua cabeça que ela simplesmente não passa a mão sobre a sua cabeça e te dá uma estrelinha por cada conquista porque ela não faz isso com ninguém? É o jeito dela! Você que é inteligente, deveria saber!” Não conseguiu se segurar, aumentando o tom de voz a cada uma de suas palavras. Estava farta de ficar entre mamãe e Briana; farta de ter que escutar uma reclamar das malcriações uma da outra, puxando seu cabelo mais uma vez antes de responder às últimas palavras, quando Briana perdeu a paciência e a atacou, no sentido mais estrito da palavra. “Sua selvagem!” Gritou, sentindo o couro cabeludo queimar a medida em que os puxões se tornavam cada vez mais naturais, tanto para uma, quanto para a outra. Verena era uma péssima lutadora, e catfights jamais estiveram em seu vocabulário, especialmente porque nunca a deram motivo para tal, mas estava na hora de sua sorellina aprender que ela tinha, sim, alguma espinha dorsal, então, abrindo um dos olhos, desferiu um tapa estalado no braço da morena. “Ei, anoréxica é a vovó! Minha dieta é mais balanceada que a sua!” Ou pelo menos é isso que minha nutricionista diz! Esbravejou, perdendo o ponto de toda a discussão no calor do momento. Só precisava puxar o cabelo da irmã tão forte que tiraria pedaço e… “AI.” O puxão ardeu muito mais do que deveria, e Verena sentiu as lágrimas caírem involuntariamente dos olhos.
“Ti odio¹!” Choramingou, não conseguindo fazer nada mais do que se defender. Cerrou os olhos com força, soltando alguns gritos a cada novo puxão — em sua defesa, ela teve mais de uma chance de embrenhar os dedos nos fios escuros da italiana, e as usara da melhor forma possível. Quando a morena a puxou pelos cabelos, entretanto, não houve muito a ser feito, especialmente porque as duas se embrenharam uma na outra no chão da limousine em decorrência da parada repentina. Verena sabia que podia dar mais um ou dois chutes na irmã com o salto quinze. Briana fora mais rápida, entretanto, e, sob um coral de gritos de dor da mais nova, ambas se despiram do calor dentro do carro, sendo recepcionadas pelo frio subzero das montanhas de Aspen. Algo a dizia que estava deitada no chão. Arruinando o seu Dior preferido. Hiperventilou, soltando um grito ao desferir mais alguns tapas em Briana, para então se defender do round que a irmã parecia estar ganhando. Mais alguns tapas, e a loira já sentia as costas arderem ante o contato com o gelo. A ideia brilhante, entretanto, foi executada antes que Verena tivesse coragem de pensar nas consequências. Raspou a neve o máximo que pôde, formando uma bolinha antes de jogá-la no alto da cabeça de Briana. “Ele não precisa saber disso.” Desafiou, entredentes, mexendo as pernas freneticamente para se libertar da prisão que Bri havia feito com as pernas. Verena podia morder, não podia? Não importava. Tomou um dos braços e o abocanhou com alguma força — não tanta quanto queria, verdade —, permitindo que mudassem as posições com um último impulso, ficando por cima da irmã — não antes de rasgar o Dior com o movimento brusco. “Olha o que você fez!”
Seus amigos podiam rir e fazer piadas sobre a importância que dava a intuição e superstições, no entanto, nenhuma delas jamais o decepcionou. Para o bem ou para o mal, todas as suas crenças se confirmavam. Dito isto, não estranhe caso ouça o irlandês comentar baixinho sobre a viagem para Aspen ser um erro, já que uma sensação desagradável o vem afligindo desde antes sua chegada — desconforto, aliás, que aumentava conforme o passar dos dias, deixando-o inquieto e tenso. Assim, não sendo o frio um empecilho, criou rapidamente o costume de aproveitar o máximo de atividades exteriores oferecidas pelo resort, entregando-se a sua tão apreciada adrenalina.
