❛ —— * ˙˖ જ “ ERIS MORTIMER ; THE SIREN!’ )
you dream about going up there but that is a (( big )) mistake just look at the world around you right here on the ocean floor such wonderful things surround you what more are you lookin' for?
wanted connections · about · headcannons
Sessenta, talvez setenta anos atrás — o tempo é uma maré que apaga datas — as irmãs Mortimer chegaram a Ninivae com vestidos leves demais para uma cidade acostumada a segredos pesados. Eram estrangeiras, diziam. Eram refinadas demais, diziam. Eram lindas demais, sussurravam. E Ninivae nunca soube lidar com mulheres que não pediam licença para existir. Eris e Nemesis caminhavam pelas ruas como se o mundo lhes pertencesse, e talvez pertencesse mesmo — porque havia algo no olhar delas que não implorava amor, mas o exigia. Não eram apenas belas; eram magnéticas, intocáveis, desejáveis. No começo foram olhares longos demais. Depois vieram as flores deixadas na porta. Os homens começaram a se perder dentro dos próprios casamentos, a esquecer promessas, a inventar desculpas para passar pela rua onde as irmãs viviam. As esposas começaram a observar. A inveja começou a fermentar. Ninivae era uma cidade pequena demais para mulheres que brilham como faróis — porque faróis não apenas iluminam, eles revelam naufrágios.
Chamaram-nas de bruxas antes mesmo que qualquer feitiço fosse lançado. Chamaram-nas de amaldiçoadas quando os próprios pecados começaram a vir à tona. A beleza, ali, não era vista como dádiva — era provocação. E quando uma cidade decide que algo é perigoso, ela encontra uma forma de destruir. Mas Eris e Nemesis já sabiam. Antes que o medo se transformasse em fogo ou corda, elas recorreram ao que sua linhagem sussurrava desde sempre: um feitiço antigo, ancestral, feito para mulheres que seriam queimadas por serem demais. Um feitiço que não as salvaria — apenas mudaria a forma da condenação.
Foi um humano que selou o destino de Eris. Ele a amava — ou dizia amar. Tinha mãos quentes e promessas mornas. Jurava que fugiria com ela. Jurava que a protegeria. Jurava. Foi ele quem misturou o veneno no vinho. Foi ele quem amarrou a pedra em seu tornozelo com dedos que já haviam traçado o contorno de sua clavícula. Foi ele quem a empurrou ao mar, junto aos outros homens que fingiam justiça. A água entrou em seus pulmões como lâminas. A escuridão veio doce. E quando abriu os olhos, o mundo havia mudado. Eris não emergiu mulher, mas emergiu como uma maldição. Antes que o último suspiro humano deixasse seu corpo, as irmãs lançaram palavras que não poderiam ser recolhidas: Nós seremos a maré que retorna. Seremos a perda. Seremos a ausência. Seremos a dor que esta cidade nunca esquecerá. E Ninivae passou a enterrar seus amores cedo demais.
Adúlteros desapareceram. Homens que juraram fidelidade e quebraram votos foram encontrados com o sal nos pulmões. Mulheres que destruíram corações acordavam com o eco de um canto que as chamava para a água. E as famílias fundadoras perdiam seus herdeiros… Não era justiça. Era a dor pessoal tomando forma. Durante décadas, elas voltaram um mês por ano para cumprir o ciclo da maldição — até que o mundo mudou, os culpados envelheceram, e os nomes foram esquecidos. Eris casou-se com um bruxo distante, aprendeu outros feitiços, construiu riqueza com segredos que só criaturas do mar conhecem. Tesouros afundados não pertencem a ninguém até que uma sereia os reclame. Investimentos humanos são simples quando se vive tempo suficiente para observar mercados nascerem e morrerem. Ouro nunca foi difícil para quem conhece as profundezas. E foi assim que elas construíram um santuário.
Na encosta de Ninivae ergue-se hoje um resort luxuoso, à beira-mar, onde o pôr do sol parece cuidadosamente ensaiado e o bar serve coquetéis com nomes bastante humanos para não serem suspeitos (existe, por exemplo, um drink chamado Kassim Kaya — e temos certeza de que o senhor Kaya faleceu há alguns anos; seria homenagem?). Bom, o resort é um paraíso de vidro e sal. Um refúgio para o sobrenatural, também. Um templo disfarçado de destino turístico. Ali, sereias encontram porto. Criaturas encontram abrigo. Humanos encontram aquilo que acreditam ser férias — sem saber que caminham sobre solo amaldiçoado.
Nos últimos cinco ou seis anos, ela deixou de retornar ao oceano após os ciclos de morte. Descobriu que há outro tipo de mar: o das telas, dos seguidores, da adoração digital. Tornou-se blogueira, influenciadora, rosto desejado em campanhas luxuosas. Abre caixinhas de perguntas no Instagram como quem lança redes ao mar. Sorri para câmeras como quem canta para marinheiros. Parece fútil. Parece leve. Parece obcecada por estética. Mas cada foto é antecipadamente pensada. Cada story é uma isca, para facilitar que encontre seus próximos alvos. Afinal, as futricas dos anos 60 não surgem mais na rua.
















