Faz um tempo que não apareço aqui, lembro que tinha um costume muito bom de escrever, e me orgulho de cada uma das poesias que compus. Eu sabia me expressar bem, no momento que meus dedos tocavam o teclado tudo fluía tão facilmente, que o alívio surgia rapidamente enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Hoje, em 2019, não estou preocupada em fazer um texto bonito, com palavras rebuscadas e com aquela sonoridade impactante. Não. Eu mudei. Antes de me preocupar com a métrica ou quaisquer recursos textuais eu preciso focar em algo que perdi e não tenho mais facilidade nenhuma em fazer: me expressar. Mesmo que aqui saiam palavras embaralhadas, repetitivas ou até mesmo sem conteúdo nenhum, é importante que eu escreva, e eu espero ler o que escreverei agora no futuro e ter orgulho de mim mesma também, só que por um motivo diferente: eu consegui dizer o que sentia! Confesso que tive um impulso. A minha terapeuta pediu para que eu escrevesse um pouco sobre mim, sobre quem eu penso que eu sou, e as coisas que ando sentindo. Desafiador, não é mesmo? Mas já que está tudo tão pesado... Talvez eu consiga aqui me aliviar um pouco. Quem eu sou? Quais são as coisas que mais odeio e que mais amo em mim? Quem eu amo? Quem eu sinto falta? Eu me amo? Espero de verdade que essa experiência seja bem terapêutica. Mas enfim, vamos lá. Eu sou a Amanda, bonito o nome, não é? Sempre gostei, acho que ele tem um toque suave, e ao mesmo tão forte, que me causa certo prazer em pronunciá-lo. Nasci em Janaúba, cidadezinha ao norte de Minas, que faz um calor terrível. Nunca gostei de lá, e quem me dera se o motivo fosse apenas o calor... Aquela cidade me depenou. Não sei se ela é realmente terrível. Talvez seja somente para mim. Eu cresci em uma casa grande, em que morava eu, a minha irmã, minha mãe, meu pai e uma rotatividade de cachorros (já tivemos 5 simultaneamente). Confesso não gostar de casas grandes, porque elas transmitem uma sensação de que há muito espaço pra pouca gente, e essas pessoas tendem a ficar distantes... Mas não era tão o caso. Nem sei ao certo porque mencionei isso. Mas continuemos. Meu pai é caminhoneiro, então raramente ficava em casa. Sinceramente, não sei ao certo se sentia tanta falta dele... Cresci com ele tão distante que nem sei, mas eu tinha uma certeza, eu era a filha favorita dele. Lembro-me de quando ele carregava balas no bolso e me entregava, mas por algum motivo, não entregava pra minha irmã. Hoje em dia eu me culpo por isso. Se eu sinto rejeição, ela sente muito mais. Ele me carregava pros bares, pra roça, e se orgulhava muito pela forma como eu nadava. Exibia-me para todos os amigos e parentes, porque eu era um peixinho... e sempre tive tanta conexão com a água. Ele me deu um violão, comecei a fazer aulas e me encontrei na música, não pelo violão, mas pela minha voz que o acompanhava... Cantar é algo tão bom, e sempre foi pra mim. Era realmente uma pena que eu não gostasse de tocar as músicas que ele pedia. Mas enfim. Ele me ensinou a dirigir aos meus 9 ou 10 anos, em um Gurgel, mas não deu tão certo, até hoje não dirijo bem. Sempre me incomodava a forma agressiva que ele falava. Uma coisa eu tenho certeza, meu pai nunca foi bom em ensinar. Nada. Nada. Meu pai me deu amor. O problema está quando deixou de dar. No início ele até tentava... Mas eu passei a deixar de querer receber. Houve uma época em que ele ficou desempregado, teve que devolver o carro que nem tinha terminado de pagar, e isso feriu intensamento o ego dele. Então ele comprou uma moto. Começou a fazer trilha. E nessa época... Ele só chegava bêbado em casa. Eu, com 10 anos, perguntava a minha mãe inocentemente se meu pai já havia vomitado hoje. E ele só sumia... Eu não gosto quando ele bebe, inclusive, já tive fortes receios com bebida por causa das coisas que ele fazia quando estava bêbado. As brigas começaram a ser constantes, até que um dia ele tentou agredi-la. Sóbrio. Eu não estava lá. Estava do outro lado da porta. Mas não pude fazer nada. Só sentir medo. Simultaneamente, naquele momento, meus dois avós maternos estavam doentes. Minha avó com câncer, meu avô infartando. Eles moravam no Rio de Janeiro, mas devido às péssimas condições da saúde naquela cidade, foram buscar tratamento em Montes Claros, cidade vizinha de Janaúba. Se mudaram lá pra casa enquanto tudo acontecia. Eu presenciei todo aquele momento. Carreguei minha avó na cadeira de rodas. Vi aquelas costas roxas devido a alguma cirurgia que não sei qual, e meu avô com uma cicatriz no peito decorrente do ponto safena. Meu pai os mandou ir embora. Ameaçou