Perhaps our "happily ever after" is kinda different.
Part I - Joe's POV - I will wait 'till you're ready. However long it takes.
O dia de Joe estava uma confusão sem fim. O hospital estava uma zona porque, com o Hospital de Seattle reformado, agora quase metade dos internados dali seriam transferidos para a capital. Ele havia recebido, mais cedo, um embrulho vindo do endereço da sua mãe, sem maiores explicações, e o destinatário sequer era ele. Alyssa havia ido, acompanhada de Henrique Humprey (!) no hospital para conversar com ele, e ele havia descoberto que seria, além de pai, tio. Assim, quase simultaneamente. E, como se as coisas não pudessem ficar mais loucas, ele também tinha recebido uma chamada de número desconhecido que Jarvis havia identificado como sendo de Raymond Jepsen.
Como chefe de cirurgia e da emergência e, portanto, responsável por praticamente todos os pacientes internados e/ou em coma, ele não tinha tempo, naquele momento, para parar e refletir sobre tudo o que tinha acontecido naquelas 24 horas; mas ele sabia que assim que parasse, teria que colocar as ideias bem em ordem para não enlouquecer.
Por exemplo: Alyssa grávida. De Henrique Humphrey. Ele sinceramente não fazia ideia de qual das sentenças o assustava mais. Mas o que era isso em comparação à ligação de seu pai? Ele havia passado 15 anos sem nem saber se o homem estava ou não vivo, e não fazendo questão nenhuma de procurar saber, e, de repente, uma ligação. Boom.
Ele nunca quis tanto que um plantão acabasse logo.
Joseph mal pôde acreditar quando o plantão de 48 horas finalmente havia acabado. Ele deveria estar exausto, mas não se sentia assim. E por isso, depois de tomar um banho, bater seu ponto e passar na Pinotti's Pizza, ele estava agora estacionando na frente da casa de Claire. Já era tarde, ele não havia avisado que iria, mas sabia que ela não estaria dormindo. Do jeito que ela era teimosa, era capaz de não ter ido dormir cedo apenas porque ele tinha dito para que ela o fizesse.
Para comprovar sua teoria, assim que desligou o carro, ouviu o barulho de alguma série ou filme qualquer na televisão alta da sala. Riu sozinho, chutando a sacola com a roupa branca de trabalho para o banco de trás e pegando a pizza no banco do carona. O caminho até a porta da frente não era longo, mas com a fome que ele estava, os dois minutos que ele levou para fechar o carro, equilibrar a pizza em uma das mãos enquanto a outra equilibrava o presente que tinha chegado em casa antes do plantão pareceram um século.
– Claire? – chamou abrindo a porta que agora também lia a digital dele para se abrir.
– Joseph você me ligou pelo menos duzentas vezes de ontem pra hoje, eu já disse que to bem. – ela resmungou da sala.
– Eu trouxe pizza. – ele anunciou, colocando as coisas na mesa da cozinha e ouvindo barulhos do cômodo ao lado que indicavam que ela estava se levantando.
A visão da morena usando short, meias e uma blusa comprida dele o fez sorrir. Ela usava um rabo de cavalo frouxo, e nem a blusa enorme disfarçava a barriga já bem redonda de 23 semanas. E aquilo fez com que Joe esquecesse todos os outros problemas do mundo.
– Que foi? – ela perguntou, desviando dele para ir até a pizza.
– Não ganho um beijo? – ele perguntou.
– Não. – ela respondeu, pegando uma faca e já repartindo a pizza.
– Um abraço? – ele insistiu, num tom irritante.
– Você sabe como é difícil abraçar com todo esse volume aqui? – ela perguntou, apontando para a própria barriga.
– Larga de ser chata, Claire, deixa eu abraçar meu menino. – ele disse, se levantando e já a prendendo num abraço.
– Menina. – ela disse, tentando se esquivar, mas com um sorriso estampado na voz.
– Nós não sabemos disso. – Joe ergueu o indicador e arqueou a sobrancelha, se abaixando para ficar na altura da barriga da garota. – Você vai deixar a gente saber disso amanhã? Não vai cruzar as pernas de novo, vai? – ele perguntou num tom meio manhoso levantando a blusa de Claire para colocar a mão sobre a barriga dela.
– Menina. – Claire cantarolou de boca cheia.
