@naberrics
A primeira vez que Charles Bainton tocou as mãos nuas de Isobel Davenport, ele não teve sequer a oportunidade de cruzar olhares com ela.
A história é complicada porque nem sequer o próprio se lembra dela exatamente. Estava demasiadamente escuro, e seu corpo estava tomado por uma exaustão inexplicável, e uma preocupação que enuviava a cabeça preocupada do rapaz. Sua memória falhava, e sequer conseguia confiar no relato de outras pessoas porque, no fim, estavam na mesma situação que ele.
Pessoas que trabalham em sua residência de veraneio eram capazes de contar mais ou menos o que tinha acontecido, e eram nessas palavras que Charles depositava sua certeza. O breu noturno característico, o silêncio dos quartos ocupados enquanto os amigos dormiam, os cozinheiros e camareiros andando para lá e para cá para se prepararem para o café da manhã.
Mas, então, cheiro de fumaça. Um calor nada característico vindo das cozinhas. Uma pessoa falando um pouco mais alto, chamando o nome da cozinheira chefe, e outras vozes se mesclando em clamor. Sua mãe afirma que foi um incêndio, ou pelo menos o início de um, mas Charles não se lembra. E, honestamente, nem mesmo o melhor amigo, Dylan, que provavelmente estava de ressaca. Mas isso era assunto para depois.
O que sua memória lhe presenteia era apenas o levantar de supetão, o inalar dificultoso, a corrida de quarto em quarto para bater nas portas e fazer todo mundo se levantar. E, então, o dela, que talvez tenha sido antes de ter ido acordar Daphne, ou depois, ou... Charles lembra do esvoaçar dos cabelos dourados, da roupa inapropriada para uma dama se encontrar com o rapaz, e do desespero que sentiu ao chamar o nome de Isabel.
Acredita que, naquele começo de dia, ele agarrou a palma feminina (ou foi o pulso?) e a puxou sem muitas delicadezas para perto de si, enquanto caminhava pelos corredores do casebre. Esperava que seu toque não tivesse machucado a Davenport, nem sequer deixado uma marca para trás. Mas talvez tenha acontecido. Ninguém nunca lhe reportou sobre.
Ainda assim, Charles se forçava a pensar. Não sobre o incêndio, nem ao menos sobre o desespero que sentiu. Ele tentava recriar a situação para saber se, um dia, sua mão resvalou contra as dela. Sem as luvas, sem o esconderijo e subterfúgio de um tecido, mas... a sensação crua, pele com pele, que ele nunca tinha parado para pensar (ou entender) o tanto que queria isso. Sentir a mão dela. Era inadequado pensar assim? Talvez, certo? Como um cavalheiro, ele não deveria pensar sobre a pele branquinha, ou as unhas de Isobel — dirá sonhar com isso, mas lá estava ele: de barriga para cima, olhos fechados, concentrado.
As mãos de Isobel. O desespero de querer salvá-la. Sua voz ressoando o nome dela. A falta de delicadeza. As mãos de Isobel. As mãos de Isobel. As mãos...






