Doce, bala, água, fumo, amor
No sopé de uma ladeira que dava em festa, um amigo colocou uma bala colorida na minha língua. "Deixa aí um tempo, depois", aponta para meu copo de cerveja, imita um gole com as mãos e "mágica." Logo após, brotou um unicórnio roxo e felpudo atrás de mim me chamando. Fechava meu carro a garantir que houvesse um motor que nos arrastasse de volta. Olhei para trás e tinha mesmo um unicórnio roxo felpudo a me chamar. "[Meu nome]", ele disse. Uma mulher que saía de dentro dele em rosto veio, me abraçou e foi. Mágica, tinha dito mesmo o Zé.
Pegadas molhadas acima à ladeira de paralelepípedos. Não entendia a metáfora de subir uma colina e disparar o sangue na subida para festejar. Ingressos na mão, curraizinhos com pessoas fantasiadas, identidade. "Pode passar", e você está dentro de uma hedonia lisérgica universitária regada a open bar. "Mas não bebe muito não, fica hidratado, cara. O negócio já tá no teu sangue." Ainda bem, água também era open bar. "Meu querido, me vê quatro copos d'água aí por favor."
Da bancada, viraram-se quatro caras: eu mais um carioca com ansiedade crônica, um judeu na fé de que cada festa é a última e um traficante amigo de infância. Encostados no balcão, a gente tentava entender que festa rolava ali. Quatro cabeças anárquicas juntas somente pela conveniência de dividir uma viagem e anos variados de amizade. À vista, gente em fantasias diversas que pareciam sempre a mesma. Nos ouvidos, um remix bate estaca de "Soluços" do Jards Macalé, que gritava sob a guitarra: "Meus olhos ficam vermelhos, irritados. Eu ainda não comprei meus óculos escuros! Quando você me encontrar, não fale comigo, não olhe pra mim…"Logo interrompido num drop, e todas as cabeças de óculos escuros freneticamente balançavam através dos graves.
O primeiro gole de água desce seco em nós quatro. Copo vazio, mais sede. Tá batendo. Os quatro acendemos um cigarro. Os três sopraram pra frente. Eu soltei a fumaça olhando pro alto e a esperei dissipar no céu nublado de lasers e refletores. Quando retorno, todo mundo que olho - meus amigos ao lado, os estranhos à frente - exibem um trincado sorriso. Também sorria. Bateu.
Fisiologicamente impossível ficar parado. O bate estaca era metáfora para efeitos óbvios, regendo como maestro a sinfonia de pescoços cambaleantes, braços se movimentando em arcos e pés pra lá e pra cá. Tudo era muito bonito, uma coisa eletrônica em ordem de música clássica através de gente. Na cabeça, todas as cenas, um filme: toques esbarrados em corpos sob luzes neon, homens e mulheres em êxtase dentro dos seus óculos escuros. Cada um numa festinha particular de seus sentidos borrados.
Chão pra dançar movido a vapor. No mesmo estado das pupilas dilatadas, os brônquios também se abrem, respirar é algo maravilhoso. E, fumando, cada tragada parecia 10 suspiros que você só tem uma vez na vida. Eu olho pro lado, vejo os meus no mesmo deleite, entregues completos a droga da felicidade. Tudo parece muito certo, e no fundo tem uns conhecidos de faculdade e velhos amigos infância. Um crossover dos meus mundos. Que coisa linda, pensava de novo. Tudo completo, ou quase. "Zé, tu viu uma garota vestida de unicórnio roxo felpudo por aí?"
Marcha lenta, a música se encaminha a uma lentidão e gradativamente diminui. Um mar de gente ritmada se abre em filas, deixando grandes corredores vazios. Num deles, eu me coloco no meio, paro de dançar, acendo um cigarro e me viro. Sob a lama, eu corro entres os espaço procurando algum retalho roxo como se tudo estivesse em silêncio. Sozinho, rodo a festa inteira, uma câmera irreal me acompanha interessantíssimo em cada passo. Não encontro. (podia ser uma bad, mas não)
De volta, acho minha trupe na esquina de uma tenda perto do palco. Os movimentos do maxilar frenético mascando um chiclete de canela cessam. Meu pés não se mexem tanto, o mundo desacelera de vez e não volta pra correr. "Tá passando", um amigo avisa, e não se passaram duas horas. Outros dois param, apertam um cigarro altamente suspeito para ajustar os ânimos. O que era sentir, agora é observar. As ondas alheias, os homens exibindo músculos e mulheres fantasiadas sem muito pano num frio de 15 graus. As minhas mangas ainda eriçadas, sentia calor e suava depois daquela breve viagem.
