Desde sua estreia com The Eletric Pussy EP, Venus James tem construído uma carreira única no mundo virtual. Quando falamos do virtualmusic, este universo tem muitas armadilhas quanto a criação de um projeto, pois, como já visto em outras reviews aqui da V.A., não basta apenas criar um bom álbum, mas saber moldar bem e ter um árduo trabalho de personalidade. Existem cantores que, embora muito tenham lançado grandes trabalhos, só obtiveram seu reconhecimento devido após investirem mais numa personalidade fora do "apenas fazer música boa", um grande exemplo é Katrina Prada que levou 5 álbuns após finalmente consolidar-se como uma das maiores artitas pornopop, com Re Li Gi:ON. Mas engana-se quem pensa que Venus James nunca teve um destaque no impop ou até mesmo no virtualmusic, pelo contrário, desde sua estreia no cenário, James tem ido, aos poucos, estabelecendo seu patamar como cantora. E para ela este processo foi longo, visto que apenas agora em seu terceiro álbum, que finalmente podemos ver quem de fato ela é.
Isto porque o impop é uma plataforma que ainda hoje, não é bem vista. Poucos casos nesta plataforma obtiveram reconhecimento instântaneo e seu mérito estabelecido. Provavelmente, Kelly Marina seja o único nome possível, visto que já em seu debut a cantora se estabeleceu. Venus, teve uma trajetória interessante na plataforma, isto porque com seu primeiro ep e álbum, Chroma, não obteve grande sucesso. Mas tudo mudou com Exodus, que teve um leve barulho, principalmente com o clipe tardio do hit Pose. Ainda assim, o disco, já avaliado na V.A., teve grande sucesso da crítica sendo um dos mais aclamados de 2017. Todavia, o disco ainda questionava-nos quem era afinal Venus James e o que mais poderíamos esperar dela.
Em Reverie podemos finalmente entender quem James é. Numa peculiaridade intensa, Reverie apresenta um universo que pode ser descrito como a própria mente de Venus James. É a mistura dos devaneios e visões do que a cantora vive e experienciou. Talvez "Async" seja a música mais descritiva de todo o álbum, na faixa, a cantora relata como tudo está "desincronizado", fora de órbita e caótico. O álbum em si é um caos total, um grande caos, é uma mistura de emoções retratadas por seus antônimos. E Venus aceita essa negatividade. Não só aceita, como a torna algo para si. Nem ela mesma sabe quem é mais, em algumas faixas, Venus fala de uma terceira pessoa, mas pela análise a que fizemos, fica subentendido que todo o disco Venus fala sempre de si mesma.
O disco busca trazer a nostalgia de quem uma pessoa era, e quem ela poderá ser, são duas ideias totalmente opostas, mas que ainda seguem uma linha do tempo, e aí está o caos de tudo. Isto porque, no passado, vive-se a vida de uma forma, e no futuro, quem poderá saber? É como se não existisse a ideia de "presente" em Reverie, mas apenas um largo salto em passado e futuro, e então toda a confusão se cria no meio dessa situação. Ainda usando "Async" como referência, podemos descrever onde está toda a falha e acerto, do que o universo de Reverie significa: "Mas olhe ao seu redor e veja, talvez haja beleza na escuridão".
E é em busca da beleza no que não seja tão bonito, a voz ríspida e melancólica de James em batidas repetitivas com elementos e instrumentos clássicos, transforma toda a desordem e caos de Reverie não só em um projeto consistente, mas também delicado e preciso, como provado em canções como Unfold, Herói (Reprise) & Tábula Rasa.















