Mas, hum… digamos que a pessoa esteja em caso de vida ou morte, nem assim?
Eu sou uma psiquiatra, fazem alguns meses que não atuo mais como clínica geral.

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Mas, hum… digamos que a pessoa esteja em caso de vida ou morte, nem assim?
Eu sou uma psiquiatra, fazem alguns meses que não atuo mais como clínica geral.
É claro que não.
Espere, não me diga. Vodka, licor e suco de pêssego e champagne. Acertei?
Não, apenas uma limonada mesmo.
Acredite, essa pergunta é frequente.
Faz muito bem. É anti-profissional e anti-higiênco.
Ainda mais quando a maior parte dos meus pacientes não pode ingerir bebidas alcoólicas.
Não, eu não atendo pacientes em bares.
Cecilie “Cece” Udinov, com seus 28 anos, é frequentemente confundida com Elisha Cuthbert. Nos arquivos de Cecilie constam que ela está indisponível.
“And I’ve lost who I am, and I can’t understand why my heart is so broken, rejecting your love. Without, love gone wrong; lifeless words carry on, but I know, all I know’s that the end’s beginning.”
Who will tell the story of your life?
A ironia é o pudor da humanidade, que nada mais é do que um quadro horroroso e desumano, pintado a suor e sangue dos inocentes. Dizem que riso debochado da véspera, tornar-se á o lamento desesperado do amanhã, porém muito tolo se é quando o pensamento é tomado por isso. A vida não nos convida para tomar chá, muito menos nos presenteia, tudo que ela nos entrega, cobra com juros e correção monetária, muitas vezes nascemos com saldo negativo. Todos nós temos nossas máquinas do tempo. Algumas nos levam pra trás, são chamadas de memórias. Outras nos levam para frente, são chamadas sonhos. Entretanto existe o famoso pesadelo vivo, o qual nós, meros mortais denominamos de realidade. E por favor, não confunda o meu ponto de vista com cinismo. Os cínicos de verdade são aqueles que dizem a você que tudo vai dar certo. Às vezes é preciso aprender a correr antes de começar a andar. Crianças, ficção é a verdade dentro da mentira, e a verdade desta ficção é bastante simples: a magia existe; monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem.
Nascida na encantadora cidade de Camden, Nova Jérsei, Cecilie Elizabeth Udinov, era a caçula até então e tinha a atenção dividida com sua irmã mais velha, Nora, que por sua vez, esbanjava rancor sem motivo algum pela pequenina. Viver é a coisa mais rara do mundo, maioria das pessoas apenas existe. Há coisas que melhor se dizem calando, talvez o ciúmes estivesse explícito em seus olhos enegrecidos, sucumbindo sua alma e alimentando a discórdia interna de alguém que nem cinco anos e meio atingira direito. A criança de olhos claros era o xodó dos pais, até que sua mãe, Danna, resolvera ter um novo filho e assim dera a luz a uma menina miudinha e franzina, de nome Sue, tendo apenas três anos de diferença com Cecilie.
Quando Cecilie completara seus quatro anos, seus pais se firmaram em uma espécie de ceita, que proclamava sua própria bíblia e visão de divindade, fazendo com que os Udinov e mais outras dezenas de famílias vendessem todos os seus bens e doassem o dinheiro à “igreja”, que por sua vez, construía um templo santo e abençoado em uma região não habitada na Escócia. O templo em si ficava pelas redondezas de Troon, dentro da Área de Conselho de South Ayrshire, porém em um recito mais excluso da sociedade, onde então só a mata nativa reinava.
Pouco mais de um ao fora o suficiente para que o novo templo fosse construído e assim, todos seus seguidores poderiam desfrutar e se purificar do mundo carnal. Mudando-se para o local, a família Udinov se tornava uma das seguidoras mais fiéis desse novo segmento religioso, principalmente a filha mais velha do casal, que basicamente idolatrava o porta-voz da igreja sagrada, que por si próprio, proclamava-se a boca de Deus sobre os salvos.
Era tarde de domingo, o sol iluminava todo templo como se fosse um típico verão indiano, mas ainda sim o tempo estava fresco, nada melhor do que a pequena Cecilie brincar em seu balanço para passar o tempo. A menina devia ter por volta de seus cinco de idade, quase seis, tinha uma pele de porcelana. Os cabelos louros, ondulados, o liso era um pouco mais predominante, mas alguns cachinhos eram encontrados nas pontinhas. Seu olhar ingênuo e puro, definitivamente uma graça de criança. Era de costume que a mesma saísse para brincar em seu quintal, na maior parte das vezes, a mesma se machucava, mas nada acontecia, era algo indescritível, seus pais sempre desviam do assunto quando a mesma tocava nele.
— Cecilie desça já daí! Não sabe que é perigoso ficar em pé no balanço? E se você caí? Como acha que eu e mamãe vamos ficar? — Disse Mr. Udinov se aproximando da garota, pegando-a no colo.
