Garganta amarrada, consumida por um constante sufocar-se é familiar desde aquele momento da infância, de um mundo colorido por fora que não lhe pertencia, mas que por dentro silenciava-se no seu constante e sensível azul. Pra ser mais exata, foi parida num sufoco de mais de 48 horas de um parto sofrido. Foi retirada a força com aparelhos específicos para que não sufocasse. Nasceu na dor, num sufoco angustiante e nessa sensação de garganta travada foi moldada.
Costumava ouvir dos mais velhos quando tentava expurgar algum sentimento angustiante.
“Engole essa comida pra ficar forte como fulana!”
Lhe dirigiam a palavra e nem lhe perguntavam se ela queria ser forte como fulana, pois ela não fazia questão de parecer ninguém, precisava de um motivo decente pra engolir. Nunca foi dessas de aceitar facilmente as condições que foi violentamente jogada, sempre teimosa, ouvindo dizer que teimosia era pecado, ou que não era coisa de menina bonita. Nunca aceitou, mas ela engolia, e só engolia porque era inteligente o suficiente pra saber que era uma tentativa falha de fazê-la comer, porque era pro próprio bem. Volta e meia fazia birra, dizem que não queria comer, que era uma garotinha enjoada, mas as vezes queria falar, apenas falar Mas é feio falar de boca cheia, era preciso engolir primeiro.
“Engole a comida antes de falar”
Ela engolia novamente e numa tentativa insistente falava mais um pouco e era repreendida. Ia pro quarto ficar no castigo por ser uma criança marota e acabava chorando, mas criança chorando faz barulho e novamente ela ouvia um bem intenso “engole esse choro”.
Ela engolia, ela engoliu, ela engole e sufoca.
Cresceu sendo moldada num constante engolir e silenciar causado pelo medo. Essa sua sensação de desamparo e a raiva foram sempre suas amigas mais presentes e elas pareciam combinar com aquele azul meio metálico e elétrico que percebia dentro do peito. Talvez ela se sentisse em casa com essa sensação porque parecia que essa eletricidade toda tinha uma presença forte nos nervos e que fazia o estômago queimar de frio com tanto choque.
Foi criado todo um mundo cor de rosa a sua volta, afinal era uma menininha tão meiga e fofa, mas repare bem no que disse agora mesmo: a sua volta. Ela se fez silêncio, criou bons modos, mas nunca aprendeu a cruzar as pernas quando usava vestido. Por dentro o coração era azul, e quando dizia isso pra alguém, achavam graça ou bonitinho, quando na verdade ela queria dizer que existia um certo sufoco e não foi compreendida, não foi ouvida. Nunca foi.
Não se acostumou com esse modo de vida apesar de achar que tudo aquilo fosse normal e que talvez ela devesse mesmo ser obediente como a fulana. Cresceu com medo, fundamentada naquela raiva, se relacionou bem com as outras cores, apesar de nunca tomá-las para si. Aquilo não era pertencente a ela, mesmo que ela pudesse. Tanto não sentia, quanto ainda não sente esse convite de uma vida mascarada por um excesso de brilho, luzes e cores que pra ela só passam a impressão de que jogam a sujeira pra baixo do tapete e que assim é a vida ao seu redor.
Cresceu vendo uma violência tremenda de fora, criava imagens na sua cabeça para amaciar a dor. Fazia um desenho ou outro, talvez fosse dançar no seu quarto, brincar de sua brincadeira favorita ou jogar dominó na casa da vizinha pra escapar um pouco daquele ambiente pesado e omisso, que faziam questão de tingir de rosa para que por ela não passasse percebido.. Ela sentia lá dentro do peito uma dor causada por toda essa podridão falsa e vazia do mundo adulto. Ela não só percebia o jogo sujo, quanto também percebia a tentativa de escondê-lo, além de também tentar se solidarizar e ajudar. Sua maneira de ajudar era o fugir ou o engolir o choro.
