Claudia é Intersexo, Vamos Falar Sobre Isso
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Este texto foi traduzido graças aos apoios que recebemos e disponibilizado para nosses apoiadories no dia 3 de Agosto de 2017.
Aviso de gatilho: discussão sobre mutilações cirúrgias e médicas que crianças intersexo estão sujeitas na infância e pelo resto da vida, preconceito contra pessoas intersexo
Olá galera, sou Claudia, e sou intersexo! Digo, sou muitas coisas. Por exemplo, sou: uma estudante de graduação nas ciências na cidade de Nova York, uma feminista com tendências riot-grrrl (um movimento meio punk dos anos 90 até a atualidade no feminismo), uma lésbica com uma namorada incrível e algumes des melhores amigues (queer E hetero cis) que eu poderia querer, uma dorminhoca e procrastinadora em recuperação, uma viciada em doces… Mas é, também sou intersexo. E é por isso que eu estou aqui. Intersexo geralmente é tratado como uma condição médica – uma coisa meio rara e esquisita que rola às vezes com crianças e que precisa ser consertada. Sinto como se a consciência cultural ao redor de intersexo é a imagem de uma pessoa meio andrógina com ambes um pênis e uma vulva; tipo um homem cis e uma mulher cis juntades, que talvez seja um homem ou uma mulher, “na verdade”, ou talvez ambes, ou talvez algo diferente de tudo. Essa imagem não é correta, apesar deu ter levado mais de uma década pra realmente entender e abraçar isso. Intersexo, primeiramente, é sobre corpos – um jeito biológico de ser. Quando a maioria das pessoas nascem, ê médique, ou a parteira, ou o motorista de táxi assustado grita “É um menino!” ou “É uma menina!”. A pessoa gritando decide se esse ser humano pequenininho é um menino ou uma menina ao investigar suas características físicas. Apesar de médiques tipicamente checarem apenas a genitália externa para desginar o sexo, essas características também incluem órgãos sexuais internos, cromossomos e tipos e níveis de hormônios. Se uma criança tem todas as “formas de garoto” desses traços, ela é designada menino. Se uma criança tem todas as “formas de garota” desses traços, ela é designada menina. Pessoas intersexo nascem com uma mistura de características sexuais – algumas tradicionalmente consideradas masculinas e algumas tradicionalmente consideradas femininas – no mesmo corpo. Por exemplo, eu tenho uma vagina e seios e cintura que se desenvolveram tardiamente, mas também tenho cromossomos XY, e eu tinha testículos no nascimento. Tenho alguns traços “masculinos” e alguns “femininos” no mesmo corpo, então não é tão fácil me designar explicitamente como “macho” ou “fêmea”. Meu próprio corpo é só um exemplo; intersexo não é apenas uma categoria, existem muitas variações de intersexo e, dentro de cada uma, muita diversidade. Nem todos os corpos “masculinos e femininos” se parecem ou funcionam da mesma maneira, sabe? Saber que eu sou intersexo e só não te diz muito sobre eu ou meu corpo. Entender o que significa intersexo também ajuda a entender o que não significa. Nossos corpos são naturais e normais e saudáveis; apesar de alguns problemas de saúde serem associados com algumas formas de intersexualidade, simplesmente ser intersexo não é um problema médico em si. “Fêmeas” tipicamente possuem ovários, mas o fato de que algumas mulheres terem câncer ovariano não significa que ser “fêmea” seja uma doença, né? Além disso, pessoas intersexo – biologicamente – não são hermafroditas. Hermafroditas são seres vivos que, ao mesmo tempo ou em períodos diferentes em seu ciclo de vida, possuem conjuntos completos e totalmente funcionais de órgãos sexuais “femininos e masculinos” – externos e internos. Humanos não se qualificam com essa definição, com as espécies hermafroditas sendo representadas na maioria por plantas, peixes, moluscos e outros bichos. “Hermafrodita” é um termo datado que médiques usavam para se referir a pessoas com anatomias sexuais atípicas, e apesar de ser considerada uma palavra