Madison acompanhou o mais velho quanto à risada, discretamente ao que concordava com a cabeça para a suposição que ele lhe apresentava. “Certamente, mas ignorando o fato da brincadeira, acredito que não é algo que muitas pessoas são aptas à exercer, então sempre o achei muito talentoso.” A Cooper observou, com um pequeno sorriso. Era difícil admitir, mas nunca sentira-se segura o suficiente para atuar na área, por isso desistira de especializar-se nela, mesmo que o Ross fosse um exemplo enorme para si na época da decisão. Provavelmente por isso sua presença no Nightingale era tão animadora. “Tenho que confessar que na época do seminário eu me interessava muito por neurocirurgia, mas soube naquele exato momento que eu não poderia seguir nela. Eu me sentia muito mais pressionada. Até hoje, na realidade.” Riu um pouco, corrigindo-se ao lembrar do fato de que corria de situações que envolviam a neuro. “Por isso, acredito que a aquisição de profissionais como o senhor e o Dr. Andrew Varma são extremamente importantes para o Florence Nightingale. Me expressando de forma mais simples, é como se tivéssemos acertado na loteria, na realidade.”
“Eu agradeço pelas considerações, Dr. Ross.” Sem saber tão bem como agir em relação a elogios quase sempre, Madison acreditava que a formalidade era a forma mais fácil de se escapar do constrangimento próprio, e tudo o que não queria naquele momento era parecer estranha na frente do neurocirurgião. De qualquer forma, ainda era ser agraciada pelas palavras de alguém que admirava por muito tempo, e a Cooper sentia-se muito bem com isso. “Eu realmente espero que trabalhemos bem juntos e que os residentes e internos aprendam muito com o senhor.” Os olhos puxados apertaram-se mais um pouco em um sorriso, esperando alguns segundos para levantar-se da cadeira onde estava sentada. “Oh, na realidade, são só diretrizes e informações básicas sobre a instituição clínica, nosso centro cirúrgico e a dinâmica dos atendimentos. Neles você vai poder encontrar os principais nomes da equipe, assim como os contatos para networking e apresentações. É algo que preparo para mantê-los integrados. Geralmente, atendentes e residentes com mais tempo de casa e do mesmo turno também preparam uma confraternização, parece interessante para socializar.” Madison informou, apenas por cima, levando em consideração que acontecia raramente e quase nunca ia devido aos horários, mas era possível que pelo menos dessa vez comparecesse. De qualquer forma, não era nada urgente como o Ross pensava, e sim uma forma de tentar fazer com que se sentisse mais assistido por parte dela.
Caminhando até a porta, a Cooper o encarou, com um sorriso. Ao vê-lo levantar-se e pronunciar-se, deu-lhe espaço, e agradeceu pela gentileza ao que saía da sala e o encarava novamente. “A neurologia tem um acesso privilegiado ao centro cirúrgico assim como a traumato, então é bem perto. Daqui da sua sala, seguimos por esse corredor até o final dele, e teremos acesso aos elevadores.” Enquanto o acompanhava lado a lado, o observava vez ou outra, tendo a impressão de que o Ross parecia um pouco mais tenso enquanto caminhavam. Talvez fosse a atenção redobrada por ser seu novo local de trabalho, mas Madison via-se especulando o motivo da sutil mudança de comportamento. Entrando no elevador, desceram quatro andares, saindo do local para passarem pela UTI, o pós-cirúrgico e finalmente o setor cirúrgico. “No momento, possuímos em torno de de dezoito salas cirúrgicas e dezesseis pós-cirúrgicas, mas creio que estaremos expandindo à medida em que a popularidade da especialidade crescer mais e o hospital conquistar mais clientes. Venha, lhe mostrarei uma das salas padrões.”
