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@girl-lies
“Tudo o que nos faz feliz ou infeliz serve para montar o quebra-cabeça da nossa vida, um quebra-cabeça de cem mil peças… Não há nenhuma peça que não se encaixe. Todas são aproveitáveis. Como são muitas, você pode esquecer de algumas, e a isso chamamos de “passou”. Não passou. Está lá dentro, meio perdida, mas quando você menos esperar, ela será necessária para você completar o jogo e se enxergar por inteiro.”
— Martha Medeiros.
Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos a flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra. Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora. Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda. Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima. Você é aquilo que reivindica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia. Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.
Martha Medeiros.
Mas não te procuro mais, nem corro atrás. Deixo-te livre para sentir minha falta, se é que faço falta… Tens meu número, na verdade, meu coração, então se sentir vontade de falar comigo ou me ver, me procura você.
Caio Fernando Abreu.
Fiquei tão só, aos poucos. Fui afastando essas gentes assim menores, e não ficaram muitas outras. Às vezes, nos fins de semana principalmente, tiro o fone do gancho e escuto, para ver se não foi cortado. Não foi.
Caio Fernando Abreu.
Eu sabia que terminaríamos,
eu sabia que era uma viagem sem destino, sabia desde o início e não sabia, não sabia que doeria tanto, que era tanto, que era muito mais do que se pode saber, ninguém pode saber um amor, entender um amor, tanto que terminou sem muito discurso, foi uma noite em que você quase pediu, me deixe. Ora, pra que me enganar: você realmente pediu, sem pronunciar palavra, você vinha pedindo, me deixe, olhe o jeito que te trato, repare em como não te quero mais, me deixe, e eu, de repente, naquela noite que poderia ter sido amena, me vi desistindo de um jantar e de nós dois em menos de dez minutos, a decisão mais rápida da minha vida, e a mais longa, começou a ser amadurecida desde o dia em que falei com você pela primeira vez, desde uma tarde em que ainda nem tínhamos iniciado nada e eu já amadurecia o fim, e assim foi durante os dois anos em que estivemos tão juntos e tão separados, eu em constante estado de paixão e luto, me preparando para o amor e a dor ao mesmo tempo, achando que isso era maturidade.
Martha Medeiros, in “Fora de mim”
Viciados em companhia
Não confio no amor de quem não consegue ficar sozinho.
Nunca foi ao cinema sozinho, nunca viajou sozinho, perambula pela rua feito um cão que se perdeu do dono. Sentar na lanchonete de uma livraria para tomar um cafezinho assemelha-se a uma catástrofe. Sua solidão lhe parece vergonhosa e indigesta, é evitada com o mesmo afinco com que evitaria a morte.
Para ele, qualquer parceria é melhor que nenhuma. Uma conversa enfadonha é melhor que o silêncio. Um chato é melhor que ninguém. É praticamente um viciado em companhia. E, como todo viciado, critério não é o seu forte. Não confio no amor de quem não se suporta. De quem telefona a fim de papo furado, de quem envia mensagens só para ouvir o sinal da chegada da resposta, de quem precisa se iludir de que não está só. Quem de nós não está só? Uma manhã de frente para o mar, uma tarde com um livro, uma noite com um filme, três dias inteiros numa cidade estranha, uma rua que nunca foi atravessada, um museu com tempo livre à vontade, uma cama vazia – para ele, simulacros do inferno. Não confio no amor de quem não se entretém. De quem se desespera em frente ao espelho, de quem não consegue se maravilhar num jardim, de quem não viaja ao ouvir uma música, de quem não gosta de andar de ônibus enquanto aprecia a paisagem pela janela, de quem não se sente inteiro num trem. Sozinho é uma coisa, solitário é outra. Sozinho é com, solitário é sem. Eu sozinha sou muitas. Sozinha, tem mais sabor minha comida, tem mais foco o meu olhar, tem mais profundezas o meu ser. Sozinha tem mais espaço minha liberdade, tem mais imaginação a minha fantasia, tem mais beleza a minha individualidade. Sozinha tem mais força o meu pensamento, mais inteireza a minha vontade. Não confio no amor de quem negocia sua autenticidade. Como amar de verdade outro alguém, se não sabe de onde esse amor vem? Onde foi gerado, por que é necessário, que atributos ele contém? Amar é doar, não vem do doer. Amar é saber que aquele que a gente ama, se faltar, vai deixar saudade, mas não nos transformará num cadáver a vagar. Não confio em quem ama para ser um par, não confio em quem quer apenas se enquadrar, não confio em quem ama por não se tolerar. Amar tem que ser extraordinário. Além do que já se tem. Se sozinho você não se tem, amar vira tubo de oxigênio, ânsia, invenção e enredo barato, perde a dignidade, o amor vira muleta e trucagem. Confio no amor de quem não precisa amar por sobrevivência, de quem se basta e mesmo assim é impelido a se dar, porque dar-se é excelência, não é mendicância. Não confio no amor de quem não se ama em primeira instância.