Eis que o traficante surge trazendo pedaços de papel. "Sobrou." E como num ritual, distribui em três partes a sua hóstia de 2 cm². "Deixa na língua", sem gosto. Deixou um de estepe e desapareceu na multidão como o Mestre dos Magos. Enquanto esperava bater, volta e meia eu saia do grupo pra caçar de novo o unicórnio roxo. Nada. Procurava o grupo de novo, agora com mais três amigos, um casal e uma menina com quem eu tinha dividido anos em um curso de inglês. 30 minutos, nada. Um reclamava. Uma hora, nada. Não vai bater, chegamos a conclusão e eu fui dar mais um rolê despretensioso.
Na volta, me perdi do grupo e fiquei com uns colegas de faculdade. Uma hora e meia, nada. Sóbrio, eu tinha encontrado uma certa alegria de dançar, curtir e viver aquilo sem aditivos. Uma amiga pergunta o que eu tinha tomado. "7 copos d'água, uma bala que já passou e um doce que não bateu". Perfeitamente sóbrio, eu repetia. Nossa, eu tô muito sóbrio, isso é muito incrível. O tempo passava e eu me encantava com a ideia. Sóbrio, sóbrio, sóbrio. Que lindo essas cores em delírio de coisas puramente reais. "Luísa, vem cá", decidi checar. Abaixo meus óculos escuros e pergunto como está meu olho. Ela se aproxima, "Qual é a cor dos seus olhos mesmo?" Doidão sem ninguém pra avisar. Decido ignorar.
Passando, um José enlouquecido me agarra repetindo que aquilo tudo era muito incrível, fazia juras de amor e amizade e me arrastava correndo pra um paredão de caixas de som tocando funk. "Tô muito feliz," e eu não conseguia também saber se seus olhos eram pretos ou castanhos. Ele tinha chegado a última festa da sua vida e jamais iria querer ir embora. Eu me desgarro da multidão pra dançar mais livre lá trás e volto a outro grupo e encontro com o carioca em êxtase chegando na Luísa. Na verdade ela queria ficar com o traficante, ou com o amigo dele que também era traficante. Curioso gosto, mas eu estava sóbrio, repetia. Essa era minha onda enquanto eu via aquela festa em 4K achando a coisa mais normal do mundo. De novo, eu mentia pra Luísa como tava sóbrio e de que o carioca era um par melhor do que a dupla que ela queria. Aí um rosto irrompe nosso círculo e vem até mim, não diz nada e me agarra pra um beijo. "Eita, tá bem então", disse Luísa, interrompida. Me deu uma vontade enorme de rir enquanto minha língua passeava na terra dos unicórnios.
No momento aquele ser misterioso já estava despido de adornos fantásticos. Uma blusa de frio e não prestei mais atenção no resto. Um rosto branco, cabelos bem escuros, sobrancelhas destacadas e um resto um tanto lindo. Era alta, parecia menor de unicórnio, mas agora já era outra festa. É que o tempo nesse estado parece uma bola de pelos. Tudo é bem repetitivo a ponto de não valer dividir em intervalos convencionais. Era uma imensa festa com pequenas pausas, como todas, mas uma grande festa. E de toda agitação entorpecida entre estimulantes e depressivos, era a mulher atrás do unicórnio roxo que se destacava. Bem que podia ser uma alucinação, mas soava tão real quanto se pode ser.
