- ̗̀ YOU BETTER WORK BITCH; BY GLENDA FLETCHER & ORION GARNETT ̖́-
Arrumar um emprego fora uma necessidade para Orion depois da formatura. Talvez até um pouco antes disso, já que a necessidade de se auto-sustentar veio junto com o natal de 2024, quando fora expulso de casa pela avó. Ele, entretanto, sobreviveu com a ajuda de Hogwarts e com o dinheiro que ele conseguiu vendendo um trecho ou dois dos cadernos de seu pai para uma revista especializada em magizoologia. Chegou a considerar a ideia de vender todos os escritos de seu pai, porém não conseguiu se convencer a prosseguir. Ainda era algo pessoal demais, sua única conexão com o homem que nem chegara a conhecer, com o qual apenas compartilha o DNA e o sobrenome. Os diários eram sua única forma de conhecê-lo, afinal. Depois de todas as incertezas que passara nos últimos meses, ele precisava ao menos daquele conforto.
Depois que o problema de sua moradia fora resolvido no dia que se mudara para o apartamento com Louis, Orion começou a procurar empregos. Estava disposto a fazer qualquer coisa, na verdade. Mas, talvez pela primeira vez em anos, a sorte lhe sorriu e a papelaria estava em busca de novos funcionários. Orion podia não ser a pessoa mais inteligente que conhecia, porém era organizado e descobriu que tinha uma desenvoltura natural para atender as pessoas. No começo fora bem difícil de acostumar com a rotina de trabalhar e estudar, ainda mais quando sentia-se mal por não fazer companhia para Louis tanto quanto gostaria naquela fase difícil. Mas era um ótimo emprego para o ex-grifano. Estava em uma livraria, afinal. Não tinha a mesma variedade de livros que a biblioteca dos castelos, porém ainda era um acervo de grande interesse para o garoto, quando tinha tempo para ler durante o expediente.
O trabalho ficava ainda mais fácil pela companhia. Apesar de ter certeza de já tê-la visto pelos corredores de Hogwarts, Orion só conversou pela primeira vez com Glenda por causa do trabalho. Ainda assim, superando as expectativas de Orion, eles se deram bem instantaneamente. Francamente, o Garnett não entendia como aquela amizade surgira tão rápido, porém não passava muito tempo pensando nisso. Já estava feliz por ter uma relação tão boa com a colega de trabalho, principalmente por terem tanto em comum e o tempo passar mais rápido quando trabalhavam juntos. Entre cantorias, conversas e risadas que apenas se interrompiam para atender aos clientes ou quando o chefe visitava a loja, as horas passavam mais rápido.
Era sexta feira e a loja já havia fechado para que os dois fizessem o estoque e a contabilidade da semana. Por isso, Orion não disfarçou a risada com o comentário de Glenda. Também usava magia para fazer sua tarefa, ativando a pena de cálculos automáticos para contabilizar as vendas do dia, então não precisou se preocupar muito ao se virar para respondê-la. “Isso se chama faculdade, mas bem que podia ser nomeada de hospício porque o público seria o mesmo” assentiu para reforçar suas palavras, mas seu tom era tao divertido quanto seu sorriso. “Você fala como se sua vida fosse deprimente e parada. Nem tente que eu não acredito mais nisso, aposto que vai é festejar bastante nesse final de semana.” retrucou, levantando uma das sobrancelhas sugestivamente antes de finalmente respondê-la. “Por enquanto meus planos são passar o fim de semana inteiro trancado em casa com meu namorado e os gatos, mas isso se deve ao fato de eu já estar com saudades deles depois de um dia todo fora de casa então os planos podem mudar para algo mais agitado.” respondeu sem parar para pensar no quanto soaria meloso e deu de ombros, voltando a olhar para o que fazia. “Quais são seus planos?”