Para a Revista Donna, Martha Medeiros.
eu estarei sozinho de novo, e serei eu mesmo novamente.
Bukowski
“Pra dizer que teu amor foi daqueles que me roubou a pele, a vergonha, as vértebras, as têmperas, os búzios, os deuses, as falas, os gestos, os tempos, as vidas. Pra dizer que eu te amei demais muito mais do que supus, e que quis muito que tudo ficasse bem entre nós, mas que não foi bem assim. Dizer também que queria poder escrever mais, porém sinto atrofia e preguiça de relatar, novamente, como eu te quis, como eu me dei e como você poderia ter reagido a isso. Como tentei te salvar e por tentar te salvar, acabei me perdendo entre tantas guias e tantas ausências que nem eu sabia como suprir. Dizer que eu ainda te amo, que enquanto nada acontece, nada se resolve e você não fala, eu continuo aqui, esperando que tudo se ajeite, que você venha me roubar pela última vez e me levar daqui. Dizer que sinto uma ausência quando nós conversamos mas que você não se importa muito, e nunca se importou, se era ausência ou presença. Mas que eu te amei assim mesmo, ligando desesperado para sua mãe para ela me dizer algo de você, algo que acalmasse meu coração bravio, algo que me desse esperança de que você não havia se jogado de uma ponte como prometera. Pra dizer que eu escuto seu nome ao longe e choro de aflição e me escondo atrás dos escombros que jogaram em cima de mim. E que estou mais triste mais intenso e mais feliz. Mas que também choro pelas pessoas que perderam seus braços no vietnã e pelos textos que perdi quando roubaram-me de mim. Uma solidão que me roubou, uma agonia que tirou-me de mim, açoitou meus dramas e me fez viver com a ferida exposta. Pra dizer que súplico pelo seu calor entretanto não quero morrer dele, e que quero que entendas as minhas manias de fuga também. Por que não lhe disse que também sei fugir? Que também possuo pés capazes de voar? E que também tenho medo e por isso posso querer morar em outro esconderijo, que não você? Pra dizer que eu te amo eu te amo eu te amo, tanto que não posso mensurar, e é até pecado escrever, porque podem roubá-lo de mim. Pra dizer que teu corpo é como um oceano que margeia uma ilha deserta e que seus lábios são coxas de anjos que viraram poemas em algum lugar da terra. Pra falar que sinto uma inenarrável vontade de voltar no começo, no princípio, naquilo que foi de uma paz imensa, naquilo que causou um espantamento, no que foi mais do que amor. Aonde foi mais do que amor. Incomparável amor. Dedução ilógica de um sofrimento que não planejo mas que vem e sopra tudo e todos em cima da minha ferida - aberta, chamada seu nome.”
— Floresinexatas.
“Algo está muito, muito errado comigo. Como se houvesse algo obscuro em mim que, às vezes, é insuportável e eu não sei de onde vem.”
— Riverdale.