Capitulo 1- Descobrindo Além dos Olhares
Eram seis da manhã e eu estava dormindo. Até que…
- MELANIE!
-Já vou, caramba! - Minha mãe havia me chamado umas mil vezes. Que saco! Levantei e lá fui eu tomar banho pra ir pra escola. Escola, ver aquelas mesmas pessoas que, pro desagrado de minha mãe, eu detestava. Não querendo parecer superior, mas eu não era como eles. Me arrumei e entrei no carro. Minha mãe ligara o radio na sintonia que eu odiava. Ela sabia como me irritar quando queria.
- Dá pra desligar?
- Por que faria isso? Adoro essa musica!
- Ela é chata!
- Na sua concepção.
- É, mas não tem só você aqui dentro.
- E?
- E que meus gostos contam quando estou aqui, ué!
- Não quando o carro é meu.
Dei os ombros e virei os olhos. Ela abaixou o volume
- Tá bom agora?
- Bom não, mas melhorou.
Ficamos em silencio.
- Como vai na escola?
- Bem! - Bom saber!
Não, não era bom saber. Ela não ligava. Chegando na escola saí meio ressabiada e logo vi Arthur.
- Oi amor!
- Oi Arthur!
Ele era meu melhor amigo, apesar de gostar de mim de outra maneira.
- Como você tá?
- To bem!
- Acordou bem?
- Sim, apesar da “discussão” –fiz aspas com as mãos- matinal!
- Pelo que agora?
- Radio!
- Que bobo!
- Eu odeio aquela musica.
-Que musica?
- Vento no litoral!
- É uma ótima musica! Ele sorriu
- Não quando me lembra meu pai…
O olhei com os olhos cheios d’água. Meu pai era policial e morreu em uma missão há três meses. Era pouco tempo pra superar o fato de nunca mais ver aquele sorriso, ouvir as piadas e seu modo de me chamar de “minha garotinha” mesmo tendo dezessete anos. Ele me entendia, me apoiava e eram raras as vezes em que brigávamos. Minha mãe dizia que eu estava diferente, mas, diante dessa situação, como permanecer igual? Eu sei, eu sei, um dia todos morreremos. Mas nunca estamos preparados pra perder alguém.
- Oh Melzinha, desculpa!
- Tá tudo bem!
-HEEEEY PEOPLE!
Chegou Sophia toda alegre. A alegria dela me contagiava e eu adorava isso.
- Oi Sô!
- Oi Sophia! –eu disse
- Do que falavam?
- Meu pai!
Sua feição mudou completamente
- Ainda dói né, amiga?
- Um bocado!
- Eu acho que imagino…
- E aí, irmão?
Chegou um garoto alto, forte, até bonitinho falando com o Arthur. Quem era?
- E aí, cara?
Eles se abraçaram
- Não vai apresentar? –disse Sophia.
Não, cara, ela não fez isso. Não pode ser
-Esse é o Chay. Sophia, Chay. Chay, Sophia!
- Muito prazer! –ele disse
- O prazer é todo meu!
- Não vai se apresentar, morena? –ele disse se referindo a mim
O encarei
- Não vejo necessidade.
- Essa é a Mel! –completou Arthur.
- Prazer Mel, sou o Chay!
- Você já disse.
- Não pra você.
- Que seja!
O sinal tocou e os três vieram atrás de mim. Aula de Ingês. O idioma em si era bom, mas o Rob não. Eu sei, Rob parece nome “americanizado”, parece que ele é de fora, mas o nome dele é Robson, porém ele tinha frescura, achava seu nome feio e vamos combinar que realmente era.
- Roobert tem livro?
Roobert? Quem era Roobert? Tinha mais aluno novo?
- Não –Chay disse- e eu prefiro que me chamem de Chay.
-Perdão Chay, sente-se com alguém.
Ele olhou em volta e havia várias garotas o chamando. Ele veio em minha direção. Ah não, cara. Não creio que com tanta menina o chamando ele sentou comigo.