Deixando o saguão do prédio principal, pretendia caminhar até a área onde ficavam os snowmobiles, supondo que um pouco de ação lhe faria bem. Contudo, no instante que saiu para o exterior, seu nariz começou a coçar — um sinal que todo irlandês conhecia. Claro, a causa poderia estar ligada ao ar gélido das montanhas, mas Lorcan desconfiava que a ação que teria naquele dia não seria a que planejara. Uma briga, seria por isso o mau presságio que sentia? E com quem, pelo amor de São Patrício, ele brigaria? Estava agitado, sim, porém não se sentia irritadiço. Ah... Ainda não havia tropeçado com Lorsan... Estaria esse fato prestes a mudar? De qualquer forma, não mudaria seus planos por essa possibilidade, embora fosse se manter atento ao seus arredores. O Turlach só não imaginava que a tal coceira poderia ser o alerta para um confronto em que não estaria diretamente envolvido, como as princesas italianas fizeram questão de provar.
O barulho da porta da limusine sendo aberta, seguido de gritos e um amontoado de tecidos atingindo a neve, chamou a atenção de todos em frente ao resort. A mente de Lorcan demorou alguns milésimos para absorver toda a cena que seus olhos captavam, por que ele simplesmente não podia acreditar no que via. Foi o primeiro a se mover em direção as garotas, que se engalfinhavam numa amostra de agressividade que nunca percebera em nenhuma delas. “ O que diabos estava acontecendo? ”, pegou-se pensando e falando, ainda que nem ele nem ninguém tenha notado, já que o sotaque italiano alto testava a audição de quem estivesse próximo. Era indiscutível que Briana andava estranha nos últimos dias, além de se mostrar reticente em lhe contar o motivo para estar assim; entretanto, vê-la em cima do corpo de Verena ( e distribuindo tapas ) só confirmava suas suspeitas que tal comportamento não era influenciado somente por preocupação pelo tio enfermo.
Independentemente dos questionamentos surgindo em sua mente, apressou-se em direção às garotas. Não era hora de fazer perguntas, e sim agir — caso contrário, uma delas poderia sair com um pedaço a menos no corpo... E pelo grito, essa seria Bri. No momento em que as alcançara, Verena acabava de forçar a irmã a mudar de posição, vociferando de uma forma que anunciava um possível agravamento da situação. Possível, pois, sem um segundo de hesitação, Lorcan puxou o corpo da Brunelleschi mais nova para o seu, impedindo seu avanço contra o amontoado de tecido a frente. O movimento normalmente fácil, foi dificultado pela urgência de espernear que a italiana demonstrava, porém, conseguira afastá-la da outra — que se encontrava caída, ensopada pela neve em que se deitava. Quanta irresponsabilidade! “ Sssh... Quieta ” avisou, tentando manter o tom baixo, mesmo que agora o estado deplorável de ambas fosse nítido, revelando que a briga se iniciara há algum tempo.
Felizmente, com sua intervenção o chofer voltou a vida, ajudando Briana a se erguer do chão antes de cobri-la com seu casaco — ato que o Turlach replicou com Verena, cuja pele fria poderia ser sentida nas palmas de suas mãos enluvadas. “ Perderam completamente o juízo? ” indagou, incapaz de compreender tamanha ira. Obviamente, poderia ser hipócrita de sua parte julga-las, visto seu histórico de socos trocados com o irmão, no entanto, jamais agiria dessa forma diante de tantos olhos — todos, sem exceção, famintos por um escândalo. E, embora quisesse explicações sobre o ocorrido, dizer o quão preocupado estava com as duas, apontar a levianidade, insensatez e negligência para com o próprio bem estar e o do país que representavam, guardou mais uma vez suas palavras, urgindo-as a se moverem em direção ao saguão do resort. Prático como era, dispensou poucas ordens ao motorista antes de tomar o braço de Briana com o seu, sabendo que o mais urgente era tirá-las de cena. Sinceramente... O que havia incitado tudo aquilo? Deveria ficar aliviado pela certeza de que, após o espetáculo protagonizado ali, seu próprio escândalo seria completamente esquecido? Já dentro do hotel, dignou-se a dirigir a palavra para as princesas ( que sequer encontravam o olhar uma da outra ) pela última vez antes de estarem protegidos da curiosidade alheia pelas paredes de um quarto. “ Vocês têm muito o que explicar. ”
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