DIETA DA ALMA
Há em meu âmago um jejum de estrelas: Despi-me do manto de sombras que o ódio teceu, Suavizei as raízes da mágoa, que sangravam no solo da memória. Libertei os pássaros engaiolados nos porões da melancolia…
Minha alma é um lótus inquieto que rompe o lodo do desencanto, erguendo-se em prece ao sol do agora. Que ela dance, descalça, sobre os prados onde o infinito sussurra, banhe-se no rio da inocência e vista-se de aurora.
Minha essência é um barco sem âncora— não mais arrastará os escombros das tempestades antigas. Urge que eu me torne o oceano, não a gota que treme no abismo. Só assim o amor, divino incêndio, consumirá meus limites e fluirá como canto no deserto do ser.
Dei o cair as correntes de ontem: o passado é cinza ao vento, e o amor não habita mapas— é brisa que navega pelas veias do cosmos. Escuto com os poros do silêncio, pois o amor não fala: respira entre as pausas da existência.
Contemplo o alvorecer como um verso gravado no éter— até o sal das lágrimas entoa, em seu segredo, o nome sagrado do amor. E cada onda, mesmo amarga, é letra iluminada no livro azul do tempo.
Pois sou, enfim, a página e a pena, o suspiro que a eternidade esqueceu na boca do vento. E neste jejum de luz, saciado apenas pelo mistério, descubro: o amor não se possui— empresta-se ao infinito, como um rio se entrega ao mar.
Davi Roballo









