TAYLOR SWIFT NÃO ALCANÇOU O EU-UNIVERSAL:
É madrugada lá fora, baby.
É sempre madrugada lá fora, é sempre madrugada em qualquer coisa que eu escreva. Acho que é essa uma das centenas de milhares de razões por você sempre detestar minhas palavras e ter odiado desde o início cada coisa que redigi, exceto as coisas boas, exceto as boas palavras que eram dedicadas a você. Porque as ruins, óbvia e justificavelmente, você odiava, mesmo quando diziam uma verdade ou outra sobre mim, sobre você, sobre nós ou sobre o mundo.
Agora eu compreendo. Deve ser um saco conviver com um tipinho parecido de Taylor Swift, só que com mais classe e talento. Ou com mais ilusão. É, mais ilusão - a parte da falta de talento posso encontrar um exército inteiro que confirme isso. Mentira, essa parte foi ironia.
A verdade é que fingimos compostura, mas compostura é tudo o que não temos. A verdade é que fingimos classe, fingimos refinamento, fingimos um charme que todas as menininhas e todos os menininhos esperam que tenhamos, mas que no fundo nunca tivemos. Eles não fazem ideia, mas somos sujeitos normais, normais até demais - sobretudo no que refere-se aos erros, às míseras falhas e às segundas-feiras maquiadas pela pacata rotina.
Além da ilusão, há a dúvida.
Fernando Pessoa dizia, na passagem que me bombardeia a cabeça nas últimas semanas, que era a mesma prosa que escrevia, ao passo que dizia que isso era um perfeito fingimento e que o poeta é um fingidor e bla bla bla blá. A minha dúvida não é sobre qual a verdade ele defendia ou acreditava, afinal verdades são relativas. Absolutamente relativas. A minha dúvida é sobre outras palavras que li recentemente de um autor desconhecido, desses que você não grava o nome. Ele defendia o que defendo: você não precisa ser e muitas vezes nem sequer é aquilo que escreve. Há de se separar construção de construtor.
Bukowski não era um beberrão e London não falava sobre vaginas, mas sobre lobos - os solitários e os do mar. Freud relativizava tudo em função do sexo, mas era um corretíssimo homem de família. Daí vem a minha dúvida: algum autor desconhecido que eu não lembrarei o nome disse que você nem sempre é o que escreve, postula ou defende.
O quanto se distingue Criador de Criatura?
Por isso você odiava minha escrita. Por isso você odiava a mim, mesmo que ocultamente lá no fundo. Porque eu era e sempre fui o que escrevi, o que necessariamente significa, segundo a maioria dos estudos, ensaios e monstros literários, que sou um autor ingênuo, infantil, amador e sem talento, pois não alcancei o Eu Universal. E talvez nem alcance, talvez eu não queira, talvez eu esteja preso ao fracasso e à sina de achar que nasci para isso, quando na verdade só me iludi.
Quando na verdade tudo não passa de uma mera
Você me fez acreditar nisso. Com fé eu acreditei, fiz desse o meu altar mais real e meu santo mais fiel.
Eu agradeceria de bom grado, caso não fosse perturbador e angustiante demais.
mas seria mais uma ironia.
Mas talvez haja uma verdade latente que eu tenha ignorado. Acho que você sempre esteve disposta a detestar minhas palavras, porque eram expostas demais, como um porco esfolado que continua gritando e esperneando e incomodando e reclamando e escrevendo e sofrendo e dramatizando e toda essa merda que fazemos sem pausas como uma passagem sem vírgulas.
Eu só queria chegar à conclusão de que onde quer que estivéssemos ou quem quer que fôssemos, com ou sem Eu Universais, você sempre detestaria minhas palavras e sempre me angustiaria com a impressão de que é um grande erro eu vir aqui ao encontro delas, à criação delas ou à doação a elas. Você as detestaria porque não sou desses que expõem opiniões públicas sobre sociedade, cultura ou arte de maneira inteligente, sarcástica e cavalheiresca. Você as detestaria porque eu continuo sendo desses que expõem a ferida e expõem o avesso, desses que expõem a verdade sanguinária sobre mim, sobre nós, sobre o mundo.
Vocês as detestaria porque sabe que sou
Não à toa em cada coisa que escrevo, continua madrugada lá fora. Não à toa em cada coisa que escrevo,repito o mesmo cenário de novo, de novo e de novo. Não à toa as palavras que você odiava enxergar, amava desprezar ou adorava envergonhar-se continuam a falar sobre as mesmas coisas - dores, apegos, impossíveis desapegos, traições, substituições, sexo, suspiro, sanidade e sabotagem.
Eu não tenho um Eu Universal, talvez eu não queira distanciar-me da proximidade que essas palavras têm para com o meu ser pulsante que escreve porque vive e que escreve porque tem alma.
Vá em frente e encontre alguém que o tenha (esse Eu Universal), pois continuarei por aqui: gritando e esperneando e incomodando e reclamando e escrevendo e sofrendo e dramatizando e toda essa merda que fazemos sem pausas como uma passagem sem vírgulas.
Um porco que descobriu a verdade mais verdadeiramente absoluta e nada relativa deste mundo:
Taylor Swift também não alcançou o Eu Universal.
FONTE: http://nightintavern.blogspot.com.br/2016/11/taylor-swift-nao-alcancou-o-eu-universal.html