De algum jeito, ela me puxou pro fundo da festa e agora eu irrompi o grupo dela. Um marmanjo alto de jaqueta verde, uma menina de olhos bem verdes e uma morena bem gordinha. Aquele ponto, em que chegamos às apresentações já de mãos dadas, eu tinha uma única e elementar preocupação: a Julia - não tinha falado o nome dela antes pra vocês - não poderia definitivamente ver que minha mente voava lá em cima como uma pipa. Sóbrio o caralho, minhas pupilas pareciam uma fruta de guaraná e eu via tudo de um jeito muito estranho. As cores antes vividas agora brincavam à minha vista. Um laser desafiando a física se dobrava, um refletor que lançava chamas verdes e ela que estava plasticamente operada em ácido: mais linda que qualquer coisa.
"Júlia, por aqui ninguém apareceu não", disse o marmanjo mal encarado de dois metros. "Mas não vai pra muito longe daqui, caso aconteça alguma coisa a gente tá aqui". Eu escutei, mas nem olhei o homem dizendo e certamente não faria perguntas. No modo oculto da minha lisergia eu decidi que a coisa mais sóbria que eu poderia fazer era simplesmente ficar quieto e olhando pro céu pra ninguém ter a mínima chance de me descobrir. Eu, o sóbrio, noiado até os ossos para que não reparassem nas minhas pupilas ocupando o todo do meu olho. Ela era careta, talvez não pegasse bem.
"Deixa eu te falar uma coisa", disse ela sem eu nem perguntar. Abaixei a festa na minha cabeça e tentei me concentrar no que ele iria dizer. Enquanto um unicórnio roxo felpuldo que não era ela passava atrás pulando como um coelho, Julia falou que o infeliz do ex-namorado dela tava lá. Logo abri o peito como um periquito prestes a voar, e eu juro que se eu me esforçasse um pouco e batesse os braços, talvez conseguisse. "Até aí tudo bem", continuava, "mas ele é um cara mega problemático e tá me perseguindo desde o início dos jogos". As possíveis asas abertas agora impossíveis. Ótimo, talvez tenha que cair na porrada com um cara que eu não sei a altura e estar alto não vai ajudar nem um pouco.
A minha onda agora era James Bond, talvez tenha escutado até a musiquinha. Julia conversava com os amigos e eu fitava todo rosto suspeito naquela festa para neutralizá-lo na surpresa. Eu não tinha a mínima ideia de como era o cara e isso era totalmente irrelevante. Até que ela pega de novo as minhas mãos e me traz de volta do planeta ficção. Ela me abraça, dessa vez sem beijo, e se esquenta se grudando no meu casaco. Não sabia que essas viagens às vezes faziam parada no céu.
Por volta das cinco da manhã, fazia muito frio naquela colina de Vassouras. O sol já nascia nas praias, mas demorava a chegar a nós cercados de montanhas. Agarrados e dançando como se tocasse um jazz lento, a luz acaba. Sem lasers e refletores, a gente daquela festa era iluminada por um azul de amanhecer enquanto berravam um "aaaaaah" em uníssono. Nunca entendi essa reação de sempre quando se acaba a luz. "Acho que isso foi planejado", disse ela, quase lendo minha mente. A conexão que atravessava toda minha ebriedade se fazia nela, e vi que minha caçada não era vã. Uma frase simples pra me convencer que ela era diferente. A luz pouca que refletia nas suas bochechas me deu a imagem de algo lindo, algo que eu podia me perder, escolher que detalhe de Julia eu iria admirar naquele véu de claridade. De muitas auroras, aquela entre todas foi a que mais gostei. Não sei por que mas eu adoro imaginar aquela multidão de cima - eu e ela num canto atrás abraçados por um céu azul menino. Era lindo, estivesse eu na onda ou sóbrio na areia. Não importou. Deu 30 segundos, a eletricidade voltou. Em 30 minutos, não importava. Já havia amanhecido.
Não dava para precisar, mas a cada vez que se reparava ficava mais claro. Não adiantava contar e tentar capturar nos minutos. Era algo fora do tempo. E enquanto eu me perdia tentando achar um momento impossível que daria pra discernir um momento mais escuro de um claro, ela sumiu. Mágica dos unicórnios.