muito ofensiva na maioria, algumas pessoas intersexo a reivindicam hoje e usam como um termo inclusivo ou um rótulo de identidade. Isso também significa que o conceito popular de hermafrodita como alguém que possui ambos um pênis e uma vagina, não está correto biologicamente. Alguns genitais externos podem parecer atípicos em algumas formas de intersexualidade, mas isso não é o caso para outros. Depende muito. Intersexo com certeza é sobre corpos, mas não é sobre genitais. Há tempos que intersexualidade é considerada um tema controverso, e ao longo do meu processo de aceitação da minha intersexualidade, vem se tornando mais e mais difícil de entender o porquê. Não é tão revolucionário aceitar que existe variação nas aparências e nas funcionalidades dos corpos. Tipo, não existem só olhos marrons e azuis; existem olhos marrons escuros e claros e médios, e azuis muito profundos e muito clarinhos e olhos verdes e castanhos e violetas e violetas com uns pedaços verdes e azul com pedaços amarelos etc… Estamos confortáveis com o fato de que não existem apenas duas alturas, ou dois pesos, ou duas cores de pele etc., para as pessoas. Por que o sexo delas devia ser diferente? Este conceito – que sexo não é binário, que há muitas maneiras em que o sexo pode se apresentar – é realmente bem assustador para muitas pessoas. Acho que é porque tem aquela ideia por aí de que baseado no tipo de corpo que a pessoa possui, o sexo, gênero e a atração sexual dela estão todes inerentemente vinculades em um dos dois conjuntos pré determinados. Uma criança designada mulher no nascimento é instantaneamente pressuposta como mulher. Ela se sentirá uma mulher, brincará com bonecas vestidas de rosa, ela agirá feito mocinha, usará saias e batom, será fofa e materna. Também geralmente é pressuposto que ela irá se atrair por meninos cis, fará sexo com eles, especialmente a penetração “heterossexual” sagrada do pênis na vagina, certo? Mas o que você faz quando precisa enfrentar uma pessoa cujo corpo não é facilmente categorizado como masculino ou feminino? Qual deve ser o gênero dela? Talvez ela não se sentirá como menina e brincará de soldadinhos vestidos de rosa, e agir feito mocinha exceto quando não quiser, e aí se vestirá em combinações de roupas que irão assustar as crianças. Talvez ela gostará só de meninas ou só de meninos ou ambes ou outros floquinhos de neves assustadores como ela mesma, e QUEM SABE o que acontecerá se ela se reproduzir? Resumindo, diferente de crianças designadas de maneira binária no nascimento, não existem normas para guiar a sociedade em como as pessoas intersexo devem ser tratadas. Corpo intersexo criam um pânico social. Nossas características físicas podem até não serem tão assustadoras, mas as implicações de aceitar os nossos corpos escalam rapidamente de “o que isso significa” a “o que DIABOS eu faço AGORA?”. O sexo biológico é um dos jeitos mais fundamentais em que seres humanos se identificam e se entendem ; se a nossa ideia de sexo biológico estiver errada, o que mais pode estar? É coisa demais pra lidar. A “solução” meio óbvia que tem sido usada por muito tempo é a de tentar “consertar” a gente. Somos “realmente apenas garotos e garotas normais” com problemas médicos. Trate esses problemas – remova e altere o que puder (por exemplo, genitais, órgãos sexuais internos, hormônios) e tenta esquecer o que não puder (cromossomos). Um dos “tratamentos” mais comuns é a cirurgia genital. Algumas crianças intersexo possuem genitais que não são tipicamente masculinos ou femininos e às vezes são consideradas “ambíguas”. (odeio este termo; nossos genitais não mudam de forma e tal. Nossos corpos não estão “entre” corpos “femininos e masculinos”. Eles existem por si mesmos.) O clitóris e o pênis se desenvolvem do mesmo tecido no corpo, então alguns indivíduos possuem o que pode ser considerado um clitóris grande ou um pênis pequeno. Clitóris grande significa que é masculino demais para meninas, e um pênis