Fightless bird || Gangmason
Surpreso, Mason perde o equilíbrio com o peso repentino do meio-irmão que saltou sobre suas costas e usou de todos seus artifícios para laçá-lo. Os passos sem apoio levou o corpo a cambalear por um tempo ao mesmo que tanta se livrar do outro em suas costas, mas de nada adiantou e Troy encontrou o chão. O cansaço já se faz presente retendo todos os músculos do corpo, o desconforto dos golpes já desferidos o embala numa sensação de dor quase profunda. O moreno agarrou a terra batida sobre o chão ao sentir o sapato de Wolf em suas costas forçando-o cada vez mais para baixo, e uma careta de dor desenhou seu rosto embaralhando toda e qualquer emoção que está sentindo. Na tentativa de escapar, Troy usa suas asas que não para de bater e agitar a terra em volta, porém, não é proposital. O bater de asas é algo involuntário, quase como um reflexo do corpo para escapar do que o prende. – Wolf, pare! – Pede o mais velho em súplica. Pedido este que fora ignorado.
As mãos alheias tomaram os músculos da grandes asas de Mason que arregalou os olhos no temor do que está por vir. – Wolf… Não… O que você vai fazer? Wolf? – E um puxão, violento, o tonteia. O grito de dor com certeza deve ser o som mais alto de toda aquela batalha. O choro irrompe os olhos e a força lhe é arrancada como um pequeno pé de flor. Os dedos das mãos cravam no chão, as palmas batem, a careta de dor é predominante. – Wolf… – Mason tenta falar, mas um novo puxão é feito. Alívio. Gates a soltou e seu corpo inteiro relaxou enquanto trabalha para recuperar as forças e espantar as dores para longe. – Wolf, pare. Por favor! – Diz entre o choro que não é exacerbado, mas tão discreto e perceptível como o sair de uma nuvem da frente do sol. – Não faz isso, por favor! – As mãos já presas em suas costas o imobiliza por quase completo, sem nenhuma forma de poder extravasar a dor que já sente e, provavelmente, a que vai sentir novamente no fim da contagem regressiva.
O moreno fecha os olhos e espera pelo pior. Nada do que falar vai adiantar. Wolfgang parece que ignorá-lo, não se importa com o que está fazendo como se tivesse desligado sua humanidade, então pronto, é seu fim. Hoje é sai morte. Mais um grito. Súplica, dor, choro, tudo junto e ao mesmo tempo. O estalo mostrou-o que Gates estava conseguindo o que queria. Suas asas, na tentativa falha de se defender, torna-se um alvo fácil – ainda que por entre as mãos fortes de Wolf. – Não… Por… Favor…! – Pede novamente, mas desta vez sem voz alguma. “3… 2…” outro puxão. A dor já não mais faz tanto efeito, mas ainda assim é desconfortável. A visão sem nenhum propósito, sem nenhum foco mira em qualquer coisa. Os braços e o corpo tão moles quanto gelatina está prestes a desfalecer no chão de terra duro e batido. Um baque quase surdo e Troy a vê. Uma de suas asas caídas sobre o chão em seu campo de visão. A força que ainda lhe resta o mais velho usa para tentar movê-la, levantá-la e batê-la para longe dali no mais alto auge de sua glória para esbanjar a beleza das penas brancas-acinzentadas. As lágrimas escorrem para o lado, pelo seu nariz até encontrar o outro olho e escorrer junto com as outras. Sem movimento, sem vida e com uma dor descomunal por tentar mexê-la.
As palavras querem sair, querem cair sobre o meio-irmão, mas as forças e a vontade o impede por falta dos mesmos. Parte da asa que está em seu campo de visão é apenas o lembra do quão inútil que foi em proteger algo que nunca o decepcionou algo que poderia confiar até a própria vida, pois o salvaria – como em várias situações. Agora estavam mortas.
O garoto Gates nunca tivera o luxo de passar horas num gramado fervilhante de pequenas vidas. Não passara as tardes entediantes de verão fritando formigas sob a lupa ou jogando sal sobre lesmas lentas e desavisadas. Contudo, o prazer de torturar forrava sua boca como um cobertor a uma cama. Doce e amargo, tão pungente quanto veneno. Era delicioso ao primeiro toque, como sangue misturado ao chocolate, mas deixava um gosto ruim no fim que somente uma nova dose da droga podia suplantar a experiência. Wolf passou as costas das luvas sobre a testa coberta de pequenas gotículas de suor. Seu corpo inteiro aquecia por baixo da armadura um desconfortável e pesada. Quem diria que o esforço para quebrar metade dos ossos de cada asa levantaria tanto desperdício de fôlego e tempo? Talvez devesse ter prendido-as com estacas ao solo e pisado, pulado, por toda a extensão. Um suspiro escapou por entre os lábios entreabertos de ânsia, de desejo. Um suspiro que chegava a ser um gemido, doloroso em sua antecipação crescendo e explodindo dentro de seu ser.
