Last smoke before storm // POV
Quando algo começa, você não tem ideia de como vai terminar. E aí está o problema principal de quem é ansioso, não saber como algo vai terminar. O ansioso está condenado a viver uma vida horrível da qual muitas vezes nem chega a experimentar, porque está preocupado demais com o futuro. Nós passamos toda nossa vida nos preocupando com o futuro, planejando para o futuro, tentando prever o futuro. Como se imaginar fosse, de alguma forma, amortecer o impacto. Mas o futuro está sempre mudando. O futuro é a casa dos nossos medos mais profundos e de nossas esperanças mais selvagens. Mas uma coisa é certa… Quando ele finalmente se revela, o futuro nunca é do jeito que imaginávamos.
Naquela segunda feira, enquanto tomava seu café duplo e fumava tranquilamente seu cigarro, Gregor N. Burlew estava esperando pelo melhor. Sua avó havia feito uma cirurgia valvar há algumas semanas e pelo que o médico dissera, o prognóstico era bom, ela teria uma boa qualidade de vida a partir de então. Nenhuma noticia fora mais aliviante para o economista, que desde então nem se importava de estar atolado de trabalho, ou da correria que sua vida andava, tudo que era relevante para ele é que a partir de agora sua avó tinha grandes expectativas de melhoras.
Assim, quando o telefone tocou e Greg viu o numero de Claire, sua prima, na tela, ele não se preocupou muito. Atendeu tranquilamente, esperando qualquer coisa promissora. Esperar pelo melhor é um péssimo hábito da natureza otimista. Gregor era um otimista. Talvez por isso seu corpo inteiro tenha gelado ao ouvir o tom da outra. A voz de Claire saia baixa e lenta, ao mesmo tempo desesperada. Era como se ela estivesse tão em pânico que não conseguisse falar. Burlew acabou entendendo apenas poucas palavras: Caminhão, supermercado, vovó, hospital.
As palavras cortadas que chegaram aos ouvidos de Burlew foram o suficiente para ele levantar correndo da mesa, após jogar o dinheiro na mesma de qualquer maneira e sair o mais rápido que pode na direção de seu carro. Gregor precisava chegar no hospital o mais rápido possível. Entrou no veiculo, colocou o cinto, que quase não fechava de tanto que suas mãos tremiam. Deu partida. Maldito trânsito de Nova York. Maldito engarrafamento. Maldito tudo. Ele não ia sair do lugar. Destravou o cinto. Desceu do carro. Não importava. Ele tinha de estar em algum lugar.
Quando Gregor era menor e se atrasava para o jantar, seu avô o dizia para correr antes que sua avó percebesse sua ausência, afinal, ela odiava atrasos. Ele mandava-o correr como se sua vida dependesse disso. O pequeno Greg, ainda que fosse um dos melhores corredores na época, não levava essa segunda parte muito a serio. Contudo, naquela segunda-feira que começara ensolarada se tornara nublada, tanto climatologica quanto emocionalmente Gregor Burlew correu como se a sua vida dependesse daquilo. No fim das contas, havia uma parte de sua vida que dependia daquilo. Uma parte verdadeiramente importante.
Se você o perguntasse naquele instante, ele não sabia dizer o quanto havia corrido ou quanto tempo havia demorado entre o starbucks proximo a empresa em que trabalhava na Wall Street e o hospital. Mas, se você perguntasse a Heather, ela contabilizaria diversas horas. Haviam sido horas correndo enquanto sua vista embaçava em uma rua e outra e milhões de cenas passavam por sua cabeça. Gregor pensou em milhões de possibilidades e fatos durante todo o caminho e cada uma delas passou como um flash por sua mente quando ele chegou no hospital e lhe disseram que ela só estava viva graças as maquinas que haviam colocado na mesma.
Depois de um tempo de longos gritos do diretor com quem quer que aparecesse em sua frente, ele finalmente se acalmou e deixou Claire lhe explicar que a sua avó tinha ido ao mercado, estava atravessando a rua quando fora atropelada por um motorista que fugiu.
O ansioso, ainda que otimista, se prepara para o pior todos os dias. E pensa em mil possibilidades, assim, como Gregor pensava sempre. Mas, por mais preparados que estejamos, não vemos realmente o desastre chegar. Tentamos imaginar o pior cenário para prever a catástrofe. Mas quando o verdadeiro desastre chega, ele vem do nada. E quando o pior realmente acontece… Nos encontramos completamente perdidos.
No instante em que entrou no quarto e viu a mulher completamente ligada a aparelhos, além de ofegante pela corrida, gritos e ansiedade, ele estava completamente perdido. Sua mão passou pelo seu rosto, transtornado. Ele não conseguiu ficar cinco minutos lá. saiu correndo do lugar, correndo do hospital. A atitude que, no fim das contas, nenhuma dos Burlew estava esperando. Afinal, Gregor sempre fora o ponto seguro, a voz da razão, o que mantinha as coisas girando em sua perfeita orbita e agora parecia que ele se quer estava nela.
Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? As pessoas se perguntam essa questão tantas vezes que se tornou um clichê. Mas isso é porque coisas ruins acontecem com boas pessoas. Constantemente. Você só precisa esperar que quando seja sua vez, você saiba o que fazer. Como lidar. Como perseverar. Mas a verdade é que… Você não sabe como vai reagir ao seu pior cenário… Não até acontecer.