– Sua mãe acha que sabe das coisas. – Joe disse num tom meio debochado. – Vamos ver amanhã. Não vamos? – ele perguntou, sentindo aquele empurrão na mão que independente de quantas vezes sentisse, acharia o máximo. – Isso! High-five!
– Isso foi um chute. – Claire disse rindo.
– High-five com o pé! – Joe se corrigiu, beijando a barriga de Claire e ficando de pé novamente, roubando um selinho da morena.
O ato resultou em um tapa de Claire no braço de Joe, mas ele só conseguiu rir com aquilo. Se sentou, servindo-se de uma fatia do seu lado da pizza (até nisso eles conseguiam divergir) e observando enquanto Claire comia e, inconscientemente, acariciava a barriga com a mão livre.
Ela não sabia, mas ele era a pessoa mais insegura do mundo quando se tratava daquela gravidez. Deveria convidar Claire para se mudar para a casa dele? Fazer uma casa nova? Pedir licença do trabalho para quando o bebê nascesse? Céus, ele não fazia ideia.
Todas as vezes que tentava introduzir um dos assuntos, ou eles acabavam brigando ou… Enfim. Nunca conseguiam chegar a nenhum consenso, e ele sentia que agora, com apenas 3 meses até o parto, ele precisava fazer alguma coisa.
Ele queria fazer.
Só não sabia o que.
– O que tem na caixa? – Claire perguntou limpando as mãos na blusa e se inclinando para o embrulho de presente.
– Deixa eu adivinhar quem vai ter que lavar essa roupa depois… – Joe comentou, pegando a caixa do alcance dela.
– Ei! – ela reclamou.
– Olha. É da minha mãe. Chegou lá em casa ontem cedo. Só que tava direcionada pra você. Eu tenho certeza que não é uma bomba porque mandei Jarvis verificar. É tudo o que eu sei. – ele admitiu.
– Joseph, é um presente. Passa pra cá. – ela disse, pegando a caixa e desfazendo o laço.
Ele não conseguiu ver o que era, mas a curiosidade começou a bater quando, ao olhar dentro da caixa, Claire ficou inexpressiva. Ficou ali, pelo que pareceram longos e silenciosos minutos só olhando para dentro da caixa sem expressão alguma. E Joe não sabia se aquilo era bom ou ruim.
Respondendo sua pergunta interna, Claire mexeu na caixa e, em seguida, levantou o macacão branco e verde bebê que haviam ganhado. Tinha um ursinho na frente, e Joe achou que ficaria lindo tanto em uma menina quanto em um menino.
– Isso tem o tamanho do meu antebraço, Claire. – ele disse, o nervosismo estampado na voz.
– Eu sei. – ela respondeu, quase no mesmo tom dele.
E foi ali que, provavelmente, a ficha caiu. Em 3 meses eles teriam um bebê. Tão pequeno, inofensivo, completamente dependente deles. Um ser humano que caberia naquele macacão, filho deles.
Se entreolharam daquela forma nervosa, mas os dois com sorrisos meio incertos no rosto. Joseph pegou a peça de roupa nas mãos, sentindo o tecido fofinho e se dando conta de que, na caixa, ainda havia algo mais.
O par de sapatinhos de lã branca fizeram com que seu sorriso se alargasse, e ele colocou, assim como via fazerem na TV, os sapatinhos nos dedos brincando com eles em cima da barriga de Claire.
– Joe. Nós temos que conversar. – ela disse, por fim, fazendo-o olhar para ela com um sorriso ainda meio bobo.
– Eu sei. – ele disse, se levantando e oferecendo a mão para ela, guiando-a até a sala e se sentando, esperando que ou ela começasse ou ele tivesse coragem o suficiente para fazê-lo.
Não era mais o futuro dele ou o dela sendo decididos ali, era o futuro daquela criança.
Do filho deles.
Part II - Claire's POV - I hope it works, whatever it is
O dia de Claire fora cansativo. Na verdade, poucas coisas não eram cansativas quando você tinha uma bola de basquete no lugar da sua barriga. Ela tinha se recusado a parar de trabalhar, mas a opção se tornava tentadora a cada vez que ela entrava no escritório apertado e o cheiro do perfume da secretária adentrava suas narinas e toda a comida em seu corpo ameaçava deixar o seu estômago.
