Uma manhã corrida era a última coisa que Ursula precisava com a ressaca desgraçada que lhe atormentava a cabeça. Um de seus fornecedores tinha errado no dia da entrega e tinha precisado ir até o local delicadamente ameaça-los caso não tivesse o seu pedido entregue no período que precisava. Para variar, as ruas da cidade estavam cheias e pegar um táxi se tornava uma missão praticamente impossível. Não teria problema, claro, uma cidade com tantas estações de transporte público! Sim, se ela não tivesse esquecido o maldito cartão do metrô em casa. A caminhada de meia hora não seria qualquer problema se a cada passo não sentisse uma pontada irritante na têmpora que a lembrava de que a cartela de analgésicos estava dolorosamente longe. Foi há algumas quadras distante de casa que percebeu que alguém lhe seguia. Não era a primeira vez, mas não a deixava menos tensa. O coração acelerou em antecipação, tentando disfarçadamente olhar para o rapaz que estava atrás de si há dez minutos. Apertou o celular no bolso, sem saber direito o que fazer. Por que tudo que envolvia [supostamente] o ex marido a deixava tão sem ação? Que droga. Respirou fundo e apertou o passo, virando em uma esquina que não deveria. A cena da jovem caminhando tão rápido e olhando constantemente para trás não devia ser algo exatamente discreto, mas não esperava que alguém em Nova Iorque fosse ligar para o que parecia ou não acontecer com ela. Em uma das curvas esbarrou em alguém, segurando instintivamente nos braços da figura diante de si, sequer tendo tempo de se desculpar já que estava ocupada demais tentando descobrir se estava errada quanto ao homem fazendo aquele mesmo caminho que ela. Quando a voz lhe atingiu os ouvidos, Ursula demorou para compreender as palavras e então balançou a cabeça em negativa, finalmente encarando quem estava na sua frente. Havia sim um problema, e não estava bem. Mas aquilo não importava ao desconhec- “Maverick?” Franziu o cenho, mas antes de escutar a confirmação, sentiu-se tensa ao ouvir os passos e logo notar a figura do homem virando na mesma rua. Ao perceber que Sula não estava sozinha, ele continuou caminhando - e a peruana não sabia se ficava aliviada por se livrar dele, ou assustada com as possíveis consequências de que ele a tivesse visto nos braços de outro homem. O que, inclusive, mandou um lembrete mental para que soltasse o ex colega e se afastasse pelo menos um passo. “Não, está tudo bem. Desculpe por isso, eu só fiquei meio… tensa. Achei que… enfim, não foi nada.” Sorriu com simpatia; ‘achei que estava sendo seguida por algum dos animais que trabalham para meu ex marido’ não era o tipo de coisa que se falava daquela maneira. “Que coincidência. Nem conseguimos nos falar na reunião” Comentou, mesmo que na realidade havia sido ela quem tentara o evitar durante a festa. Não estava exatamente ansiosa para reabrir algumas feridas, mas o universo parecia ter outros planos. Também se sentiria mais segura falando com ele do que caminhando sozinha para casa, mesmo que não estivesse disposta a verbalizar aquilo.
Não demorou a reconhecer as mãos que seguravam seus braços depois de a dona delas ter esbarrado em si. O que lhe passou despercebido foi seu próprio movimento: em um intervalo de segundos, um dos braços de Maverick envolveu a cintura de Ursula, dando-lhe um apoio extra para que não caísse. Não se mexeu, porém, nem mesmo depois do homem desconhecido passar e ela tentar se afastar. Tudo o que fez foi esticar o braço, para que o contato físico fosse mantido. Pendeu a cabeça levemente para o lado, o cenho franzido ao ouvir a explicação cheia de incertezas dela. Virou o rosto rapidamente para ver o homem que tinha passado e agora já estava longe — o bom, velho e discreto instinto protetor —, mas resolveu não dizer nada naquele momento e apenas retribuiu o sorriso dela. “É, estou começando a pensar que vou ouvir muito isso nos próximos dias.” Respondeu em um tom de brincadeira, mesmo sem ter certeza se ela ainda saberia reconhecer. Era verdade que falara com pouquíssimas pessoas na reunião e a culpa disso podia ser dividida igualmente entre Maverick e o resto das pessoas. Os dois lados tinham, de certa forma, evitado um ao outro. Não era exatamente um problema para o Bressler. “Hm, eu também estou indo por aquele caminho, se você quiser companhia.” Ofereceu, por mais que fosse uma mentira descarada e muito óbvia. Afinal, os dois tinham se trombado justamente por estarem seguindo direções opostas. Mas Maverick não achava que ela fosse se importar, dado o certo desespero em que parecia estar. “Eu provavelmente deveria...” Não chegou a completar a frase, mas fez a ação: tirou as mãos da cintura dela, finalmente. “Enfim... Eu estava fazendo uma corrida, sabe, exercícios... Mas fico feliz em andar, também, se você não conseguir me acompanhar.”