Disturbia || POV || Adônis & Maeve
“... Evan, Wolfgang, e quem sabe mais? Podemos ser os únicos ainda ‘vivos’.”
A pretora andava a frente da cadeira de espaldar alto de um lado para o outro, marcando no chão os passos de mil outros pretores que passaram pelo mesmo tipo de problema. O filho de Cupido estava mais no centro, os braços firmemente presos nas laterais e as mãos de dedos entrelaçados em fúria. A pele calosa mostrava os sulcos onde os sulcos estavam bem presos. Enquanto um se torturava, o outro se concentrava nos passos ritmados e precisos. Parecia que as vozes amainavam a uma gritaria ignorável. Ou melhor, suportável, como um show de Rock em que tivessem forçando a multidão para os fundos. Uma hora as mãos cansariam e os pés clamariam por descanso, mas não agora. Não quando todo e qualquer fio de sanidade que tivesse restado dependesse disso.
“Percy Jackson e o navio voador não teriam feito mais danos. Lembrando que Leo Valdez abriu fogo contra os romanos.”
Maeve completou num tom cansado e acusatório. Seus olhos brilharam momentaneamente e o colar de pequenas lâmpadas acendeu e brilhou até ferir os olhos de Adônis. Ele levantou a mão e se protegeu, não da luz, mas dos pequenos cacos de vidro dos bulbos destruídos. Ozônio preencheu o ar, contagioso, e o ódio cresceu um pouco mais. Seus braços mal haviam se curado do negrume do primeiro uso e estavam a ponto de explodir de novo. Adônis conseguia sentir por baixo da pele o poder do pai corroendo-o por dentro. Tóxico. Quem poderia prever que tais sentidos naturais trabalhassem tão bem a favor de algo que não concordava e depreciava. Tinha vivido tempo demais no passado onde tal diferenciação não era mais importante do que o gladiador ao lado. Pessoas, sobreviventes, lutando por suas vidas e liberdade. A mandíbula travou numa expressão tensa quando as vozes voltaram a sussurrar e seduzir. A culpa é dos gregos... Dos gregos... Segurou o rosto com uma mão, repuxou os lábios para cima expondo os dentes, e a palma escorregou para cima agarrando os cabelos e os puxando em fúria.
“Adônis. Aguente firme. Aguente.”
Somente Maeve falava e andava, aproximando do semideus e o segurando pelos lábios. O rosnado que escapou por entre os dentes alheios fez um arrepio lhe subir a garganta, assustando-a. Esperem! Não a assustou de medo pelo futuro, mas a reação de seu corpo de querer participar desse sentimento. O corpo magro queria pegar a lança de dois gumes e jogá-la aos pés de Lupa, num gesto de submissão. Adônis lentamente foi se acalmando enquanto a pretora voltava a se tornar inquieta e irritadiça. Não tivera opções além de aceitar o cargo de pretora novamente. Teria sido o certo e ela não teria recusado, nem hesitado, contudo, do jeito que estava, sua força e liderança não passavam de fachada. Nenhuma ordem decente sairia dela enquanto estivesse lutando contra a maldição -- não aos olhos onipresentes da deusa lobo.
E, de repente, eles se olharam. Um vendo no outro que o momento de ruptura se aproximava. E rápido. Eles estavam cansados, exaustos de tanto lutar contra o discurso ditatorial inacabável. Cada dia, cada hora, trazia mais e mais fatos que culpavam os gregos pelo atentado a Lupa e sobre a incapacidade deles de serem um ‘acampamento’. Lembra da bagunça do chalé, Maeve? Lembra de Piper, Adônis? O estado acampamento? A desorganização? A rejeição? Existiam momentos que não sabiam diferenciar o real do imaginário, muito menos onde um argumento de defesa virava um de ataque e desprezo.
“Não consigo mais, Maeve. Não vou desistir até o último segundo, mas... não quero me perder sem...”