Entretanto até as ânsias constantes eram melhores do que estar ali frente a frente com Joseph tendo que decidir o que fariam dali pra frente. Aquelas conversas nunca resultavam em nada, basicamente porque ele sempre tinha que sugerir algo relacionado a casamento o que sempre tirava Claire do sério. Ela não ia se casar. Não queria se casar no geral, e muito menos com a barriga do tamanho de uma melancia, os pés inchados e a incapacidade de andar de salto. Seria tudo demasiadamente “garota-fica-grávida-sem-querer-e-vive-feliz-para-sempre” para ela.
Quer dizer, eles estavam juntos. Joseph aparecia na porta dela quase diariamente e, quando ficava preso no hospital, ligava tanto que parecia que ele realmente estava lá. Tudo isso fazia Claire sentir falta da sua liberdade, mas dela também gostava de uma maneira esquisita.
Respirou fundo, cansada do silêncio incômodo que se instalara entre eles. Nunca fora daqueles silêncios, pra ela as coisas eram rápidas e práticas, ou pelo menos costumavam ser.
– Antes que você comece, eu não vou casar com você – avisou, pra ter certeza de que aquele assunto não entraria em voga – Não comece.
Joseph revirou os olhos, como se ela fosse uma criança teimosa. O que, na verdade, ela estava sendo nos últimos cinco meses.
– Ok, isso pode ficar pra depois, mas…
– Sem depois – ela interrompeu.
– Como a senhorita quiser – ele não parecia querer brigar naquele dia, o que era bastante difícil quando se tratava da Seaworth com os hormônios a flor da pele – Mas você podia pelo menos ir pra minha casa?
A expressão de Joseph demonstrava uma espécie de suplica, como se esperasse, finalmente, acabar com o impasse em que os dois estiveram ao longo dos cinco meses daquela gravidez. Sinceramente, Claire também estava cansada daquilo, entretanto a ideia de sair do seu espaço de conforto para se mudar para a casa de um quase estranho – apesar da convivência diária ele ainda era um estranho aos olhos dela, ao menos quando se tratava de se mudar pra casa dele – não lhe era das mais atraentes. Tudo que ela sempre quisera em sua adolescência era uma casa própria, e agora tudo aquilo parecia dançar a beira de um precipício. Toda a sua liberdade, independência, individualidade eram extremamente difíceis de manter pelo outro ser humano acoplado ao seu corpo.
– Porque temos que viver juntos? – aquela pergunta já estava se tornando cansativa. E a resposta também. Claire estava começando a se sentir uma máquina velha que emperra sempre nos mesmos pontos, impedindo um processo maior de acontecer. Talvez ela quisesse continuar adiando aquela decisão – Esquece. Já sei.
Joseph pareceu aliviado por aquele par de frases. Sem dúvidas ele já estava exausto de argumentar sobre como não haviam contras naquilo. Sobre como seria melhor para criança. E como isso diminuiria o peso dos ombros da Seaworth. O que, por mais que ela relutasse em admitir, era verdade.
– E porque pra sua casa?
– Sua casa é bem menor que a minha – ele provavelmente notou que não devia ter dito aquilo no momento em que a morena lhe mandou o seu usual olhar assassino, mas não demonstrou se importar – E você realmente iria querer ver esse lugar cheio de coisas de criança e pinturas nas paredes?
Ali ele tinha um ponto. Em relação a sua casa ela era extremamente organizada, quase não tinha móveis ou decorações, era tudo resumido em um estilo minimalista que trazia paz aos seus olhos. Imaginar aquele lugar cheio de pinturas a dedo pelas paredes, brinquedos barulhentos e andadores só lhe causava mais ansêas.
– Tá. Eu posso ir pra sua casa – revirou os olhos – Mas só por uma questão de praticidade. Não encare isso como um casamento, Joseph, não é.
O homem de olhos azuis tinha um certo divertimento no olhar, como se dissesse que aquilo era sim exatamente do que um casamento se tratava, mas ele nunca chegou a verbalizar aquelas palavras e sequer Claire a repreendê-lo. No fundo ela sabia que era verdade, só não queria aceitar a ideia ainda. Na verdade, demoraria um bom tempo até que ela começasse a processar tudo aquilo como natural e não como um desvio de percurso. Era como se o outro futuro ainda estivesse esperando a porta pra quando tudo aquilo acabasse, mas a verdade era que não acabaria.
Ela não queria que acabasse.
– Como você quiser – ele ergueu os braços em sinal de rendição – Então eu posso pedir um caminhão de mudança pra semana que vêm? Mas você já pode vir quando quiser, é só pegar umas roupas e…
- Eu acho que posso aguentar uma semana.
