Caído sobre o gramado recém-aparado e cercado por uma porção de estranhos, o calouro levou algum tempo para entender onde estava e exatamente o que havia acontecido, quem eram aquelas pessoas e porque sua cabeça parecia ter sido atingida por um lutador de sumô. As pálpebras dos olhos lutavam contra a exposição solar que o cegavam temporariamente, contribuindo para a sensação confusa e de tontura que sua cabeça sentia naquele momento, sendo capaz de processar apenas o ruído das vozes desconhecidas e o mormaço da tarde quente que lhe queimava a pele. Não fazia ideia de quanto tempo havia passado desacordado: toda orientação temporal desapareceu quando sua vista começou a ficar turva, rapidamente tornando-se um escuro total, até que não podia ouvir mais nada.
Também não era capaz de elaborar em cuidadosos detalhes o que havia de fato acontecido, mas para sempre se lembraria daquele dia, já que fora o momento em que, pela primeira vez, Anastasia o fizera perder o ar – e, bom, também sua consciência, temporariamente. Estava caminhando na presença de seu mais novo conhecido, um calouro com talentos promissores para o basquete, Tyler, que havia conhecido há poucos dias durante a semana de recepção dos calouros e que, naquela tarde, iria realizar seu tryout para o time universitário e contava com o apoio do jovem García. A caminho da quadra poliesportiva os dois colegas conversavam sobre as expectativas da graduação e outras trivialidades típicas à conversas de segundas-feiras, até que Tomás teve sua atenção subitamente capturada pela figura feminina que disputava uma partida de futebol há poucos metros de onde estava – os longos fios dourados presos em um rabo de cavalo permitiam que sua beleza pudesse ser vista mesmo que de longe, especialmente quando os raios solares iluminavam os olhos azuis como o oceano pacífico, algo que o rapaz jamais havia visto. Em seguida, os passos se tornaram mais espaçados e lentos ao mesmo tempo que os batimentos cardíacos adotavam um ritmo desconhecido, acelerando a produção de neurotransmissores que sequer julgava ter – talvez ficaria mais aliviado se soubesse que estava prestes à ter um mal súbito e não seu coração flechado para sempre. Completamente atordoado por sentimentos ainda tão inexplorados, Tom não percebeu que caminhava em direção ao mastro da bandeira antes que fosse tarde demais, quando topou a cabeça na enorme viga de metal, apagando completamente alguns instantes depois. Sob qualquer outra circunstância ele se sentiria petrificado pela própria vergonha, mas não daquela vez, muito provavelmente por conta do corte de que tinha em sua testa e que certamente havia causado mais estragos do que poderia antecipar ou então pelos níveis altíssimos de seratonina que seu corpo estava produzindo, não saberia dizer.