Os dedos estavam enrolados nos cachos quando Adônis se deu conta do que estava fazendo. Novo foco! Novo foco! Os olhos negros miraram aquela mecha comprida e perfeitamente encaracolada. Sua característica tão apreciada, tão preservada por conta da memória da irmã. Os dedos dela correndo os fios umedecidos pelo suor febril de noites em claro. Cada um dos gregos o conhecia daquela maneira e seu apreço pelos cabelos longos era conhecido pelos seus amigos. Filhos de Cupido eram charmosos, não eram? Tinha uma preocupação no visual, mesmo que essa fosse tão inconsciente quanto o ato de respirar ou piscar os olhos.
“Corte meu cabelo. Corte- Corte meus cabelos.”
Seus olhos imploravam para os igualmente escuros de pretora. Adônis tirou a adaga das costas, a mesma que tinha quase perdido a vida para obter no interior do touro de Colchis. Estendeu-a para a garota e a névoa, tão atenta a seus desejos, envolveu a arma transformando-a em algo não menos letal, mas mais eficiente. Uma tesoura dourada.
“Eles vão perceber que eu estou diferente. Vão saber que não estou normal. Eu espero que sim.”
A última frase dita com tanta esperança e ardor que Maeve não pode fazer nada além de pedir um banco e começar a trabalhar nos cabelos invejáveis do semideus. Quando tinham chegado assim tão fundo? Tão desesperados para dar um sinal de que não mais tinham controle sobre suas ações? O chão enchia de cachos negros, indecentes no piso imaculadamente limpo. O sangue que se juntaria na mãos dos dois assim que a loucura assumisse o controle escorreria e formaria poças. Ninguém deteria aqueles que simpatizavam pelo acampamento Júpiter. Duvidariam, perguntariam, pediriam para responder às perguntas que não fariam mais sentido. Por que está fazendo isso? Maeve! Adônis! Ter os amigos romanos protegidos de suas barbaridades era, ao mesmo tempo, de grande alívio e preocupante. Não se preocupariam com eles, mas seu treinamento romano causaria mais danos ao pobre acampamento grego. Adônis sentia o peso dos cachos pesarem nos ombros que se curvavam para baixo.
“Seu colar, Maeve. Está quebrado.”
Maeve riu e levantou os olhos para o teto.
“Isso não quer dizer nada, Adônis. A história do meu colar não é de conhecimento público. Ninguém sabe que eu tenho medo do escuro e ele se acende para me dar paz. Eu não tenho avisos para dar e que passem por Lupa.”
Colocar um cartaz pendurado ao redor do pescoço daria muita bandeira, no mínimo. Adônis sentiu a cabeça mais leve e a sacudiu fazendo mais fios caírem no chão. Passar as mãos pelos cabelos curtos trouxe estranheza e abandono, Aeliana se foi de seus pensamentos (assim que pisou no acampamento ficara difícil, imagina agora!). O filho de Cupido e a filha de Júpiter se contemplaram, buscando mais desses pequenos avisos para espalhar e alertar os gregos. Maeve, ao que Adônis via, não tinha muito que ser modificado fisicamente. Mulheres modernas, no geral, tinham maiores tendência de mudarem do que os homens. E ele não queria deixá-la em desvantagem. Sua atenção flutuou, as imagens da sala de conferências misturadas com gregos em posição de ataque, prontos para atacar. Até que, por um golpe de sorte, Adônis pegou um reflexo dourada no canto do olho.
“Aurum e Argentum.”
Mais alívio. Mais possibilidades. Se não dava para vencer o plano de Lupa, o melhor seria contornar. Maeve ruminou a ideia por uns instantes antes de convocar os cães metálicos. Instruções foram trocadas, detalhes foram revisados e palavras de segurança escolhidas, assim como a pessoa certa para validar e destituir o plano perfeito.
“Fizemos tudo o que podíamos.”
Pelos deuses olimpianos, que tenha sido suficiente.









