Sr. Veríssimo podia sentar atrás de uma cadeira em uma sala de reuniões cheia de memórias todos os dias, podia estar seguro das missões perigosas que todos os agentes da Ordem se submetiam. Porém sentia em seus ossos e coração toda a dor de perdas e o caos que aquilo tudo trazia.
Mas custe o que custar, ele criará um futuro.
Um suspiro audível reverberou pelas paredes da sala completamente vazia enquanto o corpo velho e visivelmente cansado colidia com o sofá. A figura encarou o teto por um momento, deixando com que suas pálpebras se fechassem lentamente.
Pensamentos sem rumo atravessavam sua mente, lembranças, sentimentos confusos e reflexões envoltas em amargura, ressentimentos, angústia e arrependimento, que eram barradas por uma grande parede que o mantinha são: a vontade de salvar o mundo.
Sr. Veríssimo havia perdido tudo, amigos, família e a si mesmo para o mundo do trabalho, para o obstinado desejo de salvar tudo e todos. Destruir o esoterrorismo era sua razão de vida, nada e ninguém tiraria isso de si. Comandar a Ordem com inabalável e férrea perseverança.
O que arriscaria para livrar o mundo de afinamentos de membrana? Tudo.
Arriscaria tudo, até que definhasse e morresse tentando. Até o momento que o seu último nervo permanecesse ativo. Vidas foram perdidas, famílias desmembradas brutalmente e cicatrizes que permaneceriam para sempre, externa ou internamente. Quem dera poder trazer aqueles que morreram fazendo o bem de volta.
E no final de cada missão, ver o que o esoterrorismo fortificado tinha feito com suas equipes o consumia. A Ordem não passava por seus melhores dias, os agentes diminuiam, uma cota cada vez maior de mortes, equipes incrivelmente bem preparadas sendo destruídas.
Aquele peso todo, tantas vidas apagadas do mundo como uma brisa na chama frágil de uma vela, uma chama de vida que agora queimava suas costas em um peso de culpa. Colocar inocentes a prova para salvar a nossa realidade era um pecado que ele cometeria por um bem maior, mas nem assim ao gosto culposo deixava seu corpo.
Afinal, ele era o Sr. Veríssimo, aquele que sentava e organizava tudo que suas ramificações faziam. Quantos dentro da Ordem não eram Senhores e Senhoras Veríssimo? Todos eram, ramificações, partes de um grande corpo que era Ordo Veritatis. E toda vez que havia uma perda, seu coração sentia.
Sr. Veríssimo, o mesmo que se sentava atrás de uma grande mesa de reuniões e ministrava cada missão e equipe com cautela, sentia em seus ossos quando algo dava errado, afinal, ele instruiu, ele colocou a todos em risco. E no final, a carga e o pecado da culpa sempre seriam dele.
Mas por mais vidas, por um bem maior, ele faria o que fosse preciso, mesmo que se arrependesse futuramente. Mesmo com facas em seu coração, cicatrizes talvez incuráveis, buscava garantir algo bom para futuras gerações.
Ah, o futuro. Custe o que custar, construiria um futuro melhor.
Tateou os bolsos em busca de um telefone descartável, enquanto levantava e se dirigia até a janela, encarando o céu escuro e as estrelas por entre nuvens pesadas, discou um número antigo.
— O que quer? — uma voz levemente alterada e jovem se fez presente do outro lado da linha.