O som. A súplica. Parecia que o próprio Troy sussurrava-lhe no pé do ouvido. O hálito quente brincando com o arco cartilaginoso e os pêlos da nunca se eriçando em resposta. Como daquela vez... Wolfgang balançou a cabeça expulsando o pensamento. Deu apinhas entre as omoplatas e levantou-se, batendo as mãos juntas e tirando o excesso de pena e sangue. Sangue que escapara pela pele aberta por ossos quebrados e farpas perdidas. “Finalmente, não?” Soprou um riso descontraído, como se estivesse se despedindo da companhia da noite pela manhã, a diversão estampada para não mostrar o rápido desinteresse quando se afastava com passos cegos, de costas. “Um teste final para garantir o resultado.” Os pés postado em cada lado de seu peito, Wolf se inclinou para frente e pegou as asas na parte mole, os braços serpenteando pelos membros moles, contornando e se enrolando neles. Tão logo começou, o fim chegou. Parecia que os braços tinham virados asas, como Ícaro e seus experimentos. Mais uma vez, se apoiou como antes, o corpo pronto para cair para trás e usar o peso como um complemento de força bruta. O filho de Nêmesis chegou a torcer o tronco para trás, a respiração suspendendo pela força que impregnava em suas ações. Estúpido teria dito alguém que visse a cena. Asas não simplesmente se soltam do corpo como legos, num plof de desencaixe e simplicidade.
Assim, enrolado nele, Wolf ficou de quatro por cima de Troy. Colou os lábios no ouvido dele, tranquilizando-o com as próximas palavras. “Não se preocupe. Faz parte do plano.” Tudo fazia parte do plano. Tudo. Se desvencilhou das asas, puxou a faca curta do cinturão e a agitou na frente dos olhos claros do treinador. “Ela vai fazer algo incrível com você. Algo sem... Beije-a. Dê-lhe sua benção.” Wolf empurrou o rosto de Mason contra a terra, o prendendo naquela posição lateral, e pressionou o metal quente contra os lábios alheios. Procurou o lado mais desenvolvido da base das asas, aquele cujos músculos eram mais fortes e, consequentemente, mais difíceis de romper. Cortou-os até sentir os ossos raspando na ponta e repetiu o processo com a outra asa. É suficiente. Preparando-se para mais um puxão, Wolgang soube que este era o último. O sangue que manchava as penas e o que aflorava nos recentes cortes indicavam tanto o derradeiro decepamento quanto a evanescência da vida de seu oponente. “Oponente.” Os lábios moveram formando a palavra conhecida e... errada. Os dois eram mais que oponentes, eram mais do que as palavras raivosas de Marte em sua cabeça gritavam e ordenavam. Fiquem. Longe. A resposta ferina expulsou as vozes para um canto. Sua vontade era tão semelhante ao feitiço que não havia necessidade de mais influências.
Wolfgang sentiu o corpo descendo, vencendo os obstáculos impostos pela carne e ossos. Lentamente seu corpo foi ganhando terreno, descendo de encontro ao solo. Quando, enfim, aquelas poderosas asas debateram-se livres, o garoto tinha o joelho fincado na terra. “Você viu isso?” Seus olhos brilhavam em êxtase. “Você. Viu. Isso?” Contornou o corpo caído de Troy arrastando as asas atrás de si. Soltou uma risada alta. “Oh... Foi incrível.” Ele vibrava com a adrenalina em suas veias, sentia a eletricidade correr por baixo de sua pele, comichando para ser libertada. Largou as asas num canto e pegou-o pelos calcanhares, girando-o no chão até que seu corpo estivesse virado para a guerra que se desenrolava. “Consegue ver? Sim, você consegue.” Acocorou na frente dele, admirando seu rosto quase com ternura. Com a faca, partiu a amarra de suas mãos e puxou as asas para perto de suas mãos, o cobrindo com elas. “Então, esse é o fim, Troy Mason filho de Nêmesis. Você tem a melhor visão de todas, se livrou desse peso morto e teve o privilégio de ter as mudanças feitas por mim.” Bateu as palmas jocosamente. “E pensar que eu amei você.” Balançou a cabeça olhando para a ponta dos sapatos. Seus lábios se abriram num sorriso sonhador, mas não pelas memórias. Uma sede mais urgente clamava sua cota. “Se deitar de costas, talvez, você dure mais uma hora.” Piscou e se virou para a guerra. “Tchau.”