Pode não parecer... —— porque sempre foi a maior porra louca que vocês respeitam e provavelmente seu corpo entraria em combustão caso resolvesse pôr seus pezinhos delicados em uma igreja protestante outra vez, segundo os religiosos mais fervorosos como Renée e Doyle que acreditavam ter perdido a alma da filha pro tinhoso —— Glenda Fletcher sempre foi religiosa. Muito mesmo. Até depois que caiu em Hogwarts de mala e cuia, ela aproveitava o silêncio do dormitório depois que suas colegas de quarto dormiam para fazer suas orações, agradecimentos e, claro, pedidos a Deus. Nunca concordou muito com a igreja que frequentou em sua infância enquanto instituição, mas sua religiosidade está e sempre estará on point. E ali está Orion com seu sorriso bonito, como uma figura autêntica de anjo da guarda™. Pra entender melhor essa visão que Glenda Fletcher tem de Orion Garnett é preciso do famoso recap. Previously on Keeping Up With Glenda Fletcher (todos os direitos reservados).
Primeiro, imagine um show de marionetes. Na verdade, imagine um único boneco amarrado a cordas transparentes. Essas cordas são manipuladas por pessoas, terceiros que consequentemente controlam o boneco. São essas pessoas que ditam o que o boneco irá fazer, como irá se portar, quais palavras serão ditas por ele. Elas instauram toda uma base hierárquica (e desgraçada) de controle. Glenda Fletcher, em toda a sua inocência e atestado de trouxa, já foi esse boneco. Os manipuladores das cordas, vamos chamar eles assim, eram Renée e Doyle Fletcher, seus pais. Que por terem planejado seu nascimento com todo o cuidado do mundo, achavam que podiam planejar cada momento de sua vida. Eles não esperavam, no entanto, que Glenda fosse divergente. Batesse o pé quando eles imploravam pra que ela calasse a boca e ficasse quieta. Questionava coisas que pros Fletcher não eram pra serem questionadas, pelo amor de Deus. É assim porque sim. Uma resposta padrão para as filosofias de Glenda Fletcher, que não era boba nem nada pra aceitar tudo que era imposto. Glenda Fletcher cortou as cordas idiotas e foi conhecer o mundo. O universo muito sacana amarrou as cordas transparentes de novo no momento em que resolveu envolver Renée Fletcher em um acidente que a colocou em coma. Orion e Gaspar Ollivander eram as únicas pessoas que sabiam disso. Porque ela não gostava que as pessoas sentissem pena. Ollivander é seu alívio cômico, Garnett o emocional. Ele também tinha uma história complicada, como a dela. Ele é o seu porto-seguro aqui em meio a tanta desgraça. Por isso faz referência a um anjo da guarda.
Devolve a varinha para sua bota, assim que os livros terminam de se organizar na prateleira e ela tem a contagem dos exemplares anotada em um pergaminho. Fazia as considerações sobre o que mais tinha que fazer. Longe dela querer evitar responder o comentário de Orion Garnett. Certo, talvez fosse um pouco disso sim, mas era involuntário e inconsciente. Jura que não é de propósito. Por mais que quisesse ver gente, divertir-se, mexer seu corpo e ser rebolativa à música alta. Não era o que iria acontecer. Porque ao contrário do que Orion insinuava, sua vida está sim deprimente e parada. “Vou ficar no hospital com minha mãe hoje... todos nós temos que fazer um sacrificiozinho aqui e ali, certo?”, deu de ombros. Porque era besta e tentava esconder o quanto sofria com aquilo. Está brigada com sua mãe. Desde sempre. E agora está no limbo. Sentindo-se culpada por nunca ter conversado com ela sobre isso. Por nunca ter perdoado ou pedido perdão. “Se animar, amanhã podemos fazer qualquer coisa. Eu, você, seu namorado e o gato...” riu, com bom humor, cultivando aquela invejinha branca do relacionamento de Orion e Louis (era esse mesmo o nome do namorado certo? Certo). “no domingo vou cantar em um Jazz Pub em Londres, esses bicos que a pobreza obriga a fazer... mas vai ser bacana. Espero.”