Legato
As paredes frias e altas da estação de metrô fazem o som reverberar em cada canto, cada tímpano, cada pedaço de tudo que me cerca. Você ainda não percebeu, mas o mundo está dançando na ponta dos meus dedos. Tudo que acontecer daqui pra frente foi graças a mim e ao meu violino.
Não tem nada de especial nesse violino. Poderia ser qualquer outro. Gosto de violinos porque eles são mais flexíveis que a maioria dos instrumentos de corda. E são as cordas que me fazem mais do que você vê.
Já ouviu falar de Teoria M? Supercordas? Multiversos? Eu sei que já. Faz dois minutos que você me olha tentando decifrar se gosta ou não dessa melodia, e nesse meio tempo eu já viajei ao primeiro dia da sua vida e voltei. Já sei quem você é, o que você fez e pra onde você vai. Aliás, fiz algumas mudança no caminho, pra você ter uma vida um pouco mais interessante.
Como? Com as cordas. Com as vibrações. Sabe, você pode desviar o olhar pra não ver. Pode tampar o nariz para escapar de um cheiro ou se recusar a provar qualquer gosto. Mas é impossível fugir do som. A vibração viaja como toque em cada partícula de qualquer coisa até alcançar você. E você ressoa junto com ela. É assim que eu faço pequenas mudanças, que ninguém, nem você, percebe.
Hoje mesmo eu já acalmei uma briga de casal que terminaria em um pedido de divórcio e um grave problema de alcoolismo. Aquela senhora loira ali subindo a escada acabou de apressar o passo para se afastar de mim, apenas o bastante pra não ser atropelada daqui a 40 minutos. Ontem, evitei um suicídio, junto com o atraso da composição das 8:30. Daqui a quatro meses, aquela família vai lembrar de levar o cachorro para passear mais vezes. Eu sei, eles não têm um cachorro. Ainda.
É estranho pensar que alguém com tanto poder quanto eu viva como um músico de rua. Mas só pra você. Pra mim, é perfeitamente natural. Os três reais que você acabou de colocar no meu chapéu são tudo que preciso para um café mais tarde. Se eu quiser mais dinheiro, é só voltar para cá e continuar a fazer o que faço.
Cinco minutos agora. Acho que me apeguei um pouco a você. Eu toco o mundo com o arco desse violino, mas não costumo me importar muito com as melodias que deixo pra trás. Elas são ondas do passado, energia dissipada e replicada em todo o resto. Já são parte de tudo. Ou nada. É só uma questão de ponto de vista.
Já expliquei por que eu gosto de violinos? Cada tipo de nota, cada comprimento de onda incita uma sensação. Os movimentos se somam em melodias que provocam sentimentos e, finalmente, ações. E os violinos não tem trastes no braço: as notas correm soltas para a vida, num fluido ininterrupto que não deixa margem para gente como você pensar muito sobre tudo isso.
Faz sete minutos e agora você está começando a entender. Eu sou o metrônomo do mundo. A melodia do todo. Mas se você tentar ler a pauta da canção, vai acabar estragando minha sinfonia. Essa música é só para os seus ouvidos e coração, não pro cérebro.
Já sei. Vou confundir esse seu espírito curioso. Vou inventar que foi você que inventou isso tudo. E na última nota, sugerir que você escreva sobre mim. Mas não muito. Só o suficiente pra tirar essa história da sua cabeça.













