O amor não é para os fracos
Fabrício Carpinejar

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O amor não é para os fracos
Fabrício Carpinejar
Quem ama não tem Plano B.
Fabrício Carpinejar
- Nosso projeto de casar está de pé?
- Deitado, para a gente se amar melhor.
Saudade da sinceridade do escritor Caio Fernando Abreu, que era um grande intelectual e afirmava descaradamente que adorava novela, não perdia uma cena e mandava carta para os roteiristas para sugerir um final feliz.
Fabrício Carpinejar
Saudade a dois
A saudade tem prazo de validade.
Não pode permanecer muito tempo guardada. Não pode permanecer muito tempo não sendo correspondida.
Depois de aberta e fora do convívio, assim como o leite, a saudade azeda. E não há memória refrigerada para conservá-la.
Quando passa da hora, aquela falta ansiosa e comovente é capaz de se tornar ironia e sarcasmo.
O suspiro se transforma em ofensa – nos enxergaremos tolos e burros por confiar cegamente em alguém e esperar à toa. Reclamaremos nossa idiotice por termos feito uma vigília em vão, por termos esquecido de viver.
Já não queremos que o outro volte, já desejamos que ele nunca mais apareça em nossa frente. Violentaremos as lembranças, fecharemos a reza.
A ternura de antes será trocada pela raiva de não ser atendido. Mudaremos a personalidade de nossa conversa, de doce para ácida. Pois o segredo (a saudade é um segredo!) que nos alimentou durante meses não fora respeitado.
Infelizmente, a saudade apodrece.
Quando deixamos de pedir a presença para cobrar a ausência. É sutil o movimento. Toda a atenção dedicada ao longo de um período começa a ser vista como desperdício. Não aconteceu retorno das juras, nem o estorno das expectativas.
Você mandou centenas de mensagens, renunciou saídas com amigos e bares, teve uma vida discreta e fiel, só para honrar uma despedida, e percebeu que, no fim, sempre esteve sozinho na saudade.
Saudade é como o amor. Perece quando não é a dois.
Aliás, quando a saudade não é a dois, deixa de ser saudade para se descobrir solidão.
A saudade é o que guardamos do amor para o futuro. É o que deixamos para amar no futuro.
Nada dói tanto quanto um amor que não vingou após os cuidados do plantio.
Nada dói tanto quanto a saudade que envelhece, uma saudade que definhou pela indiferença, que não foi valorizada pela nossa companhia, que não desembocou em festa.
Nada dói tanto quanto promessas feitas gerando ressentimento.
A saudade não é eterna. Acaba quando percebemos que o amor era da boca para fora, que a urgência era interesse, que a necessidade era falsa.
A saudade é uma esperança de amor. Precisa ser consumida rapidamente, não mais que três meses. Senão, nos consome e nos estraga.
Fabrício Carpinejar
Quanto tempo dura o amor sem retorno, sem reconhecimento?
Talvez pouco, quase nada. Quem não se sente amado não é capaz de amar. Não é problema de carência, é questão de tortura.
Extravia-se a cintilação dos olhos. Ocorre um bloqueio, uma desesperança, uma resignação violenta. É como dançar valsa sozinho, é como dançar tango sozinho. É abraçar pateticamente o invisível e não ter o outro corpo para garantir seu equilíbrio.
Você se verá um mendigo em sua própria casa, diminuído, triste, desvalorizado, esmolando ternura e atenção. Aquilo que antes parecia natural – a doação, a entrega, a alegria de falar e de se descobrir – será raro e inacessível. Todo o corredor torna-se pedágio da hostilidade. Passará a evitar os cômodos para não brigar, passará a evitar certos horários para se encontrar com sua esposa ou marido, passará a prolongar os períodos na rua, passará apenas a passar. Combaterá as discussões e gritarias anulando sua personalidade. Despovoará a sua herança, assumirá o condomínio do deslugar. Comerá de pé para evitar o silêncio insuportável entre os dois.
Quer um maior mendigo do que aquele que dorme no sofá em sua residência? Com um cobertorzinho emprestado e com a claridade das janelas violentando os segredos?
Por ausência de gentileza, perdemos romances. O que todos desejam é alguém que diga: não vou desperdiçar a chance de lhe amar. Alguém que não canse das promessas, que não sucumba ao egoísmo do pensamento, que tenha maisnecessidade do que razão.
A gentileza é tão fácil. É fazer uma comida de surpresa, é convidar a um cinema de imprevisto, é pedir uma conversa séria para apenas se declarar, é comprar uma lembrancinha, é chamar para um banho junto, é oferecer massagem nos pés, é perguntar se está bem e se precisa de alguma coisa, é tentar diminuir a preocupação do outro com frases de incentivo.
Quando o amor para de um dos lados, o relógio intelectual morre. Não se vive desprovido de gentileza. A gentileza é o amor em movimento.
Mania de menosprezar o amor simplesmente porque não nos sentimos merecedores do amor.
Carpinejar
Todo apaixonado é o último a saber que está apaixonado. O mundo inteiro sabe, menos o próprio apaixonado.
Carpinejar
O amor é tudo o que você não esperava que fosse amar numa pessoa.
Carpinejar
Querida Maria,
O problema do casamento aberto é que ele logo se torna escancarado.
Casamento aberto é uma invenção de quem já traía.
Casamento aberto é uma fachada de lavagem de dinheiro.
Casamento aberto é colorir a amizade e desbotar o amor.
Casamento aberto é uma forma intelectual de acumular mulheres.
Casamento aberto é agência para recrutar nova esposa.
Casamento aberto é dividir os méritos, mas não dividir as dívidas.
Casamento aberto é substituir a sinceridade pela bajulação.
Casamento aberto é o conforto para os indecisos e os mornos.
Casamento aberto é quando o ciúme é menor do que a realidade.
Casamento aberto é se sentir desejada por todos os homens, menos por aquele que você deseja.
Casamento aberto é a receita ideal para uma vida de solteiro.
Casamento aberto é menosprezar a dependência dos hábitos.
Casamento aberto é concurso de sósias.
Casamento aberto é falsificar o pecado original.
Casamento aberto é apagar até a possibilidade de trair.
Casamento aberto é transar no divã.
Casamento aberto é admirar a sogra mais do que a esposa.
Casamento aberto é fazer discussão de relacionamento com amantes.
Casamento aberto é perder o privilégio da vigília, de alguém acordado por você reclamando que é tarde demais.
Casamento aberto é ter o sonho assaltado toda semana.
Casamento aberto é transformar o sexo oposto em sexo aposto: casamento, aberto.
Casamento aberto é anular a cobrança e a crítica que você possa receber: é a impunidade amorosa.
Casamento aberto é trocar as portas pelas cercas, é trocar os cabelos pelos chifres, é trocar a confiança pelo medo.
Casamento aberto é para quem não tem coragem nem de se casar muito menos de se separar.
Abraço com toda ternura,
Fabrício Carpinejar
OS TRÊS PRIMEIROS MESES DE RELACIONAMENTO DE UM AMIGO
Moral da história:
Amor que começa muito liberal acabará conservador.
Amor que começa com as janelas abertas terminará fechando todas as portas de casa.
Sofrer em silêncio já é desistir.
Não confio na saudade, confio na presença.
Os sonhos são conversas que deveriam ter acontecido.
A dor é quase você e eu, mas é, na verdade, minha saudade de você.