Eu acho que aprendi a acolher antes de aprender a ser acolhido.
Isso não é uma queixa. É só um fato, seco, que eu carrego.
Eu sou honesto quando digo que fui uma criança desejada. Amada, de verdade mesmo. E ainda assim, em algum momento que eu não sei apontar, eu virei o que enxerga o outro por trás do riso. O que sabe quando “tô bem” é mentira antes mesmo da frase terminar.
Eu não busco culpado. Meus pais são humanos, com falhas de humanos, mas, no geral, foram incríveis. Isso eu sei. Tenho amigos incríveis também. Gente que ficaria. Que quer ficar. Pessoas que me amam e que eu sei que estão dispostas a me acolher. O que eu não sei é onde nasceu esse bloqueio que não tem data nem nome.
Só sei que, desde cedo, eu aprendi a depender da aprovação. De ser visto. De ser validado. De ouvir que estava tudo certo. Mas, na hora de deixar alguém entrar de verdade, eu fecho.
Não é desconfiança dos outros. É como se eu não soubesse o idioma de ser cuidado. Só o de cuidar.
E, mesmo tendo gente que ficaria, que quer ficar, eu sigo de pé, sozinho, no papel de quem segura.
Talvez não exista uma ferida única para isso. Talvez seja só um jeito de ser que nasceu tão cedo que virou identidade antes de virar escolha.
Eu não sei quando isso começou.
Só sei que ainda está aqui.