– Porque será que eu esperava isso?
O sorriso que se abriu no rosto dele naquele momento lhe deu uma espécie ainda desconhecida de paz. Joseph parecia ter certeza sobre como ele queria aquilo, e queria ela. Ele parecia sinceramente animado e feliz com a ideia. E mais que isso, eles estavam, como sempre, se provocando. O que ainda não cansara Claire, talvez nunca fosse. É, talvez aquilo pudesse dar certo, o que quer que fosse. Tudo que a morena fez foi dar de ombros sem notar que um sorriso similar surgia no rosto dela.
– Contas divididas. Todas elas. E nada de cardápios de dieta, pelo amor de Deus, eu estou grávida.
-Nós não precisamos dividir…
– Precisamos – a voz dela não permitia discussões.
Olhou mais uma vez para a roupinha mínima que repousava na caixa, aquilo ainda lhe causava calafrios nas espinhas. Tudo o que já tivera para cuidar foram cachorros, e nenhum deles jamais seria tão frágil quando a criança que aguardava calmamente em sua barriga… Chute. Ok, não tão calmamente assim.
– Eu tenho um tempo livre esse final de semana, a gente podia comprar as coisas pro quarto dele…
– Dela.
– Você conhece alguma loja de coisas de criança? – a cabeça do homem parecia estar a mil, e a atenção dele sequer parecia estar completamente focada nela.
– Não, mas eu sei que é uma garota, então pense num nome.
Foi tudo o que ela falou antes de dar as costas para ele, se levantar e voltar para onde a pizza estava. Se ele fosse lhe trazer pizza todas as noites, Claire talvez até aceitasse a ideia de chamá-lo de “marido”. A ideia lhe fez rir, um riso que era um misto de animação e nervoso. Tudo estava caindo do precipício, inclusive ela, mas essa era a única maneira de descobrir o que estava afrente.
E pela primeira vez a morena se permitiu um pensamento levemente otimista, naquele momento ela sinceramente esperava que tudo desse certo.
Part III - Joe's POV - Everything has changed.
Morar com Claire estava sendo uma aventura e tanto. Joe estava dando o seu melhor para fazer tudo sair perfeito, e talvez esse tenha sido o motivo da maioria dos surtos da morena que, de vez em quando, decidia voltar a achar tudo aquilo um absurdo.
Mas ele adorava tudo mesmo assim. Cozinhava para ela, mesmo que isso significasse dizer que a comida era do restaurante (ela, por algum motivo, não gostava da ideia de tê-lo cozinhando); assistia aos filmes que ela escolhia e havia conseguido (com muito, muito custo) que ela tirasse sua licença no auge dos sete meses de gestação.
Agora já sabiam que era mesmo uma menina, e mesmo que o quarto lilás da casa de bonecas já estivesse devidamente decorado com todos os frufrus do mundo, Joe ainda não sabia qual seria o nome da bebê. Claire havia pedido que ele escolhesse, mas ele queria que ela tivesse tanta parte nisso quanto ele, o que não era a coisa mais fácil do mundo com a teimosia da garota.
Naquele dia, o cirurgião havia acertado suas férias. Estavam acumuladas, e juntando tudo com a licença paternidade ele tinha, pelo menos, oito meses para ficar em casa com Claire e a bebê.
– O que minhas meninas vão querer comer hoje? – Joe perguntou animado quando Claire atendeu o telefone. Ele estava entrando no carro, a caminho de casa, e tinha quase certeza de que ouviria "sushi" como resposta.
– Joe. – Claire disse, num tom meio lento. O homem franziu a testa em preocupação, e estava pronto para perguntar qual era o problema quando ela continuou: – Eu não estou me sentindo muito bem… Seria bom se você viesse direto pra casa. – ela disse e, no mesmo intante, ele deu a partida saindo do estacionamento do hospital numa velocidade que provavelmente lhe renderia uma multa.
Chegou em casa em um terço do tempo que geralmente levaria, e nem esperou que Jarvis lhe desse as boas vindas, indo direto para o quarto subindo as escadas de dois em dois degraus.
Claire estava sentada na cama de forma pensativa, mantendo uma careta de desconforto. Joe a encarou por alguns minutos recuperando o ritmo de sua respiração, e se juntou a ela na beirada da cama.
– Você me assustou. – ele disse, por fim.
– Onde você tava? Na esquina? – ela debochou.
