“ você… provavelmente não reparou nisso, mas eu não tenho uma perna, a risada que soltou não era nada humorada, posicionando a muleta a frente do próprio corpo para que a outra pudesse enxergá-la, assim como movimentar o que ainda tinha da perna esquerda para mostrar como o tecido de suas vestimentas balançava livremente. os guardas me ajudaram a trazer parte da bagagem, quer dizer… eles trouxeram, não foram muito gentis em deixá-las aqui. pode ser que ajudem no seu problema, de qualquer jeito. deu de ombros, esperando que fosse o suficiente para a outra lidar com aquilo — não tinha muito o que fazer na situação, a outra apenas não precisaria de si para mais nada. porém, arqueou uma sobrancelha diante da última pergunta. que problema…? além da minha dificuldade de locomoção, não tive muito a me preocupar por aqui.
de fato, naquele breve instante, não havia reparado na condição física do mais velho, fitando-o com os olhos arregalados ao que uma vergonha quase imensurável se alojava em seu cerne. havia sido deveras indelicada e agora não tinha a coragem nem mesmo de olhá-lo nos olhos para se desculpar. “ — eu... eu realmente não tinha reparado, senhor. peço mil perdões pela falta de educação, de verdade. ” sentia o coração bater de maneira acelerada contra o peito, repousando a canhota contra seu corpo para tentar normalizar a respiração. era esses um dos motivos pelos quais tinha tanto receio em deixar o palácio, havia desaprendido a como ser lidar com outras pessoas. “ — você... o senhor quer ajuda? para organizar sua bagagem, quero dizer. ” ofereceu-se prontamente, finalmente encontrando coragem para fitar o homem mais alto; porém, não tardando em desviar o olhar. “ — o problema, digo... sua noiva. não que ela seja um problema, mas toda essa situação não é a ideal, entende ? desculpe-me pela falta de decoro. essa oportunidade é uma dádiva que nos foi dada por vossa majestade, a rainha rose ! ”
Quando sentiu-se seguro o suficiente para sair na rua e encarar as pessoas, Seojun o fez. Ao chegar em Mitras, foi direto para sua casa se livrar daqueles guardas mal encarados e jogou todas as suas coisas em dos quartos, saindo dali imediatamente. Tudo o que ele precisava era de ar e conforto, duas coisas que já não sentia há muito tempo por considerar estar preso. Mas, assim que fechou a porta, ouviu a voz doce da outra pessoa ali do seu lado, dando-lhe a oportunidade de fazer alguma coisa durante seu momento de solidão. Seojun gostava de ajudar as pessoas mesmo não sendo a melhor pessoa do mundo para fazer isso. “Acho que pode dizer isso sim…” Acabou suspirando por só ter jogado suas coisas dentro do quarto e saído como se estivesse fugindo da sua futura esposa – e realmente estava. Assentiu algumas vezes para a outra com um sotaque estranhamente fofo aos seus ouvidos. “Sim, eu posso ajudar. Eu não tenho muito o que fazer agora que… ja terminei… minha mudança.” As pausas foram sem querer mas ainda assim soaram esquisitas, o que o fez suspirar. “Q-qual problema?!”
em relação a geografia do distrito de mitras, tudo parecia bastante simples se comparado a imensidão do palácio real de brittania ― emilia, de fato, nunca tendo realmente aprendido a se localizar enquanto na residência da família reiss, mesmo após meia década sendo cativa no local. as acomodações seguiam uma ordem numérica, isso era óbvio; no entanto, a distância entre cada casa era considerável e a bayer não se sentia segura o suficiente para carregar suas vidrarias até a de número quinze sem ajuda, não tardando em reconhecer a figura do rapaz caminhando livremente. em diversas ocasiões havia auxiliado a força policial de brittania ( seus conhecimentos sobre medicamentes sendo devidamente úteis em horas críticas ) e embora não lembrasse de todos os nomes e rostos dos militares, a fisionomia dele era destacável sobre os demais. “ — se eu estiver incomodando, peço desculpas, senhor. ” disse-lhe, sabendo que seu pedido provavelmente era um estorvo. “ — eu... me chamo emilia, é um prazer, vizinho. ” ofereceu a mão, torcendo para que sua atitude não fosse tida como rude.
