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Christian Angel [Artstation]
When I look at you, my life made sense. Even the bad things made sense. They were necessary to make you possible.
(via minuty)
Meeting of the Brig Mercury with the Russian Squadron After the Defeat of Two Turkish Battleships, 1848, Ivan Aivazovski
Monet’s Garden in Giverny, France by Jamie Beck
Quote of the day 💖
René Descartes: *thinks*
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Chance Perdomo Eats His First Poutine | Chilling Adventures of Sabrina | Netflix
Nem sempre fui educada, muitas vezes permaneci sentada à mesa quando o amor já não estava sendo servido. Permanecia sentada a mastigar vagarosamente os vestígios daquela emoção que precede o impulso de engolir, extraindo na saliva todo o gosto que podia, até sobrar apenas um bolo sem cor de emoções liquefeitas.
Os garçons transitavam elegantes por entre as mesas, levando as sobremesas, sentimentos doces e frescos em suas aparências, enfeitados com emoções brilhantes e coloridas. O velho Lory, já acostumado às minhas nada nobres maneiras, parecia deslisar por entre o exército monocromático, em sua bandeja vinha uma garrafa de rum com ele a oscilar sútil em seu interior, assim como as batidas de meu coração.
Rente à garrafa um copo solitário de cristal permanecia ereto em sua elegância dançarina, como um bailarino congelado no palco, pálido, como se a vida o tivesse deixado.
Ao meu redor as jovenzinhas cochichavam e se riam de minha demora a engolir, de minha recusa em se levantar. Os casais olhavam piedosos o vazio na cadeira à minha frente enquanto saboreavam o doce gélido que lhes era servido após os pratos quentes.
Às etiquetas nunca fiz sala, incapaz de largar o osso até que chegasse ao tutano, diversas vezes borrei meu batom naquele roer lento e persistente. Fui sempre a primeira a entrar e sempre a última a sair, a primeira a se sentar, a última a se levantar. Quando Lory se aproximava em seus pés sexagenários eu sabia que havia algum tempo que o tutano do sentimento havia tido extraído e que eu, imersa no prazer narcísico que o dente tem de se esfregar em outro osso, estava prestes a mastigar a língua.
Ele me sorria com os olhos verdes de absinto e com a delicadeza do amante que pela primeira vez é tocado por seu amado o copo perdia sua palidez , incorporando vagarosamente a pele negra de Lory, pressionando-se em suas digitais gentis, assumindo a cor quase esbranquiçada da ponta dos dedos que o segurava.
Diferente dos garçons que iam e vinham sem serem olhados nas mesas, Lory e Eu nos olhavamos com uma intimidade incessante, seus olhos não davam atenção alguma ao copo que permitia ter toda sua delicadeza cristalina segurada por sua mão larga e firme que num susto poderia esmaga-lo. Não, seus olhos e meus olhos tentavam a todo custo focarem uns nos outros, ele em busca do momento em que eu me levantaria, eu no anseio de ele me servir com algo tão intenso quanto a dor que me desfigurava as feições d'alma.
Após o copo ser abandonado sobre a mesa de forro carmesim aos poucos as marcas dos dedos desapareciam deixando o amante invisível. Lory baixava as pálpebras de ébano e como a noite que se sobrepõe à Amazônia, seus olhos tornavam-se ocultos aos meus insolentes. Eu o tempo inteiro mantinha minhas costas rentes à cadeira talhada de emoções, como se ao me inclinar meu vestido fosse ser arrancado e nú ficasse meu corpo.
O rum vinha do alto como um suicida do alto de uma ponte, derramando-se no copo antes pálido. Lory não parava quando o copo já havia permitido que metade de si fosse sustento para o rum, apenas quando tudo o que impedia o líquido de transbordar era sua tensão superficial Lory fechava a garrafa.
Meu reflexo, como um intruso pervertido, se infiltra naquele doce copular, sem poder ser rum, sem poder ser copo, sem ser gente, sem ser sentido, sem alterar a tensão tão delicada do líquido meu reflexo ainda estava ali, invertido, oscilante, prestes a desfigurar-se com a menor oscilação na mesa. Da mesma forma era o sentimento fantasma, não fazia nada mais do que se refletir em mim sem alterar quem sou mas à uma lágrima de desfigurar-se completamente.