Quando me vi, estava em frente ao palco. Tinha me reencontrado com o José e mais outros. O traficante havia sumido e o carioca se entregue a exaustão descansava no carro. Ali, no sol leve e no som de música eletrônica, entregues todos aquele último êxtase. Cada faixa podia ser a última e isso me fez lembrar um texto da faculdade. Tudo era melhor e dava mais vontade perto do fim. Ele se anunciava e, embora exaustos, a gente continuava, como se fosse a última festa, o último sopro, a última música, a última chance de bater a cabeça. Uma curiosa comunhão, eu olhava pro lado, os óculos agora úteis, os gestos de cansaço, a onda indo embora e todos resistindo, como crianças que ao entrarem no mar pela primeira vez decidem nunca mais sair de lá
Eu poderia entrar numa viagem filosófica sobre tudo isso, mas estava cansado. Sem muita onda, de volta ao corpo normal. Mas de qualquer forma, me senti um pouco triste de saber que tudo caminhava para isso, de que só se pode ver um unicórnio uma vez na vida. Ainda que a fantasia fique guardada no armário, hajam outras festas, outras viagens, mas sempre outras. Eu desci calmo a colina com a multidão enfurecida com o fim gritando meio ritmado: "Eu não vou embora!", repetidos em ênfase no "eu" e "-bora". Tudo é sempre fim o tempo todo, o resto é truque. Bati na porta, acordei o carioca: "vambora."
Chegamos numa república-mansão de medicina que tinha nos abrigado, o carioca entrou. Zé convenceu-me a seguir em frente e procurar algum lugar para gente fumar e conversar. Subimos uma colina numa estrada de chão e no topo, a vista daquela cidade que tinha também nos abrigado entre as montanhas para quatro dias de pura liberdade de se fazer o que quiser, como e com quem.
Lá, ligamos o rádio e uma estação pegou pela primeira vez, ainda com ruídos. Estávamos prestes a voltar pro mundo normal. Zé não percebeu mas a festa havia acabado. Agora só o após ou o after. Mesmo um pouco louco de ácido, ele bola um cigarro de haxixe. Era um truque dos antigos para fazer as ondas baterem de novo. E, de fato, bateram como batem na areia nos dias de calma. Não demorou muito para ele sugerir pegar o carro e subir as mais íngremes pastagens de Vassouras. Ele se divertia na ideia, outra metáfora de que a festa jamais poderia acabar. Eu procurava o que iria lembrar dessa bola de pelos de memória enrolada em quatro dias.
Há uma citação que não me lembraria no momento e me esqueço agora que diz algo óbvio. Nunca se volta o mesmo de uma viagem. De fato, não se volta, mesmo em viagens dentro de viagens dentro de viagens. Algo havia mudado, mas dentro. O sol brilhava o mesmo, as árvores verdes mesmas e os mesmos amigos intactos. Finada a penúltima viagem, voltamos ao quarto e me deitei num colchonete. Já eram dez da manhã e a luz iluminava pelas frestas das janelas. Deitado, encarava aquele teto craquelado, mas agora liso. Fiquei o encarando antes de dormir e vi nele surgir um mar azul do sul da Itália. Ondas calmas brilhando sob um sol que não estava naquele quarto, talvez em mim. Numa quina desse mar, um micro ponto roxo neon. Não sei quanto tempo fiquei encarando aquilo, mas sei que uma hora dormi. Acordei, não estava mais lá. Talvez em mim.
Acordados às 4 da tarde, começamos a empacotar e depois fomos checar os últimos jogos. Procurei a rainha das minhas paixões naquele fim orgia entorpecida num canto mais baixo de uma arquibancada. Demorei uns 10 minutos para decidir lhe dar um abraço de despedida ou não. Cheguei e ela me deu um beijo. Dei uma de preocupado e pedi para ela avisar a nossa amiga em comum quando chegasse em casa. Peguei a estrada de noite, deixei o carioca no Rio e José na sua praia. Voltei pra casa. E antes de me deitar, uma foto de uma menina toda maquiada em roxo neon num fundo azul apareceu na minha caixa de mensagens. "Chegou bem?"
Mágica, tinha dito mesmo o Zé.