— Mas papai, eu consigo ficar em pé no balanço e eu sou forte, caí algumas vezes e nem me machuquei pode conferir. — Respondera a pequena garotinha, mostrando seus cotovelos ao pai, enquanto esticava um pouco seu pescoço sobre um dos ombros do pai, podendo avistar sua mãe logo atrás do mesmo, sorrindo para a pequena.
Meses se passaram e todas as famílias já se encontravam estabilizada no templo, alimentavam-se de hortaliças, comiam o que produziam diretamente da terra e se sentiam saciados pelo espírito santo. Entretanto, lágrimas não são argumentos, elas são consequências de um respirar ingênuo de uma criança que vê o mundo desmoronar ao seu redor e simplesmente tem que engolir seu choro a seco. Decido a dar um passo maior em busca da salvação, o reverendo fizera seu comunicado.
A nostalgia da imoralidade é algo que corrompe o que nos resta de bom, aquela misera esmola de compaixão e a última gota de sensibilidade. Pensamentos valem e vivem pela observação exata ou nova, pela reflexão aguda ou profunda; não menos querem a originalidade, a simplicidade e a graça do dizer, aliás, a vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal. A mentira é muita vezes tão involuntária como a respiração e a respiração é tantas vezes encobertar como a mentira. Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos, porém o fanatismo incabível pode nos levar a total perdição.
O suicídio em massa fora inevitável, homens, mulheres, crianças e idosos, ninguém conseguira escapar, exceto Cecilie, que assustada com toda aquela situação, fugira com a irmã caçula nos braços. A portadora de olhos claros mal se aguentava em pé, tinha pouco mais de cinco anos e apenas doze quilos a mais que Sue.
Cerimônia sacramental. Templo do Povo do santo. Sepulcro para a salvação. Confirmação suicida. Perdoe-me pai por eu ter pecado. Você nunca mais peque! Quando nos encontrarmos novamente, será a terra prometida a morte está no comando para as vítimas do plano de no templo da represada. Beber o sangue, concentrado de morte, congregação está morta. Carnagem dos mortos, cremações em massa dos bem-aventurados, pregação fim fatal no templo dos condenados. Homenagem de origem desconhecida, de Mr. Jones, do elogio final ao túmulo povoada. No templo dos salvos a morte o espera, para escapar é morrer. Carnagem, bendito seja o não-divino.
Andou até sumir no horizonte e seus pés não mais aguentarem. Estava faminta e sua irmã não parava de chorar. Sem saber para onde recorrer, batera na primeira porta que encontrara pelo caminho e deixou Sue sentada ao solo, enquanto fugia, rogando aos céus que aquela família cuidasse e zelasse por sua irmã, que fora a única família que restara, porém não podia carregar por um futuro incerto onde a morte era quase certeira.
Para baixo, sacramento químico, oração blasfema. Livre-me deste Apocalipse tão sereno. Só me deixa paralisado porra, surdos, cegos e mudos porra. Volte para o sono sagrado. Este poderia ser o meu réquiem, e eu não sinto nenhuma dor. Este poderia ser o meu réquiem, mas não me enterre muito fundo. Drene salmoura infectada, minha doente concha na fossa. Tira-se as mãos do tempo, e empurre a alma na veia. Só me deixa paralisado porra, surdos, cegos e mudos porra. Volte para o sono sagrado. Este poderia ser o meu réquiem, e eu não sinto nenhuma dor. Este poderia ser o meu réquiem, mas não me enterre muito fundo. Pia, sofra, auto-destruição. Levanta-te, mais forte, reconstrua. Disponha, descarte, negue e eu não irei sentir dor.
Vivendo nas ruas e se alimentando de sobras, Udinov viveu até seus doze anos, quando fora encontrada por uma freira que a levara até a casa de um cientista afortunado da cidade que tinha mais outras três meninas como filhas. Crente na bondade do mesmo, a mulher a deixou sob seus cuidados, entretanto, assim que virara as costas, os maus tratos começaram e se espalharam através de manchas roxas e sangue pisado na pele branca da menina.
Aprendendo a ler e escrever sozinha, Cecilie se via como única amiga e entendia que aquilo era a punição por ter abandonado sua irmã. A jovem estava decida a cessar com sua vida, quando a notícia de um desastroso acidente abalara a cidade. O cientista e suas três filhas foram assassinados enquanto dormiam.
Suspeitaram da jovem e assim levaram-na presa, deixando-a na cadeira até seus dezessete anos, quando fora descoberto que havia sido a filha mais velha que havia de feito aquilo e logo após se matado.
Estava livre novamente e seu único refúgio fora voltar para casa dos mortos.
