Com o passar dos anos, percebemos que, pouco a pouco, o jardim terrestre passa a ficar menos florido que o jardim celestial.
Que vontade maluca de semear estrelas.
— J.N.
Mike Driver
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@jaquenavegantes
Com o passar dos anos, percebemos que, pouco a pouco, o jardim terrestre passa a ficar menos florido que o jardim celestial.
Que vontade maluca de semear estrelas.
— J.N.
O amor, quando fomentado, parece adotar forma sólida. Ele não se remodela, não flui por outros caminhos e nem preenche outro receptáculo.
Perder quem se ama é condenar o coração a viver represado. É viver o constante paradoxo de amar, sem poder amar.
— J.N.
Sou uma desgarrada.
Nasci atrasada e sem querer tomar o primeiro fôlego, mas a maresia em sua pressa, me preencheu os pulmões.
Nasci para os pés na areia e para os banhos salgados e, no entanto, cresci amante do horizonte tortuoso e para fazer do rarefeito o meu sustento.
Erradia, sigo pela vida, desprendendo-me.
Mudo de cidade e estado, troco de ideias e afetos, reinvento profissão, crenças e descrenças.
Enquanto corporalmente atada e definida por minha estatura, meu espírito se dimensiona em entropia.
Aceito-me assim, humanamente inadequada e essencialmente transcendente.
— J.N.
Encontraram-no entre as plantas do quintal, ainda tão tenro e já tão machucado. Era mais um abandonado à própria sorte.
Acolhido e nutrido, recuperou a cor e o ritmo, apesar de permanecer arisco. Passava o dia escondido debaixo das mobílias e chiava diante dos ímpetos afetivos, só era possível amá-lo depois do pôr do sol, quando as andorinhas já não cantam.
É na discrição da noite que se apraz um coração brutalizado.
— J.N.
Todo conto de fadas que se preze precisa de um vilão e de um herói, para que nessa relação polarizada entre a nobreza e a infâmia, o balanço do enredo se equilibre no contrapeso.
Brincamos por muito tempo nesta gangorra e no revezamento destes dois papeis. Uma hora eu me fazia heroína e você vilã, na outra você me chamava de bandida e se dizia mocinha. Mas à medida que nossos conflitos nos desafiavam, a nossa parceria nos redimia.
Hoje a gangorra está velha e desocupada, não há crianças que ainda caibam nela. Só as fotos e as lembranças murmuram a existência de uma infância encantada... Era uma vez...
— J.N.
Você diz que gosta de admirar as estrelas, então me fala, das tuas noites mais longas e das luzes que não deixaram se perder na escuridão.
Você diz que gosta da canção do vento, então me fala, das vezes que abriu as janelas do Eu e sentiu a brisa revigorar o que jazia fundamentado.
Feliz é o ser que contempla a natureza com os olhos e os ouvidos da alma, que é capaz de realizar a alquimia da matéria e colher os frutos do propósito mais humano.
– J.N.
Ao nascer, fui abençoada com 3 sobrenomes.
Por parte materna herdei Navegantes de meu avô, um homem humilde que das margens do rio Amazonas, se tornou um filósofo e um poeta. Como boa portadora de seu nome, herdei no coração o lirismo da introspecção, onde o mergulho profundo não nos deixa retornar à superfície sem que conquistemos algumas pérolas.
Por parte paterna herdei Lamberti de minha vó, uma mãe que honra suas tradições italianas e que torna a mesa de jantar um lugar sagrado. Como uma boa neta, aprendi o valor imensurável dos momentos em família e a partilhar com felicidade, ainda que o vinho seja escasso.
E por fim: Mattos, com dois “Ts”, pois um é pouco para definir o homem tinhoso, trabalhador e imensamente terno que foi o meu avô paterno. Um menino que puxava burro no interior do Serro, marcado pela pobreza e pelas perdas, se tornou um homem forte e provedor, com uma presença que ainda reverbera na memória daqueles que permanecem. Com ele aprendi que é preciso ser raiz, para ser capaz de erguer os sonhos aos céus e desfrutar das alegrias etéreas. Aprendi que o carinho mais sincero pode partir de mãos calejadas, que a beleza mora no assovio em ritmo de canção e que ser feliz é fazer sinfonia com a natureza.
– J.N.
Nesse período de isolamento social, tomei um apreço desmedido pela beleza dos abraços clandestinos e pelo amor incontingente. No mundo das pessoas perfeitas com seus martelos de bolso, é revigorante presenciar seres humanos que, em um lapso de fraternidade, atestam a existência de um coração que sangra.
– J.N.
Haverá momentos entre o raiar do sol e a hora mais dourada, em que os olhos dela correrão soltos pelo horizonte sem nada enxergar e em seus lábios repousará um silêncio profundo. Haverá momentos em que ela desejará estar com outras pessoas em outros cenários, mas não necessariamente por tédio ou desafeto.