– No hospital. – ele disse, vendo-a arquear a sobrancelha em descrença. – O que houve? – perguntou medindo a temperatura e a pulsação da garota.
– Eu estava descendo pra comer, e me veio essa sensação ruim. Como se minha pressão estivesse caindo, mas não estava. E agora eu tô com esse nó na garganta.
Joe se levantou, indo até o frigobar que mantinha no quarto e pegando uma garrafa de água, oferecendo-a para Claire. Enquanto ela bebia, ele acariciou o rosto dela vendo a cor, lentamente, voltar às suas bochechas.
– Ela tá chutando. – anunciou Claire olhando para a barriga com um meio sorriso.
– Acho que alguém tava com saudade do papai. – ele disse sorrindo e levantando a blusa da morena para acariciar o volume quase do tamanho de uma bola de basquete ali.
O primeiro toque foi como um choque. Joe tinha certeza que havia sentido uma corrente elétrica passando por ali, e então sentiu seu estômago embrulhar. Olhou para Claire pronto para dizer algo, mas ela parecia também ter sentido. E a sensação que se seguiu foi algo difícil de se descrever. Era como se ele tivesse sendo puxado para outro lugar. A visão dele ficou turva e ele conseguia sentir como se algo o estivesse puxando para trás.
As imagens começaram a aparecer numa velocidade incrivelmente alta, e mesmo assim ele conseguia compreender cada uma delas. A guerra estourando, ele voltando para casa. Seus pais sendo recrutados e ele tendo que cuidar de Alyssa. Mais tarde, seus tios sumindo e deixando Bryan e Matthew com ele. Anos de fuga até a vacina. Poderes. Yandell. Wiccas. Drakalion. Coma. Alemanha. Helena viva. SKY… Sua cabeça doía com as informações o bombardeando a cada milésimo de segundo, se apertando em um espaço na sua memória que antes estava vazio.
E então, as coisas começaram a desacelerar. Ele conseguiu sentir as mãos de Claire nas suas, e era como um daqueles sonhos onde você sabe que está sonhando e não consegue acordar por mais que tente. Algumas imagens ainda se estabilizavam, tão claras que ele não sabia como as tinha perdido. Quer dizer… Agora ele sabia.
Tudo estava mais claro agora.
Inclusive...
– Tem um papel com o seu nome agora mesmo no bolso da minha calça. Eu não sei como tudo isso vai funcionar, mas não sei… Tenho esperanças de que de alguma forma eu possa estar me ajudando a te encontrar. É muita loucura? – ouviu sua própria voz dizer, meio distorcida. – O que eu quero dizer é que não importa o que aconteça em… Menos de uma hora. Eu vou te encontrar, e vou te conquistar de novo. E de novo e de novo, se for preciso. Porque eu te amo. E não me interessa se eles vão me arrancar tudo, eles não podem tirar isso de mim. Eu te amo, Claire Seaworth.
Com isso, ele sentiu as coisas se estabilizando. Piscou os olhos várias vezes, se recuperando, e olhando para o ambiente ao seu redor. Ainda era seu quarto, em Hiddenwood. Ainda era Claire ali, grávida da filha deles. Ainda era a realidade que ele conhecia bem, mas agora ele sabia que existia outra.
Olhou para Claire, tão confusa quanto ele, e soube que o que quer que tivesse acontecido, havia acontecido com ela também.
Ficaram por alguns instantes se encarando, tentando associar as coisas, até que Joe conseguiu juntar coragem para falar. Quando estava juntando ar, porém, Claire o interrompeu.
– Não fala nada. – ela disse, num quase sussurro, e se inclinou para beijá-lo.
Ali ele não teve dúvidas: independente do universo em que estivessem, era ela.
Sempre seria ela.
– Senhor, a bebê está acordada. – a voz de Jarvis avisou, mais eficiente do que qualquer babá eletrônica.
Joe se sentou na cama, sentindo Claire se mexer e acariciando seu ombro para que ela continuasse dormindo. Foi se arrastando até o quarto ao lado, que já tocava uma música calma bem baixinho e mantinha a meia luz.
Se inclinou sobre o berço, encontrando os olhos expressivos da bebê que mordia a própria mão de forma impaciente. Quando se virou para o pai, o reflexo fez com que seus olhos, de um castanho tão límpido, refletisse um tom verde brilhante. Aquele tom que Joe só conseguia definir com uma cor: jade.
Sua Jade.
