Nascido aqui dentro dessa vida
dessa bola de pus
escorrendo como maionese de uma ferida infeccionada
ardendo, dolorida, conflitiva.
Vindo a viver aqui, sem pedir
em um mundo que aponta o fim da História
queimando museus, proibindo a arte.
Aqui, aonde nada é importante e ainda assim
temos três empregos e trabalhamos 60 horas semanais
de domingo a domingo
para pagar contas, comprar roupas, estocar comida.
Viver sempre é um problema quando
toda sociedade é uma fábrica de sofrimento,
a felicidade é uma ideia velha, e a vida uma causa perdida.
Vim a viver aqui, aonde as crianças estão famintas,
os idosos estão morrendo todos como moscas,
e os hospitais estão lotados de gente esfaqueada, estuprada,
baleada.
Ao redor de mim pessoas discutem porque a Cleo Pires não é mais tão sexy
se perguntam se vai chover amanhã e o preço do tomate.
Passei a viver como isso, enfiado no meio disso tudo
até apagar minha própria personalidade, deixar de ser eu mesmo
e virar uma massa disforme de carne e ossos e ódio.
Sinto que poderia esmagar os olhos de uma pessoa viva com os dedões
ou puxar a língua de alguém até ela sair inteira pela boca
se não fosse meus bracinhos mirrados, desnutridos, minha pele ressequida,
meus ossos fracos.
Sou um retrato do mundo, e por isso minha aparência é tão ruim, doente
estragada.
Sou um retrato do mundo e nas minhas vísceras há canibais comendo recém nascidos
enquanto dezenas de pessoas enfiam seus paus dentro de dezenas de cus e bocetas.
E todos se drogam, todos bebem.
E ninguém se importa, todos sorriem
até ficarem entristecidos, esmaecidos
como névoa de fuligem e finalmente morrerem.
















