nota
trabalhar num hospital tem sido um negócio bem doido. há menos de um ano, eu estava na beira de um leito, dormindo numa cadeira rasgada, sem fundo, sofrendo muito, mas travestida de uma força que nem sei de onde vinha: só não queria aumentar o sofrimento de minha mãe.
no dia a dia, autorizo familiares a verem seus entes queridos, por vezes, pela última vez. ali no leito, muitos em sofrimento profundo. é um tipo de dor que eu tenho de guardar comigo, não vejo com quem compartilhar. ninguém ali entenderia.
— jajá faz um ano, não era pra doer tanto assim mais. historinha triste todo mundo tem.
tá bem. realmente, todo mundo tem.
— mas você não pode se apegar ao passado, não faz bem, bola pra frente.
tá certo, eu mal falo sobre. não tenho apego nenhum ao passado. o que me pega é um futuro que não poderei viver do jeito que imaginava.
ai, engulo o choro. penso nessas frases que já ouvi, direta ou indiretamente. pego minhas canetas, minha prancheta e vou fazer minhas anotações.
— ainda há muita vida pela frente.


















