jooheon deu dois tapinhas no próprio bolso. franziu o cenho, grunhindo baixo para si mesmo quando as chaves não se manifestaram magicamente lá dentro—— era habitualmente organizado, tanto porque o que fazia no abrigo exigia disciplina quanto porque sentia-se seguro em meio à ordem. uma pilha de roupas largada por alguma das crianças no banheiro fazia sua pele rastejar, e a sensação não o deixava sossegar até que as toalhas úmidas estivessem lavadas e as roupas de segunda mão alojadas dentro do cesto. ele supunha que era uma herança de vida, fruto da rotina passiva que havia sido trabalhar na pensão dos pais durante a adolescência, bem como consequência de ter vivido por seus próprios recursos quando saiu de casa. buscou o outro bolso, localizando as chaves ao raspar as unhas pelo tecido. considerava-se devidamente preparado para enfrentar a imprevisibilidade das temperaturas noturnas, mesmo assim frequentemente era surpreendido ao pisar fora de casa. livrou-se do casaco assim que a porta estava trancada outra vez. o sol parecia ainda pairar no céu; mesmo não tendo estado visível há horas, havia uma massa distinta de calor na rua, e jooheon grunhiu. havia reunido apenas a quantia suficiente na carteira. precisava sair de marnmouth, ir ao centro e encontrar uma farmácia; o latejar de sua cabeça o havia alertado do resfriado que, em questão de dias, certamente o faria querer morrer uma segunda vez. provavelmente passaria o dia todo fora, já que havia coisas faltando na cozinha, também—— havia sempre coisas faltando na cozinha, mas aquela ocasião em particular era crítica. ao mover-se em direção à extensão da rua, precisou conter de súbito os passos de modo a evitar tropeçar em um homem de cabelos ruivos, cuja expressão deixou jooheon com uma sensação desconfortável no estômago. apesar da vontade instintiva de aproximar-se, manteve os pés grudados no concreto. “sillyehabnida,” iniciou, incerto sobre como dirigir-se a ele. “uh— você ‘tá bem?”
Agachado na mesma posição, então ficou, sentindo o corpo doer mais e sem motivo aparente. Coisas assim aconteciam com tanta frequência desde que pisara no Limbo e era horrível! Além de nenhum pouco entendível para a cabeça de Honggi que, a essa altura de sua vivência, já não tinha tanta capacidade de pensar melhor ou mais: raciocinar. Se coisas aconteciam, para ele, apenas·realmente aconteciam, não haveria porquê e nem o que questionar. Nam só não queria isso para si, retornar às lembranças e aos momentos nocivos, pois, do que se recordava dos últimos dias de vida, já havia sofrido por tabela; como diziam ‘pagara por todos os pecados’--- -que eram muitos, sim,, jamais negaria a realidade, porém, não era o único ser humano que cometia erros e, nem por isso, receberam tamanho castigo. Sem saber o que fazer, a única saída para este problema era simplesmente fugir, correr do gatilho, das pessoas e do que elas poderiam trazer a si. Todavia, não significava ser consciente de Honggi, não, mas a parte subconsciente de seu cérebro tratava de ajudá-lo nisso. ‘Ajudá-lo’. Uma faca de dois gumes, de fato. Ouviu a voz alheia reverberar aos ouvidos e temeu, novamente, estendendo a mão à frente do corpo “Não se aproxime, por favor!” respondeu, maneando a canhota freneticamente·“Fique----três passos longe de mim...” pediu cauteloso. Era bizarro, mas nas horas em que Honggi sentia dor, pareciam que eram as que ele mais parecia----e ficava, lúcido, visto que conseguia pensar e dizer coisas sensatas. Suas sentenças conseguiam ser entendidas, iam além de aleatoriedades----como de costume, mesmo que bastava-se em súplicas ou pedidos que, provavelmente, ainda seriam taxados de anormalidades. Mas não eram.·“Se eu disser como estou, isso fará com que você se aproxime? Apenas diga que----” cortou a própria fala, a dor terrível agora seguira às costelas, que sempre eram surradas, ao ponto de ter alguma delas quebradas em todo processo de cárcere privado.·