pequeno significa que não é “um homem de verdade”, então médiques e famílias geralmente decidem designar essas crianças como meninas e diminuem essa estrutura (ou, há algumas décadas, a removiam como um todo), para parecer “normal”. Foda se que essas cirurgias são simplesmente cosméticas e não têm nada a ver com saúde. Foda se que as crianças quase sempre são muito pequenas e não podem consentir para esses procedimentos. Foda se que essas crianças, quando crescerem, podem não sentir sensações sexuais muito bem/de jeito nenhum por baixo dos tecidos das cicatrizes, e que podem nunca sentirem um orgasmo. Foda se que as cirurgias são irreversíveis, e que essas crianças são obrigadas a viverem com os resultados dessas cirurgias pelo resto de suas vidas. Existem vários outros tratamentos para “corrigir” as várias maneiras que corpos intersexo deixam as outras pessoas desconfortáveis. Médiques tentam mover cirurgicamente a uretra à ponta do pênis quando está localizada em outro lugar, ou, menos comum, transformam cirurgicamente um clitóris grande/pênis pequeno em um pênis maior. Vários procedimentos são necessários às vezes, e resultam em muito tecido de cicatrização. Canais vaginais ditos pequenos demais para o sexo “heterossexual normal” são reconstruídos, apesar de não poderem se auto lubrificarem, ou poderem fechar ou poderem sofrer prolapso. Além da cirurgia, estes canais também podem ser “dilatados”, ou esticados regularmente com dildos médicos por meses ou até anos. Órgãos sexuais internos são frequentemente envolvidos porque médiques avisam que eles podem se tornarem cancerígenos se deixados em paz. Esta prática não é muito lógica, porque, tipo, médiques não removem os ovários ou as próstatas de crianças diáticas (que não são intersexo) porque elas podem um dia desenvolverem câncer de ovário/próstata. Remover órgãos sexuais internos podem tornar pessoas antes férteis em pessoas incapazes de se reproduzirem, e incapazes de produzirem hormônios importantes para o desenvolvimento e a saúde óssea. Meus testículos foram removidos alguns meses após o nascimento, e agora eu preciso tomar uma pílula todo dia para substituir os hormônios que meu corpo poderia produzir sozinho. Tenho o privilégio de possuir um plano de saúde por enquanto, mas comprar essas pílulas me dá um asco por princípio, e me entristece saber que eu preciso delas. Enquanto eu decido tomar as minhas pílulas na maioria dos dias, médiques podem começar a substituição hormonal em crianças desde uma idade muito jovem para se desenvolverem como “meninos ou meninas típiques”. Os resultados são irreversíveis, às vezes. Há tantas coisas que as pessoas intersexo precisam sofrer, e se recuperarem delas. Por muito tempo, eu acreditei no modelo médico de intersexo, que eu era algum tipo de menina-coisa e que era o trabalho des médiques me fazerem “normal” – apagarem as partes de mim que eram estranhas demais, grandes demais, e me ajudarem a ser essa menina “real” que estava soterrada algum lugar por dentro de mim. Eu nasci no meio da década de 1980, quando não havia ainda a internet, e eu nunca tinha ouvido falar em intersexo como algo além de uma condição médica. Só comecei a explorar o intersexo na faculdade, no meu computadorzão tosco do alojamento estudantil, quando minha colega de quarto estava ausente. Comecei a aprender sobre meu corpo e ver outras perspectivas. Existiam outras pessoas intersexo, como eu, que pareciam pensar que ser intersexo não era algo ruim e que precisava ser consertado e apagado. Disseram que o que havia sido feito com seus corpos era errado, que foi feito sem seu consentimento, que suas famílias e médiques não deveriam poder fazer escolhas sobre o que devia ser feito a seus corpos se não for sobre saúde. Diziam que médiques não deviam se envolver de maneira alguma: se nossos corpos naturais são saudáveis, argumentaram, por que ir ae médique para “consertá-los”? Se não estamos doentes – o que há para consertar?