O dia já estava nascendo e podia se ver os primeiros raios de Sol invadindo a adorável Camden, expulsando sutilmente a noite da mesma, a cidade ainda permanecera um tanto nublada, havia chovido por toda a madrugada. Os pássaros já estavam começando a cantarolar suas melodias cotidianas de seu período matinal, aquilo sempre agradara de certa forma a arcanja que costumara dizer “Os pássaros são meu melhor despertador.”, mas não naquela manhã. Cecilie não havia dormido noite passada, na verdade, a garota estava sem dormir direito algumas noites, às vezes pegara no sono, mas era coisa de meia hora, seus pensamentos a atordoavam. A loira se encontrava sentada sobre sua sacada, as pernas para o lado de fora, como uma suicida, ou alguém que não temera a morte, sua pele estava pálida como a de um cadáver, haviam suaves olheiras debaixo de seu olhar triste, quase imperceptíveis, afinal, o tom levemente avermelhados eram o foco de seus olhos, suas roupas estavam encharcadas, o mesmo ocorria com seu cabelo, deixando-o completamente escorrido, com mechas pequenas no mesmo grudando em sua pele facial, lágrimas teimavam em rolar por seu rosto, sem que ao menos Udinov fizesse algum esforço para que caíssem, a mesma permanecia imóvel, seu olhar era fixo, sua boca ficara fechada todo o tempo, apenas piscava os olhos algumas vezes demonstrando ainda estar viva.
O que dizer após tudo isso? Palavras nunca seriam o bastante, gestos talvez também não, muitos diriam, levante a cabeça e siga em frente, mas como se consegue não amar uma pessoa? Mesmo sendo errado, era impossível para a garota não permanecer amando sua irmã morta. Passaram-se alguns instantes, e nenhuma reação da garota, fora um ou dois suspiros longos, que pareciam arrancar todo o ar presente em seus pulmões. De forma fraca e baixa, um sussurro escapara de seus lábios, o timbre era triste, soava como as últimas palavras de alguém que está prestes a morrer — É hora de reagir.
Conseguindo emprego numa floricultura local, Cecilie
cuidava das flores, não atendia ao público, ficava apenas nos fundos, montando as encomendas e fazendo o cultivo. A única vez que conversara com um cliente, fora quando um homem queria exatamente trinta e sete buquês iguais, porém todos com cartões diferentes, o que gerou estranhamento na jovem, que preferiu falar pessoalmente com o mesmo.
Na manhã seguinte, os trinta e sete buquês estavam em sua porta.
Anos se passaram e a jovem continuara a trabalhar na floricultura, com suas mesas funções. Estava a plantas novas espécies de planta quando notou um par de botas pretas esmagar o botão de rosa que havia acabado de regar. Quando levantou seus olhos para descobrir de quem se tratava, fora surpreendia com um pano em frente ao seus lábios e nariz, o mesmo tinha um odor forte e inconfundível, mas a jovem não teve tempo de decifrá-lo, então apagou. Quando abriu seus olhos novamente, já estava em Dundley. Cidade nova, rostos desconhecidos, sem abrigo algum. Este era o novo presente de Cecilie. Procurando um abrigo para sem tetos, a jovem loira conseguira se estabilizar e entrar na faculdade de medicina, formando-se anos depois e se especializando em psiquiatria.
Atualmente Udinov faz parte da junta médica da clínica psiquiátrica da cidade de Dundley.
And who do you think you are?
Seu comportamento é complexo, seu sorriso é fraco como uma luz a se apagar, quem olha diretamente em seus olhos de ressaca, uma cigana oblíqua e dissimulada, não imagina o peso e a escuridão que a jovem traz consigo na alma. Não estranhe se um dia ela lhe deixar falando sozinho, muitas vezes a mesma é tomada por uma crise de pânico e então ela se isola, se machuca, sempre estando com os pulsos enfaixados de suas falhas tentativas de cessar sua inútil vida. Udinov fará de tudo para não se apegar em alguém, pois sabe o quão devastadoras podem ser as consequências que os sentimentos trazem consigo. O amor é a comédia na qual os atos são mais curtos e os intervalos mais compridos. Como, portanto, ocupar o tempo dos intervalos senão com a fantasia? Uma garota doce e esperta, está é Cecilie. Está sempre disposta a ajudar aqueles que precisam, tendo um sorriso acolhedor nos lábios mas não é bom se deixar enganar por esse jeitinho. Quando está irritada, é capaz de arrancar a cabeça de alguém com os dentes e esquece do que está ao seu redor, até mesmo da dor que sente pela perda dos pais e de tudo que conhecia. Udinov é o tipo de garota que é bom se manter com sorrisos e gentilezas, já que fora criada dessa forma por sua família e não perde a oportunidade de ser ensinar bons modos a quem precisa. A personalidade de Cecilie também é imprevisível, igualmente ao seu humor. Nos dias que ela se recorda que perdeu o amor de sua irmã caçula, ela fica triste e fechada para todos. Ela espera esquecer o acontecido, mesmo não estando totalmente certa que possa voltar a ser a Udinov de antes.