O Ciclo sem fim
Minha vida é
como a de qualquer trem
mas trilho a pé
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@ha-usencia
O Ciclo sem fim
Minha vida é
como a de qualquer trem
mas trilho a pé
Ainda me guarda
a vida
muitas surpresas
Ou já deveria eu
saber que
algumas felicidades
vêm repletas de tristezas?
Ao meu fiasco de cada dia
A dor não reside no passado. Não me dói mais pensar que certas crianças me odiavam, me chamavam de “mimado” e “menininha”. Já não me preocupo mais com as horas intermináveis de meu ensino fundamental ou com aquele ano horrível em que tive que vivenciar semelhantes humilhações do passado, ou com as pessoas que me fizeram sentir mal, frustrado e triste. Já não sinto mais tantas saudades de meu ensino médio, em que inclusive passei por situações semelhantes, mas ao lado de amizades. Do passado o presente. Bons amigos que tenho apreço até hoje. Mas me parece que o que realmente dói, é que aos poucos me foi roubado o futuro, me foi roubada a confiança, o carisma e a capacidade de acreditar. Hoje formado e pior, conformado, encontro-me entre paradigmas, me sinto frustrado, envergonhado e descrente. Aquela chama de esperança é agora faísca. A minha volta por cima foi muito má arquitetada, me sinto o rei do fracasso. Minhas forças não são minhas e elas me foram tiradas. Aos poucos morro junto aos meus desejos e às minhas vergonhas. Me sinto sob o eterno julgo do olhar alheio que estará sempre ao lado para me criticar, me tirar o espírito, me mostrar o quão poeira cósmica sou. E cá estou eu, no fim do dia sem capacidade para dormir. Meu cérebro ainda não conformou com todo esse desastre, mas meu corpo está desgastado, preciso estar acordado para tentar fazer algo produtivo, mas devo acordar cedo para que o próximo dia também o seja. Afinal o que o mundo quer de mim? O que quero de mim? Há algo meu para o mundo? Dizem que o sol brilha para todos, mas para isso ainda preciso de coragem para sair do quarto. Coragem para descobrir para que sirvo. Coragem para ver se me encaixo.
Aos meus eus
Já disse Aristóteles, somos animal “social”. Porém eu digo, é mais do que somos, é pior! É o que estamos fadados a ser. Fadados a não sermos ilhas, a não sermos independentes, fadados a fragilidade existencial. Frágeis como cristais, mas não qualquer cristal, somos o contrário de transparente, somos ora turvos, ora completamente escuros. Mas não se engane, isso ainda não representa a nossa animalidade, por isso somos também como o mito de narciso, homem que ao olhar seu reflexo no lago, se apaixona por si, e morre afogado.
Veja então a ironia da vida: vidro escuro reflete.
Eis que jogo em você aqui o paradoxo de muitas relações sociais, quiça de todas elas, o fato é que não vemos nos outros seu ser, mas impomos nele nosso querer, desejamos seu poder, as vezes até seu saber, procuramos no outro o reflexo daquilo que somos ou gostaríamos de ser. Não é atoa que posto isso em busca de autossatisfação para meu ego, afinal sou um animal social e não posso me sentir único, do contrário guardaria-o para mim somente. Em fato, autenticidade gera apenas uma coisa em um mundo extremamente narcísico: solidão. E ainda posso afirmar com toda a certeza, não somos transparentes nem conosco mesmo.
A vida é, meu caro amigo, um simulacro, uma grande mistura de ilusões e fantasias que no menor sinal de verdade, transparência, vem o desconforto, a desilusão, a solidão e o sofrimento. O que nos resta, animais sociais, é brincar com a peça, apresentar bem os papeis. Por isso já peço, por todos meus eus vistos pelos seus, minhas desculpas. Ainda não estou preparado para o teatro da vida, não me acho o centro do universo, nem interessante, nem bonito, raramente quero me compartilhar com os outros, ainda não soube discernir o que querem de mim. Dessa maneira, reconheço minha turvidão frágil, mas confesso, queria ser mais escuro, viver de exterioridades, já que minha empatia e sinceridade não servem bem a sociedade, ela cujo deleito reside na exploração dos mais humildes e na falsa caridade. Aos meus eus, enfim, que se multipliquem e tenham vida longa. “Me” representem bem, pois quero torná-los mais nítidos e me esconder.