(Na faixa, está escrito “Hermafroditas com Atitude) O que devia ser consertado é a maneira em que percebemos a intersexualidade na nossa sociedade, e os procedimentos médicos cosméticos aos quais somos submetides sem nosso consentimento. Ativistas intersexuais começaram a se mobilizar no começo dos anos 1990. O primeiro protesto público feito por pessoas intersexo aconteceu em 1996 (na foto), quando eu tinha apenas dez anos, dois anos após eu ter aprendido que não tinha um útero e que não iria menstruar, e três anos antes deu escutar a palavra “intersexo” pela primeira vez. Desde então, muites ativistas intersexo têm se esforçado para aumentar a consciência de que a intersexualidade existe e que somos apenas pessoas normais, mesmo se nossos corpos são menos comuns. Hoje em dia, sei que o modelo médico não é correto, e eu estive trabalhando para mudar isso. Sou autora do blog Full Frontal Activism: Intersex and Awesome (Ativismo Direto: Intersexo e Daora), a co-fundadora e co-coordenadora dos eventos anuais do Dia de Consciencialização Intersexo da cidade de Nova York, e a Diretora Associada da parte estadunidense da Organization Intersex International (Organização Intersexo Internacional / OII), o maior grupo de advocacia do mundo para causas intersexo. Como uma lésbica, também estive fazendo mais pensando sobre a intersecção de questões intersexo e queer, como o inerente heterossexismo em fazer procedimentos cirúrgicos para garantir que uma vagina possa acomodar um pênis, ou construir um “clitóris normal” que não irá assustar um parceiro homem cis. Também está se tornando comum procurar alguns tipos de intersexualidade em fetos, como a hiperplasia adrenal congênita (CAH). Muitas pessoas com CAH são designadas e criadas como mulheres, mas como elas possuem níveis de testosterona, ser queer é considerado um efeito secundário de CAH. “CAH leva à viagadem”. Então as pessoas estão escolhendo testar o sangue para ver se suas crianças terão CAH, e aí decidem se querem ou não abortarem. Tudo isso é Queerfóbico, pois não deixa espaço para essas crianças decidirem o que querem, como querem que seu corpo pareça e funcione, baseado em quem sentem atração e que tipos de sexo querem fazer algum dia. Há vários motivos pelos quais famílias e médiques podem querer alterar cirurgicamente uma criança, e em alguns casos, a Queerfobia pode estar, infelizmente, no topo dessa lista. Intersexo agora está sendo incluído na sigla LGBTQ, adicionando o “i”. Nem todas as pessoas intersexo estão confortáveis com isso, e muitos dos mesmos argumentos que foram usados antes de incluírem a letrinha “T” para Trans agora são usados para intersexo: que intersexo não é uma atração sexual ou um gênero. Que nem todas as pessoas intersexo são queer de maneira LGBT ou outras maneiras, e não querem estar associadas à comunidade LGBTQ. Nem todas as pessoas intersexo querem reconhecer publicamente sua intersexualidade, ou não se identificam como tal, porque pessoas intersexo são normais como somos. Porém, mais ativistas intersexo estão querendo a inclusão do “i” no LGBTQI, porque nossos objetivos principais combinam com os de outros movimentos queer: nos tratem como iguais e aceitem a nossa autonomia, independente do nosso sexo e gênero e o que escolhemos fazer com nossos corpos. Olhe para nós, saiba que somos reais e que somos visíveis se você abrir seus olhos e sua mente, e saiba no seu coração que o que está acontecendo com nós é uma merda. Deixe que nós escolhamos o que fazer com nossos corpos e nós mesmes. Estou muito empolgada de estar falando sobre questões intersexo na Autostraddle (o site original em que foi publicado, que possui muito foco em questões lésbicas e queer). Enquanto eu quero discutir questões amplamente relacionadas com intersexualidade, quero muito focar em questões que afetam mulheres intersexo que são queer. Como nossos corpos influenciam os nossos entendimentos das nossas atrações sexuais. Como ser intersexo adiciona uma outra camada de “sair do armário” e se assumir a parceires sexuais e a namorades em potencial. Como ser queer se torna uma outra dimensão quando as pessoas descobrem que você é queer E intersexo. Como apoiar parceires sexuais que são intersexo, que podem ter cicatrizes emocionais e físicas por causa do CIStema médico. Também quero dividir um pouco da minha história – minhas histórias pessoais – e criar uns diálogos sobre questões intersexo que vocês, leitories, possam ter. Obrigada por me deixarem dividir isso com vocês, é muito bom conhecer vocês <3 . Texto original escrito por Claudia, neste link. Tradução por Cosmo