– Bom dia, filha. – Joe disse, a voz rouca de sono arranhando a garganta. Olhou para o relógio digital, que indicava três e meia da manhã. – Quem precisa dormir, não é? Com certeza não nós dois. – ofereceu suas mãos, vendo a pequena abrir os bracinhos pedindo colo.
Pegou a garotinha de um ano no colo, saindo do quarto e indo na direção da cozinha, tão automaticamente que nem precisava olhar o caminho. E mesmo que precisasse, teria que dar um jeito, porque Jade achava super interessante ficar brincando com o nariz, a boca, os olhos do pai. No momento, ela tampava os olhos dele e, em seguida, os dela, começando a rir e mostrando os quatro dentinhos brancos que para desespero do homem faziam um estrago quando a brincadeira era morder.
– O que você quer comer, filha? – ele perguntou, abrindo as portas da geladeira e olhando as opções. – Quer maçã? – perguntou, vendo ela balançar a cabeça negativamente. – Cereal? Biscoito? – perguntou, vendo-a negar com a cabeça repetidas vezes. – O que então? Pão? Bolo? – insistiu, apontando as coisas.
– Nãaaaao! – a menina brigou, empurrando a cabeça dele e vendo-o ameaçar mordê-la, o que a fez rir.
– Tá achando engraçado? Eu vou te morder, menina. – disse, mordendo a bochecha dela de leve e vendo-a rir.
– Vête! – ela pediu, se jogando para a geladeira. Se Joe não estivesse muito acostumado àquilo, não teria tido tempo de segurá-la.
– Nada disso, JJ. Sem sorvete de madrugada. – ele ralhou, pegando bolo de morango e fechando a geladeira. – Você é igualzinha sua mãe.
– Mamãe. – ela repetiu.
– Essa mesma. – ele disse, sentando a menina na cadeirinha de papinha e colocando o bolo para ela comer. – Quer ajuda? – perguntou, e, em resposta, ela pegou a colher de um jeito meio torto e começou a se servir sozinha. – Sabe, você podia conversar comigo mais vezes ao invés de só falar quando quer. – ele brincou, se sentando e observando enquanto a filha comia. – Sua mãe tá doida pra você falar uma frase inteira logo, mas eu acho que às vezes você já diz tudo sem usar as palavr… – ele ia dizer, mas ela colocou uma colher cheia de bolo na boca dele, sorrindo satisfeita. – Tipo agora. – ele disse, com a bocha cheia. – Isso foi claramente um "cala a boca, papai".
A garotinha riu, batendo palminhas e desistindo da colher, pegando o bolo com a mão.
– Sabe o que eu tava pensando, filha? Que você tá crescendo, daqui a pouco vai estar correndo por aí, e a gente não tem um quintal. E essa casa de três andares fica ruim pra você pequena. O que você acha da gente vender essa casa e fazer outra? Sua mãe me disse não mais uma vez hoje, mas ela já mora aqui, acho que não vai se importar se a gente se mudar, vai?
– Au au? – ela perguntou.
– Vamos poder ter um. – ele concordou. – Tio Ethan tá na cidade, talvez eu converse com ele sobre isso.
– Gosti. – ela disse, olhando para o bolo, e oferecendo a mão cheia para o pai, que comeu o conteúdo amassado e a tirou da cadeirinha para lavar as mãos.
– Gosti também. Só que é segredo hein. Jura de esquimó? – perguntou e, em resposta, a menina segurou o rosto dele, fazendo uma lambança, mas esfregando os narizes na promessa que ele sabia que ela não quebraria nem se pudesse.
Os dois entraram no quarto em silêncio para não acordar Claire, mas ela não estava na cama. Franzindo a testa, Joe colocou Jade no chão e foi até o banheiro, com a menininha andando na frente.
A morena estava inclinada sobre o vaso sanitário numa aparência pálida, e limpou a boca olhando para Joe com uma expressão preocupada.
– Agora eu acho que é um menino. – ele disse depois de um momento de silêncio, fazendo a garota arregalar os olhos e colocar a mão na testa, enquanto associava as coisas.
– Você acha que… – ela começou, fechando a tampa do sanitário e recebendo o abraço da filha.
Joe sorriu, com a ideia de que mesmo com a filha pequena, outro poderia estar vindo.
– Eu não sei. Mas eu acho que, se for, você não vai ter muita saída. – ele disse, num tom travesso.
– Eu não vou me casar com você. – ela disse se levantando para jogar uma água no rosto.