- ha-usencia
Um pouco
Eterna derrota, vexame em viver, cansado sem ter feito nada. Descrédulo. Ignorante. Muito de pouco. Reflexo do desgosto, abrigado no sem sentido. Desesperado. Dramático. Ausente no presente, desconexo. Desiludido, preso, acorrentado ao chão em correntes de chumbo. Não me prepararam para a realidade. Sou ninguém e todos saberiam disso se soubessem de mim, de si. Exausto? Com sono e insônia! Complexo aqui, complexo de medo e insegurança. Incoerente muitas vezes, inclusive com minhas ânsias por lágrimas que não tenho o direito de derrubar, mas talvez o dever. Queria um pouco, um pouco de resolução para essa bagunça toda que sou enquanto vivo. Se vivo.
Não é bipolaridade, é apenas um profundo amor a paradóxos.
ha-usencia
Na costa eu pensava, há mar, é tudo. Mas a vida é um oceano atravessado a nado
De suas tristezas faço lagrimas
Das minhas faço versos.
Versos
Como é belo o céu quando chove
a atmosfera esvazia-se de peso
quisera eu a vida fosse assim
eu atmosfera
palavras a chuva
Finitude
É fato conhecido
Entre remendas e costuras
a vida é de gasturas
como pedaço de tecido
um retalho de amarguras
sofrimentos e agulhas
que no fim apodrecido
sem linha para curas
eis a maior das loucuras
Perceber-se falecido.
“Você merece coisa melhor”
Por favor, amor
EU JURO
não quero essa dor
eu posso piorar
O incapaz
É engraçada a vida. Por várias vezes, enquanto calado, me faço de auto-suficiente, se preciso for até mesmo de prepotente, tento esconder a todo preço este ego que precisa insistentemente se suporte alheio para pôr-se de pé. É desesperador deparar com sua impotência e incapacidade junto à descrença para com futuro. É provável que toda essa minha preguiça seja uma máscara para esse meu eu fracassado, afinal quem nada faz, nada erra. Bem ao menos é a intenção. Até porque minha auto-crítica, superego ou como quiser chamar, sempre me impele uma auto visão de fracassos consecutivos. Esperava veemente saber o que fazer neste ponto da minha vida, mas o fato é que me encontro terrivelmente perdido. Me sinto um bote em mar aberto, a deriva, sem saber em qual tempestade irei me afogar. E como minha vida, este é apenas mais um texto sem propósito, incoerente, talvez desconexo, mas tenho que voltar pro bote, até porquê, apesar de tudo a esperança de encontrar terra firme é o que pode me ressucitar.
Miojo
Sempretentadopelafacilidadedascoisas
queria,eu,umamoremtrêsminutos
chagaminhaconseguirfazê-lo.
Coisas instantâneas não fazem bem ao coração.
Revenge
Quis “amizade”?
Ou “festa”?
Pra mim não interessava mais.
Roubei a cena na sua festa
fiz amizade com seus colegas
vi aquele seu olhar de “esperança” e por isso
mais uma vez beijei várias meninas na sua frente.
dormi e comi na sua casa.
Mal proferi-te uma palavra,
e agora, “nossa” melhor amiga, logo será só minha.
Mas, ainda assim, te invejo de certo modo.
Está cada dia mais solitário, mas sem sofrer por isso.
E como escolhi excluir-te da minha vida
ignorá-lo.
esquecê-lo.
Não poderei saborear sua dor ao despertar.
Por este motivo desejo-te felicidades! Desde que nunca mais me procures.
Nem para amizade, nem para festas.
Natimorto
E ainda nas entranhas destruído
O que um dia chamei de bonito
Nada mais é que fruto escondido
Do Monstro em baixo da cama
Mas lhe adianto que está morto
o coração de criança que ama
Porém não queira me puxar pela perna
Pois os adultos, ódio e rancor
dormem ao lado
e podem escutar meus gritos.
Amizade em Preto e Branco
Não era pra doer assim
clamo por solidão
afinal ninguém entende lágrimas
e entre silêncios e soluços
suportar essa tempestade cinza
que destrói meu coração florido.