matar o cachorro preferido da minha mãe. E o inferno estava ali, em 2011. Quando a minha mãe veio me contar sobre a ideia de divórcio, eu fiquei feliz por ela, pela minha irmã, e por mim. É como se eu tivesse figurado uma imagem de monstro e esquecido de tudo que meu pai foi pra mim. Mas ele foi importante. Ele só se esqueceu... Passei uma adolescência conturbada, e não deveria ser. Sempre fui exemplar na escola, obediente, não bebia, não fumava. Eu não sei o motivo dele não ter reconhecido essas coisas mim. Talvez ele tivesse se sentido rejeitado também. Mas nada, nada que eu fazia, era suficiente. Frequentar a casa do meu pai não era prazeroso, por mais que ele comprasse sorvete, iogurte, ou sei lá, um tanto de coisa que eu gostava. Qualquer forma de tentativa de agrado era degradada quando ele insistia em ofender a minha mãe, que sempre foi tão importante pra mim. Todas as formas de tentativa de demonstração de afeto falhavam, quando ele ofendia o próximo na rua, ou destratava o atendente de uma loja qualquer. A grosseria dele só me afastava, e eu não conseguia admirá-lo. Meu pai não comparecia nas minhas apresentações de escola. Não queria saber das minhas notas. Não queria saber como o meu psicológico estava porque depressão é coisa de gente que não apanha. Meu pai me julgava porque eu namorava, e me reduzia à somente isso, um pedaço de carne que outro estava comendo. Ele não percebia o quanto eu era comunicativa, educada, ou sei lá qualquer outra qualidade que eu tenha. Mas enfim. Ele não notava. Acho que ele focava tanto na posse de TER uma filha, que esquecia da parte de SER um pai. Nossas brigas foram incontáveis. E até hoje é assim. Eu sinto que sou uma decepção, sabe? Me tornei aquilo que ele não esperava, que ele não queria. E eu sinto muito, mas essa sou eu. Mas calma, quem sou eu? Por que é tão difícil responder essa pergunta? Eu posso dizer aqui as coisas que gosto e não gosto em mim, porque involuntariamente estarei me descrevendo, né? Vou começar pela parte mais fácil. O que eu não gosto. O significado de Amanda é "digna de ser amada". Talvez eu não me sinta digna, mas sinta a necessidade de ser amada. A minha mãe me diz que essa é uma atitude sombra, que ninguém deve exigir amor do próximo, e ela tem razão. Eu sou o tipo de pessoa que fecha a porta pro mundo berrando pra que alguém a abra... E existe ambiguidade maior que essa? O problema é que quando ninguém abre, procuro motivos... e percebo que estão todos em mim. O que eu tenho de interessante? Por que alguém tentaria abrir uma porta trancada? Acho que essa é a característica que eu mais odeio em mim. Ela me faz exigir amor, fortifica a sensação de rejeição. Eu tenho tanto medo de rejeição, que evito falar! E se eu falar algo errado? E se eu afastar alguém? E se eu ofender alguém? Estou atrapalhando? Por que estou aqui? Desculpe-me... Sou egocêntrica. Tudo é por minha culpa, como também sou a razão de tudo. Se alguém fala sobre si mesmo, eu vou ter que me esforçar muito pra não falar sobre mim, e eu odeio, odeio, ser assim. Sou emocionalmente instável, e isso decorre de um masoquismo enraizado. Eu procuro a dor, procuro motivos pra ficar triste. E é tão estranho porque eu amo ficar alegre... e qualquer coisa me desestabiliza, os pensamentos apenas chegam. O que eu gosto em mim? Eu amo a conexão que eu tenho com a natureza e seus entes. Adoro a minha capacidade e vontade de amar. Amo a minha inteligência. A forma como sou esforçada com qualquer coisa que decido fazer. Gosto do jeito que eu abraço as dores do mundo. Me faz mal emocionalmente, mas mostra que tenho a tão escassa empatia do mundo. Eu me acho uma pessoa amável, carinhosa. Quando estou feliz, pareço irradiar... E faço o máximo pra contagiar a todos que estão ao meu redor! A forma que eu desejo mudar o mundo... E o quanto isso é latente desde cedo. Acho que esse é um dos motivos pelos quais as vezes sinto-me deslocada no meu curso. Parece que só estou ali pra manter o status quo... O direito, uma área que deveria buscar a justiça, é a mais injusta. Mas estou colocando na minha cabeça que a única forma de fazer a mudança, é estando inserida no sistema. Então eu vou entrar ali. Eu preciso tentar, né? Eu tenho tanta coisa pra dar ao mundo... mas é tudo tão contingencial, que não depende só de mim. O tal do efeito borboleta nunca fez tanto sentido, mas é isso, a gente não faz o que quer, a gente faz o que consegue fazer. O peso está desvaindo. Conseguirei dormir melhor. Mas não é assim. A leveza não dura. Queria que durasse. Enfim.
Amanda Pedroso



