– Você sabe que eu não vou desistir, não sabe? – ele perguntou, segurando o cabelo dela e beijando seu pescoço.
– Dá pra acreditar que já tô aguentando isso há mais de um ano? – ela perguntou, rindo.
– Você sabe que me ama, Seaworth. Você sabe que me ama. – ele disse pegando a filha no colo e beijando a testa de Claire antes de sair do banheiro. – Esteja pronta em meia hora, nós vamos ao hospital.
Part IV - Claire's POV - After all this time, thanks for not giving up
A vida deles era o que se poderia chamar de uma verdadeira bagunça, entretanto havia um momento sagrado entre os cinco Jepsens. O jantar. Isso, é claro, quando Joseph não estava em um de seus intermináveis plantões, Claire não trazia papelada para casa, ou as crianças não iam dormir na casa de amigos, etc. Quando nenhuma das opções estava em curso, sentavam-se os cinco para um pacífico jantar. Ou pelo menos para uma tentativa disso.
Naquela noite havia mais molho de tomate fora do prato de Harley do que dentro, no sorvete de Jade e até mesmo no cabelo de Joey – era impressionante como ele sempre levava a pior quando as irmãs resolviam brigar. Aquilo, sem dúvidas, era o jantar mais pacato que eles já conseguiram. No jantar de natal do ano anterior, por exemplo, o peru acabou misteriosamente sendo explodido em meio a todos os convidados, e eles acabaram comendo pizza.
– Claire – faziam 3 semanas desde que Joey havia começado a chamar a mãe de Claire e o pai de Joseph, o que parecia incomodar apenas o Jepsen. Na verdade, talvez incomodasse a mulher se não fosse tão divertido vê-lo incomodado – Eu tenho um trabalho pra escola. Onde você e o Joseph se casaram?
Aquilo fez um silêncio se instalar na sala, quer dizer, teria feito se Jade e Harley não insistissem em continuar discutindo sobre alguma coisa – a Seaworth parara de tentar acompanhar os tópicos de briga das filhas. Sentiu o peso dos olhos brilhantes de Joseph a enviando aquele olhar usual de provocação, entretanto não se deu ao trabalho de corresponder. Ao contrário, apenas revirou os olhos e suspirou.
– Nós não nos casamos, querido – deu de ombros, sem querer começar aquela discussão de novo – Sobre que é o trabalho?
Aquelas quatro palavras foram capazes de calar Jade, que dirigiu os grandes olhos até a conversa, como se esperasse alguma coisa. Por um segundo todos encararam Claire – a exceção de Harley, que parecia se concentrar em comer o sorvete avermelhado da irmã -, mas logo pousaram em Joseph num certo tom de julgamento, como se perguntassem “Porque você nunca pediu ela em casamento?”
– Não olhem para mim – o homem ergueu as mãos em sinal de inocência – Não é como se eu nunca tivesse tentado. Eu tentei. E muito.
E então como se estivessem num debate os três encararam Claire, como que numa expectativa de uma tréplica. A morena sabia que aquela discussão não morreria se ela apenas continuasse postergando-a, no entanto também não tinha uma boa justificativa para nunca ter se casado. “Faz parte da minha política” não lhe parecia uma boa resposta a dar a crianças que sequer saíram do primário.
– Não começa – finalmente respondeu, se dirigindo diretamente a Joseph.
– Vocês deviam se casar agora – foi a vez de Jade opinar, com um sorriso no rosto, como se já planejasse toda a festa em sua mente – Eu podia ser daminha de honra e…
– Não, não, não, não, não – a menina mais nova se pronunciou, os olhos azuis faiscando com uma espécie de medo e raiva – Eu não vou fazer isso de novo.
Basicamente, a última vez que as duas foram daminhas as coisas terminaram de uma maneira meio traumática para Harley. Aparentemente ninguém tinha pensado em dizer pra uma criança que ela não devia se esconder debaixo do púlpito, na verdade Jade tentara. O que acabou numa perseguição de gato pela igreja no exato momento em que o padre dissera “Você, aceita essa mulher como…”.
– Ninguém falou de você, a gente lembra da última vez e…
– Foi culpa sua!
E assim começou mais uma das usuais batalhas entre as duas crianças.
– Ei, ei, menos. Ninguém vai se casar aqui – as palavras de Claire geraram uma certa decepção nos rostos de Joseph e Jade, e uma espécie de divertimento em Harley – E não me olhem assim. Eu não tenho mais idade para fazer isso, nem temos tempo, e casamentos são caros.