Os jovenzinhos sorriam baixo ao verme, digo, ver-me olhar o homem com a gratidão de quem encara seu algoz. Minhas mãos não atreviam-se a tocar o copo, meu peito arfante subia e descia lentamente mas com o desespero crescendo em minha garganta.
Meus olhos viam a si mesmos na prata onde antes estivera aquele sentimento agridoce e agora era vazia travessa. Enquanto à minha volta, as vozes antes doces e gentis agora começavam a exigir algo que aplacasse a sede, sufocadas no doce, sedentas de algo verdadeiramente puro. Mas ninguém vinha até eles, todos os garçons estavam a transitar pela vasta cozinha tentando pegar mais das sobremesas que antes mesmo de terem sido degustadas até o final, haviam sido novamente ordenadas pelos pares.
Lory me olhava com a mesma profundidade de um rio, a sinfonia dos casais ao meu redor eram duetos de agonia e convulsões. Incapazes da impolidez de pedir algo menos charmoso e doce do que a mais cara das emoções, eles haviam exigido uma segunda dose dela e agora ao invez de saírem de braços dados cada um rolava tentando achar saliva que lubrificasse as palavras ásperas prontas a penetrar profundamente o coração alheio.
Em meio ao caos eu me inclino lentamente, minhas costas aos poucos deixando o encosto e meu reflexo aos poucos aumentando no copo. Meus lábios dotados da mesma cordialidade das mãos sexagenárias beijam e sugam o rum com rapidez.
De fato minha veste é rasgada e não resta nada entre a visão dos outros e meu órgão exposto. Não me preocupo, nenhum olhar além do daquele homem pode ver, estão ocupados demais em busca de algo mais suave para se nutrir, convencidos de que é impossível comer algo tão pesado quanto aquelas sensações.
Querem um amor, mas um amor líquido, que possa ser virado goela abaixo sem que precisem conversar, sem que seja possível conversar, sem que seja necessário olhar nos olhos, sem que seja necessário ver o outro contorcer-se com o frio ou as caretas com os gostos.
Eu, eu não desejo a suavidade, o áspero me acaricia a língua, o duro é íntimo de meus dentes, do toque minhas mãos, da pressão de meus lábios. Eu não desvio o olhar do que como, do que bebo. Lory puxa a cadeira, se senta. Até nós vem uma rapariga em passos rápidos, retira a prata vazia.
Na mesa copo e rum permanecem lado a lado. Solto meus cabelos, uma cascata encaracolada a dourar o espaço antes nu de meus seios. Lory leva a garrafa para si e entrega-me o copo. Jogo o líquido para dentro e engulo ainda olhando-o.
— Ainda lhe doi o espírito?
—Autofagia.
—Qual o gosto de hoje?
— Flambado em uma safra de vinte anos.
—Como estava?
—Distinto… Gosto mais forte, envelhecido.
— Não diz nunca ser isto canibalismo…
—Somente é canibalismo se fôssemos iguais.
—E não são?
—A mulher que eu era um ano atrás deixou de ser igual a quem sou hoje no momento em que a devorei porque se fosse igual a mim ninguém teria sigo capaz de cravar nela os dentes.
— E quando você voltar aqui, o que devo lhe servir?
—À mulher que se sentar aqui trazendo meu semblante sirva a mim, mal passada, pois as emoções já me terão cozinhado o interior.
—A pessoa que esteve onde estou sentado onde estou, onde ela está?
Meus olhos suspiram enquanto olhando ao redor vejo os rostos inóspitos de carinho a se proliferarem nas mesas.
—Digamos que sou indigesta a paladares de sobremesas.
—De certo… Te ofende?
—Ofendia à quem comi na travessa. Mas a mim… Por que a banguelice alheia me ofenderia? Se não possui dentes não se sente à uma mesa de realidades.