Sentado do lado oposto em relação à outra, observando-a meticulosamente por através das lentes cristalinas de seus óculos, o neurocirurgião esboçava, vez ou outra, um sorriso simpático e educado em resposta à colega, assentindo com a cabeça garantindo que estava atento ao que ela o comunicava. A postura ereta, perfeitamente alinhada à cadeira ergônomica de seu novo escritório, não servia apenas como o reflexo corpóreo que uma situação formal como aquelas pedia, mas também uma resposta do próprio homem quanto à presença da outra para além dos cargos que desempenhavam – isto é, para além da hierarquia bastante óbvia que se instalava na sala, apesar dos esforços simpáticos de Madison de matizar as estruturas de poder empregatícias, Marcus sentia-se compelido a expressar uma certa imagem que demonstrasse que embora fosse uma recém aquisição para o quadro de funcionários, não deveria ser interpretado como um mero atendente, definitivamente. Assim, com os ombros para trás e os dedos das mãos entrelaçados uns aos outros, o nova iorquino assumia uma certa confiança frente a mais nova de modo que sua presença, e seu valor, não fossem mal interpretados pela outra que, para Mo, ainda que bastante competente, não carregava o mesmo currículo que o dele. Frente à mais um dos elogios dirigidos à si, Marcus pressionou as pálpebras em sinal de respeito, mantendo a própria vaidade. – É muito gentil de sua parte. – sentia-se lisonjeado diante das palavras cordiais da outra, mas sentia que devia preservar-se sempre que se dirigisse à ela, logo, mantendo as palavras sucintas e diretas.
A menção ao colega de profissional, porém, o fez quebrar o protocolo discreto que seguia até então: ergueu as sobrancelhas, surpreso, assentindo com a cabeça logo em seguida, ainda buscando configurar a mais recente informação que lhe havia sido fornecida. – Dr. Varma? – repetiu para si mesmo. Ross nunca havia trabalhado com Andrew Varma e embora tivesse visto-o apenas em raríssimas ocasiões sentia que a reputação do homem era suficiente para que uma impressão inicial fosse formada. – Ouço muitas coisas sobre seu trabalho, estou ansioso para poder conhecê-lo um pouco mais de perto. – respondeu, buscando ser o mais político possível sem soar muito artificial. – Esse é, sem sombra de dúvidas, um detalhe muito importante que considerei diante de minha vinda ao Florence Nightingale. – Ross aproximou-se da mesa, apoiando os dois cotovelos sobre a mesma. – É lógico que a existência de uma tradição nos faz sentir mais seguros mas há tanto espaço para inovação, novas cabeças e uma nova compreensão da medicina. – o tom empolgado na voz do médico contrastava com a monotonia anterior. A ideia de que não teria de lidar com um quadro defasado de médicos catedráticos e um departamento enrijecido eram verdadeiramente animadoras, a perspectiva de mais uma vez poder desenvolver seu trabalho clínico e avançar a área para um horizonte ambicioso lhe enchiam de ânimo. – Tenho certeza que vamos atingir grandes feitos, Dra. Cooper. – sorriu satisfeito, deixando que o ar acumulado em seus pulmões fossem liberados em alívio.
Lentamente, porém, sentiu o mesmo ar prender-se aos pulmões novamente, tensionando os músculos do abdome. – Ah… – respondeu franzindo as sobrancelhas, removendo as mãos dos envelope conforme a outra falava. – Bom, sendo assim. – ajeitou os óculos, voltando sua atenção para a mulher. – Tenho certeza que terei tempo suficiente para dar uma olhada cuidadosa em tudo isso. – a voz continha certa tensão, mas Marcus fez o possível para soar mais otimista do que apreensivo com a situação. A ansiedade que agora borbulhava dentro de si o impediu de administrar seus movimentos com maior clareza, atrapalhando-se um pouco enquanto deixavam a sala em direção aos elevadores, rumo às salas de cirurgia. – Excelente. – respondeu sentindo os primeiros sinais do excesso de saliva na boca. Dentro do elevador, Ross reclinou-se sob uma das barras de apoio agarrando as mãos à mesma buscando aliviar a tensão, apertando os tendões com força até que a palma da mão perdesse um pouco a coloração natural. Diante da grande porta que os levaria às salas cirúrgicas, Marcus deteve seus próximos passos. – Tem certeza que devemos entrar? Quer dizer, não estamos esterilizados nem nada, nem ao menos estou vestido de maneira apropriada… – o ritmo da fala era acelerado o que o deixou brevemente sem ar. – Eu sou do tipo que mantém um estoque de luvas descartáveis por aí como se fossem chicletes. Então... – deu uma risada fraca, dessa vez não tão bem humorada, torcendo para que a outra desistisse da ideia e o apresentasse qualquer outro setor, àquele ponto aceitava até mesmo um tour pelo financeiro.