- Verb to be né?
Ele tentou fazer piada. Nos dez minutos que o conheço percebi que ele era o cara mais chato do mundo. Depois dali havia Educação Fisica. No vestiário feminino ele era o assunto.
- Você viu que gato? –disse Elisa
- Vi. Como ele sentou com a Melanie? Eu o chamei o tempo todo e ele ficava olhando-a escrever. –respondeu Raissa
- E ela nem deu bola!
- Há algo de errado com ela, só pode.
As duas saíram comentando. Me olhei no espelho, prendi o cabelo em rabo de cavalo e fui pra quadra. Lá os meninos foram jogar futebol. Chay foi se mostrar e no momento que ele caiu, as meninas correram em volta dele. Continuei sentada com Sophia.
- Ele é bonito, vai!
- Não reparei nele.
- Ele estava do seu lado!
- Eu vi.
- E? - E nada.
- Senta lá Chay. Agora meninas. Vem Mel, vem Sô! –disse o professor Eu adorava o Marcelo, o professor, mas odiava sua matéria.
- To passando mal! –eu disse
- Sempre né, Melanie?
- Fazer o que?
Chay sentou do meu lado.
- Não curte?
- Nem um pouco!
- É legal, vai.
- Não.
-É sim, fresca!
- Não é não!
- Ah. –ficamos em silencio- As meninas daqui são bonitas.
- E fúteis.
- Ate você?
- Não, mas nem todas são.
- Ah sim! Os moleques são gente boa também!
- Nem todos…
- Eu sou! –ele chegou mais perto
- Sai daqui. Você ta todo suado!
- Suor é sexy! –ele riu
- Não, não mesmo!
Eu poderia pôr o fone de ouvindo e cortar aqueles gritinhos chatos de meninas frescas jogando e cortar Chay também. Mas não, isso seria muito grosseiro.
- Curte musica?
- Curto.
- Toca algum instrumento?
- Não e você?
- Violão.
- Imaginei!
- Tenho cara?
- Não. A maioria toca violão.
- O que você faz?
- Respiro.
- Lê? –ele viu o livro que estava do meu lado
- Gosto muito!
- Já li esse livro.
- Seus pais devem se orgulhar, você sabe ler!
- Sim, se orgulham. Também conto até dez e escrevo meu nome!
- Quer um premio?
- Espere até eu aprender a separar silabas!
Dessa vez eu ri.
-Mas falando sério, aposto que seus pais tem bastante orgulho de você!
-Acho que não…
-Impossível. Pelo que já vieram me falar você sempre tira notas boas, lê, é quieta, concentrada…
-Minha mãe nem liga pra mim.
-Seu pai?
- Eu não tenho pai, Chay!
- Por que? Não se falam?
- Ele morreu!
Ele me olhou com uma cara da qual eu não consigo traduzir se sua expressão era pena, tristeza ou culpa por ter falado.
- Oh, Mel. Eu não sabia! Desculpa.
- Não dá pra saber essas coisas…
Ficamos em silêncio. Eu estava olhando pro chão, mas pude repara ele olhando pra mim.
- Como foi?
- O que?
- Que ele morreu.
- Ah. Bom… –ainda é um assunto difícil de falar. Fazia pouco tempo e era meu pai né.
- Se não quiser falar eu vou entender.
- Ele sofreu um acidente de trabalho…
- O que ele fazia?
Não, eu não queria contar aquela história de novo. Não queria chorar na frente de alguém de novo.
- Policial!
- Bala perdida?
- Foi assassinato. Ele tava numa missão de prender uma facção ai o sequestraram e mataram…
- Os caras tão presos?
- Alguns sim, outros não…
- Você não tem medo?
-De?
-Morrer.
-Medo de morte não é comigo. Todos nós morreremos um dia!
-Sim, mas…
Ele estava visivelmente sem argumentos e de certa forma eu adorei o deixar assim. Não me perguntem o motivo.














