Fazia tanto tempo que minhas mãos não sentiam sua ardência que seu toque parece me machucar. A gente passa uma hora em silêncio e aí eu entendo… Eu entendo que, talvez, eu seja viciado nisso tudo. Nisso que você me causa. Porque, ao mesmo tempo que tenta me convencer de que não deveria estar aqui, sua boca se desmancha num sorriso que desmascara qualquer mentira boba. E fica claro que seu lugar é aqui. Mesmo que não seja. E se não fosse, tudo bem também - eu amo suas mentiras. Até as que me machucaram, eu amo elas. Guardo uma coleção de vezes que eu fingi cair nos seus jogos só para poder ver seus olhos brilharem satisfeitos. Porque é assim que você é K. Você se diverte brincando com os outros, e tudo bem. Talvez eu mereça. Sei lá cara, você é intensa com tudo e ao mesmo tempo quer que o mundo todo se exploda. Sua calmaria dura cinco minutos e é um Deus nos acuda quando você vira tempestade. E eu me nego a demonstrar qualquer desistência pra você, Katharine. Porque até quando te quero fazer bem, você se recusa a dar o braço a torcer. Se torna minha maior fraqueza, o motivo de eu desistir de metade das coisas. Já tentei te levar pra um motel cinco estrelas e você caiu na risada dizendo que de cinco estrelas, já bastava você. Me fez te levar pra casa e fez da minha cama o que bem quis e entendeu. Você me faz desaparecer num fosco preto e branco só para que você apareça cada vez mais colorida. E eu te deixo pegar todas as minhas cores porque gosto do jeito como você se veste de mim e nem percebe. Não digo isso porque você rouba minhas blusas para fazer de vestido, eu digo no geral. De todas as manias que você pega de mim e por todas as vezes que você me corta pela metade porque tem esse poder e sabe disso. Por todas as vezes que você veste nosso passado quando eu digo que podemos ser algo no futuro - mesmo sabendo que não podemos. Você ainda foge de mim, K. Ainda se esconde debaixo da cama e foge para sua mãe quando alguém diz que gosta de você. Cheia dessa mania de “não-me-toque” e enche a boca para dizer que não-suporta-babaquices-humanas. Mas ainda chora quando coloco aquele filme de romance, ainda se emociona quando lê algo bonito, ainda sente seu coração apertar quando precisa fazer algo que não quer, mas deve. Veste uma armadura querendo passar pro mundo essa imagem de determinação, mas na real, de determinada você não tem é nada, isso tudo é teimosia. Mimada pelo pai e pelo resto do mundo. Tem um coração gelado e já gastei metade do meu salário comprando casacos pra ver se agüento a friagem. Voce veste um sorriso covarde quando vê que cansei de ser um otário nos seus pés. Me tira do sério quando vem com aquele papinho de “nossos signos não combinam”. Nossos signos não combinam, meu santo não bate com o seu, eu gosto de rap e você de rock, muda a playlist do meu carro e me faz usar cinto de segurança sendo que de segura você não tem nada. Os opostos não se atraem, se juntam numa bagunça complicada que fica num “quase” que nunca vai. Só que dessa vez parece que até do “quase” estamos longe. Você balança a cabeça como se estivesse inconformada por estar, mais uma vez, acabando a noite ao meu lado. Fazia tanto tempo. Tanto tempo que quase cheguei a acreditar que o destino tinha desistido de nós dois. Mas, ao contrário do que você diz, ele luta para nos unir. Só que não dá mais, entende? De que vale a gente percorrer as mesmas ruas? A gente decidiria desviar um do outro. Porque você me pede pra ficar mas na verdade me quer ver indo embora, e quando eu vou fico louco pra voltar. Não dá mais. Porque você, até você, que sempre lutou por tudo isso, sabe que está na hora de chegar ao fim. Algumas tempestades trazem o arco-íris, e outras, a devastação. E porque você é a única poeta dentro desse quarto e não sinto um pingo sequer de romance em seus beijos. Suas mãos me agarram com ferocidade e eu sinto algo morrer porque, lá no fundo, sabemos que é a última vez. Eu não sei porque estamos aqui agora. Você sempre sorri satisfeita toda vez que desvia meu percurso e consegue me trazer para seu mundo, mas dessa vez há algo diferente e errado nisso tudo, K. Você gosta de ser um mistério e eu te conheço da cabeça aos pés. Você gosta de conquistar o mundo e já me conquistou faz é tempo. Por mais que não seja pra ser, estamos aqui. Talvez porque, algumas vezes, a gente precisa dar uma espiada no passado. Mas o importante mesmo é não olhar para trás. Suas pernas me entrelaçam e a gente se ama como se o mundo estivesse em chamas. Depois eu te ofereço seu cigarro - primeiro porque conheço suas manias e, segundo, porque você parece a oitava maravilha soltando fumaça com a maior calma do mundo. Rouba minha brisa, meu cheiro, meu coração e me espera cair no sono. Nos meus sonhos você fica. A gente acorda um do lado do outro e os dias são sempre os mesmos, porque eu nunca me cansaria disso. Mas na realidade você calça aquele mesmo tênis que usa desde que nos conhecemos, há alguns anos atrás. Aí ele me traz algumas memórias que doem um pouco mais o coração. E quando você espia de canto de olho, eu fecho os meus e finjo não te ver indo embora. Porque doí demais. Ainda doí, K. Incrível. Pronta para partir, você dá a volta no quarto e volta com minha camiseta na mão. Claro que não poderia deixar para trás. Eu estive certo esse tempo todo. Não era saudade, era despedida, e isso me mata mais uma vez. Você abre a porta e eu abro meus olhos, sem medo de que você veja toda a dor que eles escondem. Te desejo o melhor do mundo, K. Eu sei que é a hora. Não se esqueça: o importante é não olhar para trás.
E você não olha.