Tenho tentado falar em voz alta: eu não amo ninguém. Preciso materializar, pelo menos em som, essa verdade dolorida.
Não é uma condição pontual, uma insatisfação específica na rotina da minha vida ou como ela está configurada agora. Não. É algo sólido e que não me parece transitório: tenho me achado incapaz de amar.
Romanticamente, sexualmente, fraternalmente, you name it; meu amor tem o pulso de um peito aberto e coração posto à mesa, dissecado a bisturi. Nada me toca, nada me comove. Sempre foi assim e só agora me dei conta? Ou esbarrei em alguém e na queda livre perdi essa chave fundamental que me abre às tolices colaterais do sentir?
Me sinto estranha, muitas vezes sem rumo. Acredito ser efeito da socialização que traça um roteiro e happy endings. E se o meu happily ever after tiver passado? Afinal, sabotei todos os homens que me amaram - o que ainda é indiferente, já que nem sei dizer se os amei verdadeiramente. Mas amava coisas sobre eles: amava o sexo, o gosto e o cheiro de um, amava a liberdade de outro, amava o conforto daquele que permanece até hoje, amava a estabilidade daquele que me levou ao altar. Mas, é isso? Somente isso?
Será que minha inabilidade de amar é uma descrença total em algo mais significativo? Será que minha ausência de sentimento é uma versão barata de Cartola ("de cada amor tu herdarás só o cinismo"), melodiosamente cantada enquanto repasso histórias e penso não ter parâmetro para nada?
Eu gostava muito de um poema que dizia "eu pareço pedra, eu queria ser pedra, mas nasci flor". Acho que hoje eu posso afirmar: eu pareço flor, tenho alma de flor, mas meu coração se fez pedra.
Pena daquele que vagueia nessa terra árida do meu peito.