“ — você era da polícia militar, não era? eu me lembro porque já estive no seu quartel algumas vezes, distribuindo remédios e vacinas. ” talvez estivesse sendo muito invasiva e logo recuou, as orbes acastanhadas fitando o chão, a refugiada buscando se recompor. “ — sério ? mas já ? eu trouxe bastante coisa até, talvez demore dias até que consiga organizar tudo. ” porém, tal necessidade não lhe despertava irritação ao que preferia manter sua mente ocupada o máximo de tempo possível. “ — bem, refiro-me a sua noiva. já a conheceu? e não é bem um problema, desculpe por me expressar assim; é uma benção dada por vossa majestade a rainha rose, não acha? ”
Não podia dizer que tinha muito a levar. Mas com a falta da irmã no colo ou agarrada em suas pernas, parecia sempre ter algo faltando. Estava acostumado a ter sempre uma bolsa no ombro, com os pertences dela. As coisas de Beatrice sempre se sobressaiam em volume do que as dele, talvez aquilo indicasse que ele a mimasse demais. Pouco se importava. Após levar suas coisas para dentro e colocar a última caixa na mesa da cozinha, voltou ao lado de fora para ver se nada lhe faltava. Não havia nada além da mala, duas caixas com pertences, muitas lembranças da pequena irmã, e a maleta com seus objetos de trabalho. Pouco antes de fechar a porta, ouviu a voz até conhecida por ele. Tratava-se de Emília, uma conhecida por seus dons nos locais de trabalho de Zachary. Fechou a porta atrás de si, deixando suas acomodações para trás antes de caminhar na direção da loira, um pouco mais distante de si. “Tudo bem, posso te ajudar com isso sim! Já terminei de colocar minhas coisas para dentro.” Prontificou-se ao estar perto o suficiente da outra. “Suas poções milagrosas?” Perguntou com um tom divertido enquanto apontava para os pertences ditos como frágeis pela outra. “Aquele problema? Não ainda. Sou o único morador do 001. Nem mesmo sinal da prometida, e com você?”
o sorriso não tardou em lhe adornar os lábios ao que pode reconhecer aquele que lhe era tão querida, zachary sendo umas das poucas pessoas na nação estrangeira que a refugiada conseguia depositar uma real confiança em estima; contudo, estava ciente de que a presença do mais velho não era algo voluntário, o pesar que sentia em virtude daquela situação talvez sendo compartilhado por ele também. ansiava para ele um futuro de plenas felicidades, porém fazer parte daquele programa era uma grande incerteza para todos os participantes. “ — sabe, não sei se fico feliz ou triste de te encontrar aqui, zachary. ” ofertou as palavras banhadas por uma candura genuína, não contendo o sorriso. estava contente por ter a companhia do moreno, mesmo naquelas circunstâncias tão singulares. contudo, fitando-o por alguns instantes, logo deu por falta de algo que sempre estava atrelado ao rapaz. “ — espera, e a bea ? você a trouxe? ” indagou olhando para os lados em busca da adorável infante, sem obter sucesso para encontrá-la.
