Cassius congelou por meio segundo. Foi quase imperceptível, um atraso mínimo entre o pensamento e o corpo, mas, para alguém treinado a reagir instantaneamente, aquilo dizia tudo. O nome ecoou na mente dele com um peso que não vinha de som, vinha de história. Baco. O ar pareceu mais denso de novo, mas dessa vez não por poder algum. Não se tratava de um semideus confuso. Nem de um mortal fora do lugar. Simplesmente... um deus romano. O filho de Júpiter sentiu o mundo sair levemente do eixo. Não demonstrou de imediato, mas o olhar claro endureceu, atento demais, como se precisasse confirmar que aquilo não era uma armadilha grotesca da Ilha. — …Baco. — Repetiu, baixo, quase com cuidado. O respeito veio antes da razão. Sempre vinha. Não em reverência cega, mas naquele reconhecimento silencioso de hierarquia antiga, enraizada no sangue romano. Cass inclinou levemente a cabeça, não uma reverência formal, mas o suficiente para marcar diferença entre eles. Então tudo o mais caiu como um golpe atrasado. Zeus. Hermes. Agora Baco. Os deuses estavam caindo. E se eles estavam caindo um por um… ninguém estava realmente a salvo. Cassius engoliu em seco, segurando o impulso quase físico de perguntar por Júpiter. Onde estava. Se estava bem. Se ainda estava… inteiro. O nome do pai queimou na língua, mas ele o empurrou de volta para o fundo do peito. Não agora. Não aqui. Não enquanto o próprio deus à sua frente mal conseguia se manter em pé. — Você não tá sonhando. — Disse, firme, mas com uma calma quase cuidadosa. — E não tá num hospício. Isso… — Fez um gesto amplo, englobando o caos, os monstros, os gritos ao longe — …É real. Infelizmente. — Aproximou-se um pouco mais, postura aberta, protetora quase sem perceber. O modo como Baco segurava a cabeça, a confusão sincera, a dor que vinha sempre que tentava puxar memória demais, tudo aquilo não era atuação. Cass já tinha visto choque suficiente para reconhecer o verdadeiro. Quando Baco pediu ajuda, algo se reordenou dentro de Cassius. Missão. Prioridade. Proteção. — Sair da ilha não é possível. — Respondeu, direto, sem adoçar. — Ninguém sai. Nem eu. Nem você. Nem… ninguém. — Mas não havia crueldade na voz. Apenas verdade. — O que eu posso fazer — Acrescentou, já se movendo — é te tirar do meio desse inferno agora. — Ele avaliou rapidamente o entorno, calculando rotas, sombras, riscos. — A enfermaria é o lugar mais seguro que temos. — Disse. — Curandeiros, proteção improvisada, menos monstros. Dá pra te esconder lá até o amanhecer. — Olhou de novo para Baco, sério. — De manhã, a gente vê o que dá pra fazer. Avaliar sua cabeça, entender melhor o que foi arrancado de você… — A mandíbula travou — …e o que ainda tá aí. — Cass se posicionou levemente à frente dele, instintivamente assumindo o papel de escudo. — Fica perto de mim. — Orientou, mostrando o caminho. — Não corre independente do que acontecer no caminho. Só me segue. Consegue fazer isso?