Mancha marrom
Autor: Lincoln Rogério de Souza, estudante da Universidade Federal de São Carlos;
Eu acordava todos os dias às cinco e meia da manhã com os sacodes da minha avó, D. Amália, aos gritos para que eu me aprontasse pra ir à escola. Não ousava desobedecer, mesmo extremamente sonolento, me esforçava e saia da cama indo direto ao banheiro pra jogar água no rosto e escovar os dentes. Descia e só então tomava meu café pra poder pôr a roupa do colégio. Esse ritual era exigido por vovó, que dizia sempre: — desastrado como você é, esse uniforme limpo ficaria marrom se tomasse o café depois de colocá-lo — e eu, prezando pela pouca paciência que me era cedida por ela, comia quieto e escutando seus sermões. Terminava com certa pressa (como sempre enrolava um pouco na cama) e me aprontava para caminhar até o colégio – eram cerca de quatro quilômetros da comunidade que morávamos e andando na velocidade que eu costumava andar, levava uns bons quarenta e cinco minutos.
Meu sonho era ser médico. Decidi que queria poder ajudar as pessoas aos doze quando vi mamãe ser atropelada ao ir me buscar na escola, – uma das poucas vezes que isso foi possível – um carro parecia arrancar com pressa pela rua e ao longe vinha a toda velocidade, mamãe já estava sobre o asfalto quando ele frenava o carro fazendo ecoar o som estridente das rodas rasgando o chão e fazendo seus pneus queimarem. Mamãe sobreviveu, mas com algum custo. Foi hospitalizada com ferimentos graves, algumas costelas fraturadas que por sorte não perfuraram nenhum órgão, a perna direita quebrada e uma pancada na cabeça. D. Amália quase morria do coração quando foi avisada sobre o acidente, correu para o hospital pra assegurar que sua única filha viva não perdesse essa posição – dos cinco filhos, mamãe fora a única que sobrevivera a vida. Sobrevivera a vida, mas não viveu mais como antes – as costelas sempre doíam e a perna direita mancava. E daí o sonho de ser médico, salvar gente que nem mamãe, aliviar a tensão de “Donas Amálias”. Mas pra gente como a gente, esse sonho parece bastante distante.
Apesar de tudo, minha adolescência não foi ruim, minha mãe trabalhava demais e mal a via; já meu pai, nunca o conheci. Como minha avó era aposentada e o dinheiro não era suficiente, mamãe trabalhava de diarista para completar a renda e conseguirmos seguir sem dificuldades. Nunca tivemos uma vida de luxos, mas o necessário nunca faltou e minha avó se certificava disso. Apesar dos problemas decorridos do acidente, mamãe reforçava: — criança tem que estar na escola e não trabalhando, o dinheiro que eu consigo mais a aposentadoria dá conta do necessário — perdi as contas de quantas vezes ouvia isso sugerindo que eu arrumasse um emprego, ou quando D. Amália tentava fazer mamãe mudar de ideia. Como o trabalho não era uma opção, então eu me empenhava nos estudos pra, quem sabe, alcançar meu sonho.
A adolescência acaba aos dezesseis anos pra quem é da periferia, isso se não acabar antes. A gente precisa amadurecer rápido pra lidar com os corres da vida, pra sobreviver a vida. Mamãe descobriu isso vendo os irmãos morrer, vendo a mãe chorar a perda, mas continuar na luta – e o pai, que pai? E assim seguia, pra ela, o seu lugar de criança era limpando casa de quem quisesse empregá-la e pagar pouco pelo serviço duro que fazia. A minha sorte era ser filho dela e ter o privilégio de estudar aos dezesseis, dezessete, dezoito. Aos dezoito as coisas mudam ainda mais, mamãe já não via mais como criança e adulto se responsabiliza pelas escolhas: — não posso mais bancar todos seus estudos, filho. Você vai precisar fazer algo pra me ajudar e pra você poder se tornar o médico que sonha ser — ela dizia com um pesar crescente a cada palavra, num tom morno, evitando as lágrimas na voz. E eu respondia, calmo: — você já fez até mais que pode, vou arrumar um emprego, mãe.
Falar isso em voz alta até causava um arrepio. Enquanto a maioria dos colegas da escola trabalhavam desde os quatorze, pude prolongar minha exclusividade de dedicação aos estudos por quatro anos – um privilégio que dobrava o peso sobre as costas de minha mãe e avó. De fato, medicina não era pra preto, pobre, favelado. Rotina de casa, trabalho, estudo, casa, sono, em um ciclo irrefreável, passaram-se alguns anos; eu já fazia vinte e um, quando D. Amália começou a adoecer – infelizmente, não fui médico pra salvar gente como D. Amália e aliviar a tensão da mamãe. A mulher veio a falecer e com ela morreu também uma parte de nós. A casa sem os ecos dos gritos, as batidas nas panelas impecavelmente ariadas e a televisão alta pela surdez foram extintos em duas batidas desritmadas de um velho coração; a filha sobrevivente sobrevivera a vida mais que a mãe espectadora dos filhos mortos – num acorde errado da partitura da vida, caiu abaixo do solo. E meses fúnebres vieram, passaram deixando a marca quente e úmida, rebatiam e batiam vez mais, vez menos; os sonhos mantinham-se em segundo plano, a medicina parecia mais distante que nunca, mais distante que nunca. E de fato o era, a distância entre mim e a medicina foi aumentada pela morte. Não a de D. Amália, mas a minha própria. Sete tiros de advertência no peito, um estojo de ferramentas numa mão e uma foto da mamãe na carteira. Eu não sobrevivi a vida. Outra vida roubou a minha possibilidade de sobrevivência. E essa escolha arbitrária não tardaria em roubar outra, e mais outra, e mais outra. Os estampidos ainda ecoam nas ruas vazias e o sangue ainda tinge a camisa que eu usava – camisa branca, que bem naquele dia, estava marrom manchada pelo café; e eu, tão desastrado que fui, manchei a camisa derramando o marrom e o vermelho, o marrom da pele e o vermelho do sangue.