Entenda: O coração de uma mulher que cresceu na estrada foi forjado para ouvir a canção do mundo e atender seu chamado. Quiçá essa vontade transponha a realidade humana, afinal, deve haver uma fonte divina para esse desejo de redenção para o mundo das coisas existentes.
Talvez a grande Mãe tenha gestado seu espírito no dorso de um cavalo, e assim como um cavaleiro sem sua montaria, ela vaga a procura de seu companheiro, do vento, da liberdade, incansável.
– J.N.
Não sei a idade que tenho, nem o tempo que se passou para que chegássemos até aqui. Na relatividade da vida, os ossos pesam com a gravidade das eras enquanto o coração flutua fora de órbita. Ah, que delícia de confusão temporal, poder se sentir velha e criança, no mesmo espaço-tempo!
— J.N.
Algumas paisagens não se contentam com a retina. As especiais querem atravessar as moléculas do seu corpo e desintegra-las, rompendo os limites que os separam. Há desertos que nos fazem querer ser areia...
— J.N.
Que os ombros pesem, sob o fardo da mochila dos sonhos inacabados. Que a visão escureça, para a contemplação da grande ceia dos astros celestes. Que o caminhar fatigue, sobre a beleza da estrada que não tem pressa de acabar. Que o amor, o êxtase, e o sentimento de pertencimento ao mundo das coisas simples e imperfeitas, fique e, jamais desapareça.
— J.N.
A pele é a nossa primeira roupa. E assim como escolhemos os objetos e tecidos para representar a nossa subjetividade, buscamos expor a alma nos desenhos que tatuamos no nosso corpo. A tatuagem é arte, é grito, é a marca da experiência do viver filtrada pelos nossos poros, de forma única e intransferível.
— J.N.
Nós tínhamos tudo para dar certo. Carinho, respeito, reciprocidade, afinidades e manias. Mas mesmo com todas essas vantagens ao nosso favor, há uma força dentro de mim que me incita a deixá-lo.
Como um redemoinho, essa força que me draga, que me anseia e, que me quer de volta, já não quer mais dividir a minha atenção com os seus abismos – porque as minhas próprias profundezas já estão repletas de escuridão. Já não quer ocupar os silêncios com a sua necessidade de atenção, na insegurança de me ver submersa em devaneios.
Podemos ser feitos um para o outro em grande parte das nossas características, mas assim como determinadas espécies, sobrevivemos em profundidades distintas.
Ao passo em que você prefere as águas rasas e transparentes, temente a monstros que a escuridão esconde – eu vibro com as correntes profundas e me admiro com as criaturas abissais que ali existem. Quando você reprime o medo, a dor, o ócio – eu os abraço, e faço deles meus amigos. Quando você olha para cima, para as inebriantes luzes solares – eu olho para baixo e, vejo a vida nascer a partir do breu.
Por muito tempo vivi na superfície, apaixonada pelas luzes mágicas que sua pele era capaz de refletir na minha. Mas infelizmente, o tempo passa e a gente se acostuma. Os tons murcham e se tornam monocromáticos com a ausência de sentido...
— J.N.
Antes de mais nada, pequena, sinto que preciso me redimir com você. Acho que acabei te deixando à deriva com o passar dos anos. Em minha defesa, saiba que a vida adulta é um mar de subterfúgios onde não basta ser bom marinheiro e ter estrelas como guias. É preciso muita coragem para manter o tesouro sempre aberto, ainda que muitas vezes seja sorrateiramente roubado de dentro do nosso peito. Preservar o coração infantil em um mundo de piratas, pequena, é uma lição que ninguém pode nos ensinar.
— J.N.
#homenagem #formatura #amordeirmã
Doutora! Por favor, me ajuda, estou com uma dor aqui no peito. Não é uma dor necessariamente ruim. Na verdade, é até uma dor gostosa. É um calor morno como um café em uma tarde de domingo, mas que arde com o medo irrefreável. Você viu a minha irmã por aí, doutora? Não quero me perder dela. Não quero que essa vida mais adulta e cheia de responsabilidade nos separe. Não quero perder a intimidade e a sintonia que construímos. Não quero a formalidade de consultórios e a frieza de centros cirúrgicos na forma que nos relacionamos. Quero que continue a casualidade da cama bagunçada e do brigadeiro de panela com a mesma colher. Então, promete, doutora? Me promete um espacinho debaixo do seu jaleco branco? Promete que apesar de todas as novas prioridades que surjam na sua vida desse momento em diante, vc sempre terá um lugar pra mim? Ahhhhh doutora... Se você soubesse como minha irmã me faz enxergar a vida mais cor de rosa, e como ela dá mais sabor aos meus dias... Deve ser Julianite. Só pode! Se for, doutora, não me cure não. Nunca ninguém morreu por ter uma vida mais doce.
— J.N.