“ — você por acaso não estaria na acomodação de número 15, não é ? ” a questão erguida com uma sutil esperança no olhar; no entanto, emilia estava ciente de que as chances de ter sido pareada com o bom amigo era rasas. “ — não garanto que são milagrosas, mas... são as vidrarias que uso. eu ‘tô com muito medo de acabar quebrando tudo, seria um desastre sem precedentes na história do seu país. ” a hipérbole utilizada num viés cômico, não acreditava que precisava esconder a real nacionalidade enquanto na companhia do mais velho. “ — 001? que sorte ! me avisa quando descobrir quem é, espero que eu e ela possamos ser amigas.” dizer aquilo em voz alta era um desafio, não tinha facilidade para lidar com pessoas desconhecidas, mas, não desistiria do laço criado com zachary. quanto a pergunta sobre seu noivo, emilia apenas negou com um breve movimento de cabeça. “ — eu não acho que estou pronta pra conhecê-lo ainda então... se nós pudermos demorar bastante no caminho até minha casa, eu agradeceria. ” confidenciou, logo se arrependendo por ter dito tais palavras duras. não podia julgar daquela forma alguém que nem sequer conhecia o nome. “ — mas, me conta! dois guardas apareceram na sua casa também ? a bea deve ter ficado assustada. eu jurava que iam me levar pra forca, acredita ? ah, você trouxe algum livro de anatomia? eu gostaria de aprender mais sobre. ”
Não tinha como negar que Sasha animou-se automaticamente ao ouvir a doce voz de Emilia. Embora a moça fosse uma lembrança do seu passado tão recente, a adorava. — Você também veio para ficar?’ perguntou com curiosidade ao esticar os lábios em um sorriso. Por causa da especialidade alheia, não se surpreenderia se ela estivesse ali apenas para ajudar os contemplados pelo projeto. Ems era boa no que fazia, Sasha devia e muito à mesma; para manter a sanidade no bordel, nada melhor do que algumas substâncias que facilitassem tudo. — Claro que eu ajudo, amor! Já terminei tudo da minha, não tinha muita, afinal.’ encolheu os ombros sem dar importância àquele problema. Mas demorou um pouquinho para entender ao que a loirinha se referia, quando compreendeu, precisou conter uma risada. — Oh, sim! Demorou alguns dias para passar, mas seus remédios serviram bem. Estou há… duas semanas? Acho que sim, sem coceiras.’
sua postura era de pura apreensão e um nervosismo latente lhe imperava os agires ao que ainda não havia lhe caído a ficha de tudo o que estava acontecendo em sua vida. contudo, ao ver-se na companhia de sasha, a refugiada se permitiu relaxar, o inflamado âmago sendo acalentado pela figura do mais velhe. embora o contexto de seu primeiro encontro se desse num local deveras peculiar, a bayer nutria por elu uma estima notável ― o sorriso não tardando em lhe adornar os lábios ao que já podia sentir um pouco da tensão de outrora deixar seu corpo. ansiava para sasha apenas coisas boas, porém, estar ali poderia significar justamente o contrario. “ — infelizmente sim. ” se fosse qualquer outra pessoa ( com algumas poucas exceções ), emilia jamais iria deter a coragem de verbalizar tal pensamento. “ — estou tentando chegar na casa de número 15. tentando é a palavra chave, já que não tenho certeza se quero chegar lá. ” novamente, erguer tais dizeres poderia ser deveras perigoso para si; contudo, não enquanto com sasha.
“ — agradeço pela sua ajuda. se eu quebrar uma dessas vidrarias, vai ser como perder um filho. ou pior. ” para ela, as peças de vidro detinham uma grande importância ao que eram as poucas coisas que realmente eram realmente suas. “ — ah, fico muito feliz em saber disso. caso precise repor alguma coisa, é só bater na minha porta. aliás, em qual é o seu número ? ” torcia para que estivessem em alojamentos próximos, mesmo que a distância não fosse fazer muita diferença para si. “ — mas, eu estava me referindo a sua noiva. já teve a chance de conhecê-la? alguém que eu conheça? ”
Ela andava pelas ruas do distrito na intenção de conhecer sua geografia o mais rápido possível, para que quando tivesse necessidade, não precisasse ficar fazendo perguntas para os novos vizinhos e incomodá-los. Fazia parte da personalidade de That conhecer o terreno antes de pisar nele, mas então ela tivera a caminhada interrompida pela loira, de traços faciais tão singulares quanto o sotaque que ela tentava esconder — a audição de Ava, porém, era muito boa. “ Posso ajudar? ” Sem um cumprimento prévio, mas para compensar, os lábios rubros curvaram-se num sorriso. “ Deixar as malas em cima da cama para arrumar tudo mais tarde conta como finalizar a mudança? ” Arqueou as sobrancelhas, divertida, dando uma pista da resposta. Mas ela estava mentindo, já havia se instalado completamente no 06. Fizera aquilo porque desconfiou que Emilia talvez pudesse querer passar em sua nova casa para uma confraternização de primeiro dia, e só a ideia cansava mais Ava do que levantar pesos. “ Ah, entendi… Eu a ajudo sem problemas, tenho certeza que o meu noivo pode dar conta da organização sem mim ” Sentiu vontade de dar uma piscadela de cumplicidade, mas não a conhecia para tanto. “ Me indique onde estão que eu carrego ” Não se incomodava com o favor. “ Uh… Qual problema? ” O cenho se franziu, formando rugas na testa, exibindo toda a confusão que sentia. Por um momento pensou que a desconhecida fosse uma contratante, mas não diria nada até ela dizer primeiro.