Teve uma adolescência conturbada, vomitou muitas de suas angústias, resolveu depois de muita insistência assumir pra si que aquele mundo não era seu. Toda aquela máscara que os adultos lhe faziam vestir com toda uma sutileza que se dirige a palavra para uma criança fofa acabou. Os peitos começaram a crescer e sua relação com os adultos virou outra. Tudo que era cor de rosa por fora passou a ser colorido, cheio de informação. Tudo o que fazia tinha um controle, estava sempre sendo conferida em nome do cuidado. Um dia sangrou por entre as pernas, ouviu que estava virando mulher, mas ninguém a ensinou naquele ambiente mascarado que o mundo ia cair ao seu redor. Ninguém aceitou seu modo cruel de se relacionar com a própria dor e assumir pra si que aquelas marcas faziam parte da sua personalidade. Dizia que queria ser artista, mas isso deixou de ser bonitinho faz tempo. É preocupante, ela não cresceu. Onde foi que erraram, perguntavam-se. Culpavam sempre um fato ou outro, ou talvez a perda dum parente querido, mas nunca se deram ao trabalho de tirar suas máscaras para ver a podridão fedorenta que já estava tomando conta de suas próprias caras. Não se deram ao trabalho de lavar a face, ao contrário dela, que sempre fez questão de limpar-se.
O vômito consequente de tanto engolir passou a ser mais frequente. Seu corpo magro causava sempre uma reação por onde passava. Aqueles seios pequenos e redondinhos aparecendo num decote pequeno já causavam um desconforto quando ela aparecia. Ela sentia que os olhares eram outros, ou por malícia masculina ou por inveja das mulheres mais velhas. Ela achava isso tudo ridículo, não pediu pra ser assim e estava pouco se importando para os padrões. Pouco se importava com a informação de ter sido “escolhida” por um deus seletivo para ser linda. Ela não queria nada disso. Sua magreza e sua vontade de ser artista começaram a fazer um sentido falho na cabeça de quem lhe via por fora e isso só causava mais raiva e consequentemente, mais vômito. Sua garganta dolorida dos inúmeros choros que engolia depois de algumas teimosias (sempre dela, culpa dela) já não era novidade, ela se acostumou com aquilo há muito tempo. Essa mania de ver de fora, do que os outros vão pensar ou da manutenção de uma imagem que ela sentia de longe o fedor daquelas “almas” em decomposição nunca lhe fizeram sentido.
Passou a buscar dentro de si aqueles muitos silêncios que fez em nome do cuidado, da preservação das relações e dos bons costumes. Os vômitos começaram a vir involuntariamente, e em dias assim ela se recolhia para seu esconderijo quarto, onde sentia e sente que tem conforto pra abrir a alma sem medo de se molhar com a sujeira toda que tem do lado de fora. Os vômitos permaneceram acompanhando seus passos, sendo bastante rotineiros quando a “alma” dói ou numa noitada de embriaguez por aí. Ela fez de seus vômitos palavras difíceis de serem regurgitadas, uns movimentos bobos de sua dança que possibilita dialogar com aquilo que vem de dentro. Fez de sua arte/vida um constante sentir dor, seja na carne ou naquilo que chamam de “alma”, e está disposta a seguir em frente com sua teimosia de não vestir as máscaras e sim lavar o rosto. Ela não tem esse cheiro podre, apesar de o mundo lá fora com toda essa insistência em modelá-la até hoje estarem sujando-a. Ela aprendeu a vomitar e lavar o rosto e espera não perder essa luta, pois é a única coisa que a mantém de pé num ambiente sujo desses, a integridade de sua vontade própria e seus constantes voos, mesmo que seja incômodo. Os floridos e coloridos que aguentem, ela aprendeu a fazer morada em sua própria treva. Sua raiva é exposta, seus medos são visíveis, pessoas mal intencionadas se utilizam desse seu abrir de asas e “alma” mas ela insistentemente vai exibir sua sujeira e não escondê-la por pura ordem.