Lory assente, novamente deixando a noite cobrir seus olhos. Os outros ao meu redor vão deixando as mesas em passos rápidos, ainda não chegaram a saída quando os garçons retornam com suas bandejas cheias de doces, amores e cores.
Aceleram os passos, passam pra trás os menores, todos querem sair dali, não querem comer aquilo, não é tão bom quanto pensavam. A legião de garçons se olha perdida, sem saberem onde ir.
Lory sorri seu sorriso angélico e enquanto se ergue levando para longe o rum seco se afasta dando ordens aos seus. Meus olhos deselegantes encaram a mesa vazia quando um prato com uma fatia doce é posta à minha frente e outro, e outro, mais um..
“Eu estou apaixonada por você.” Ela disse me sentindo com as costas da mão, “Preciso que você saiba.”, me disse ansiosa ainda a me acariciar, como se isso fosse o desenho do que sentia. Eu sabia, tão certo quanto sabia o que eram as ondas gravitacionais e que meu café é mais apreciado se amargo e com canela. Sabia, mas inteligência é mais do que saber, é adaptar-se e aquele conhecimento juntou-se a outros e o quadro holístico não me mostrava nada de novo. Eu sabia como sabia como gravar uma cassete, mas… Hoje não há mais fitas cassetes a serem gravadas. Da mesma forma era saber este sentimento, antes eu poderia sentir algo, ainda que vaidade, mas hoje… Hoje não há mais lugar onde executar meu conhecimento, hoje às engrenagens de meu coração não são mais do que pequenas oscilações gerando alterações no espaço-tempo de minhas memórias e imaginações, há uma teoria formulada a respeito disso mas receio que mais alguns século serão necessários para registrar alguma delas.
(Laranjas de Madeira)
Quando vi que o dia vinha correndo e que logo em Salvador seria seis e meia, meus olhos não se aguentaram fingir de deserto e piscaram os oceanos de minhas noites rendeiras.
E surfaram por meus rostos todos os sentimentos planos, cada emoção vinda por guiares que não os meus, deslizaram por mim num auto enterro. Fincaram-se lá na frente, onde quando a Lua clareia faz parecer rosto de moça no carnaval, brilhante e contente.
O dia vinha vindo e eu estranhamente me apercebi que diferente de ontem eu realmente estava aqui, meu coração em paz como ilha no mar punha em jangadas os que ali já não deviam estar, dava a eles água de coco e frutas que é pra aperreio não passar.
Foi com.sorriso de caipira pescador que o velhinho de remendo fazia as cestas pros viajantes emburrados, se acalme, ele dizia, eu não queria lhes atrasar, se os mantive aqui era pra mode esperar os fruto crescer e as árvores flutuar.
Pois parta feliz quem por minha causa se demorou pois em meus mares já não há tempestades que temer nem minhas sereias lhes cantarão mais sobre o Amor.
E se tenho a impressão de lhe sorrir que mal há, minha flor? O deserto no enredo não guarda segredos, eu sou quem sou. Não trago no peito nenhum galanteio além d’amor Não sei pedir atenção aos olhos teus
Deixou de mansinho seus cílios ai, de longe, estender um pouco seu olhar E me sorriu todo, como se fosse apanhar mil estrelas do mar e seu corpo Todo presentear com um pouco de sereno
Ingênuo eu que cheguei acreditar que com meu samba pudesse lhe motivar a dançar em minha mente
É só a imagem de teu sorriso em dó menor regendo a balaio de meu coração É café em água ardente.
Minha menina, só diga que não se forem te perguntar se já vais, se sua noite acabou de acabar, quando eles assim lhe perguntar, tenha a fineza de negar
E venha, mesmo que demorada, a sambar, chegando pertinho, mesmo se for só pra eu te gravitar, mas deixa de passagem, aqui no meu cantinho, o teu chamego ou, se puder, teu beijo e tempo inteiro, qualquer coisa que não te faça falta, o mais simples dos jeitos.
- Laranjas de Madeira,
JB Four Seasons with AGASE Fan art
As soon as you trust yourself, you will know how to live.
Goethe (via goodreadss)