o nervosismo lhe imperava os agires ao que a refugiada andava de maneira desatenta para com o que acontecia em seu redor; poucas tendo sido as ocasiões nas quais teve a oportunidade de andar de maneira tão liberta ― emilia decidida a desfrutar ao menos aquela ínfima sensação de liberdade. os batimentos cardíacos pareciam se intensificar a medida que se aproximava de seu novo lar, ainda incerta de como proceder defronte a tão singular situação em que estava. de fato, acreditava que não deveria estar ali, não era uma cidadã de brittania e tampouco era adequada para gerar uma vida; no entanto, não tinha a bravura necessária para se erguer contra a realeza do país, aceitando o que lhe era imposto em prol de preservar sua existência ( pelo menos até conseguir fundos suficientes para deixar a nação tão hostil para consigo ). em sua curta caminhada, sabia que sozinha não iria conseguir tornar sua mudança efetiva, principalmente quando fosse manusear os utensílios tão frágeis que utilizava para a fabricação dos remédios.
“ — creio que sim. ” a mulher mais alta havia lhe perguntando, então, ela tinha que responder. era questão de cortesia e emilia não havia esquecido seus modos, mesmo após meia década de cativeiro. “ — sabe, eu até que sou muito boa com organização. se quiser uma mãozinha pra arrumar tudo depois, posso tentar te ajudar. ” não. não sabia se aquilo era algo aceitável para oferecer, respirou fundo novamente. “ — por sermos vizinhas, sabe? acho que... desculpa. ” era patético seu comportamento e a bayer estava ciente disso; contudo, se recusava a desistir. “ — pode ser divertido fazer isso com ele. criar um laço logo no princípio... desculpe eu não... ” não deveria estar se metendo na união alheia, então não tardou em apontar para a caixa de aspecto envelhecido que jazia esquecida no chão, posicionando-se para carregar junto. “ — são algumas vidrarias. eu tenho medo de levar sozinha e acabar quebrando. ” sabia que sobre aquilo ela poderia conversar. “ — ah, o problema de conhecer vosso noivo. se bem que talvez não seja um problema para algumas pessoas. ”
You’re supposed to grow out of horridness, aren’t you? I don’t think I ever grew out of mine. Sometimes I think it’s still inside me, like something nasty I swallowed, that got stuck…
Sarah Waters, The Little Stranger (via georgecondos)
“ — hm, olá. com licença. ” fez-se notar num tom brando em demasia, a voz doce não possuindo qualquer entretom de hostilidade, emilia ciente de que deveria manter-se o mais complacente possível enquanto no país estrangeiro. “ — mil perdões pela falta de decoro, mas... você por acaso já finalizou sua mudança ? ” não era de seu anseio chamar atenção ou pedir ajuda; no entanto, uma ansiedade latente lhe imperava o âmago ao que o nervosismo era manifestado no tremor de suas mãos; seu sorriso contrastando com o medo que sentia naquele momento. “ — é que eu... ” respirou fundo, juntando ambas as mãos nas costas enquanto tentava disfarçar o sotaque atípico para aquela região. “ — preciso de ajuda para levar algumas coisas bem frágeis, será que... pode me ajudar ? ” não podia arriscar seus equipamentos, mesmo que isso significasse sair da zona de conforto. “ — mas... você conseguiu resolver aquele problema ? ”