– Claire, você tem… tem… 35? – a confusão no rosto de Joey fez com que todos parassem a discussão e rissem baixo. Como os comentários dele quase sempre faziam, era como se o filho do meio estivesse sempre processando alguma informação lentamente – É 35, não?
– Sim, amor. Não 25. E casamentos não tem nenhuma utilidade.
– É, mesmo, Seaworth, então porque as pessoas se casam? – as sobrancelhas de Joseph estavam erguidas, numa usual expressão de provocação.
Claire semicerrou os olhos em um olhar assassino, ela não podia falar que casamentos eram idiotas na frente de seus filhos e traumatiza-los. Também não podia dar o braço a torcer. Resumindo, ela estava bem sem opções.
– Nós. Não. Vamos. Nos. Casar. – ralhou – Tente novamente ano que vem.
– Você fica bonita quando está irritada.
Aquele era o tipo de resposta que a deixava ainda mais irritada, porque não haviam boas respostas para ela, era simplesmente o modo mais baixo de finalizar uma discussão. Não, na verdade, o modo mais baixo de finalizar uma discussão era fazendo o que ele fez a seguir. Joseph selou os lábios com os seus, gerando um “Eww” geral das crianças que sempre a divertia.
– Então, isso – a menina apontou para os dois como uma expressão de desgosto – significa que vocês vão se casar? – a pergunta partiu de Jade que ainda tinha os grandes olhos brilhando com a ideia de ser daminha dos pais.
– Algum dia – ela deixou aquelas palavras no ar por algum segundo – E agora todo mundo pro banho. Agora.
Ninguém ousou discutir, apesar dos murmúrios e da rápida volta de Joey para entregar a folha da tarefa nas mãos da mãe, que passou os olhos rapidamente pelas palavras.
– Hm… isso não fala sobre casamento, da onde ele… – fitou Joseph com raiva – Você não mandou ele fazer isso, mandou? Usar o seu próprio filho, Joseph?
– Não, dessa vez eu não tive nada a ver com isso… – ele falou, se erguendo e começando a retirar os pratos da mesa. Eles tinham uma ótima política que dizia que Joseph cozinhava, Claire botava a mesa, ele tirava, ela lavava. Caso contrário eles comiam jantar queimado em pratos sujos – Mas… você tava falando sério? Sobre se casar comigo algum dia?
Até então ela não estava prestando plena atenção nele, não depois que ele dissera não ser o culpado pela mentira de Joey. Mas assim que a palavra “casar” deixou a boca dele, a morena observou seu rosto que exibia a mesma expressão obstinada que ela via diariamente no espelho.
– Você nunca vai desistir não é mesmo?
– Se eu bem me lembro, Claire. Se eu tivesse desistido a cada vez que você me mandou nós não estaríamos aqui, eu não teria você, nem essa casa, nem os nossos filhos – ele se aproximou e passou as mãos por sua cintura – Você desistiria disso?
A pergunta fez um sorriso aparecer no rosto da Seaworth, um daqueles sorrisos raros que ela nunca notava que estava dando, seus sorrisos sinceros. Pensando agora sobre tudo aquilo, sobre essa dimensão e a outra, sobre todas as vezes que ela falara que tudo não daria certo… qualquer um teria fugido. Mas Joseph ainda estava lá a segurando em seus braços mais de dez anos depois. Não, ela não desistiria daquilo. Aquela vida que ela sempre jurara que não funcionaria para ela, que ela sempre temera. A vida dela e de seus filhos e do amor da sua vida que a encarava naquele momento.
– Não – respondeu a única resposta plausível.
Ele maneou a cabeça em concordância, e a deu um beijo suave, que espalhou mais um daqueles arrepios por sua coluna. Pensar em tudo que eles tinham passado até agora… pensar em tudo.
– Obrigada – aquela era uma palavra que poucas vezes deixava a boca da Seaworth.
– Por que?
– Por não ter me ouvido, eu sei que sou bastante convincente – a mulher engoliu a seco, olhando para seus pés – por não ter desistido… disso. De mim. Eu não sei. Mas obrigada, Joseph.
Os braços dele a envolveram por um momento.
– Não foi por você, Seaworth. Eu te amo, eu não viveria sem você – a distanciou um pouco para fitar seus olhos – Então, não, eu nunca vou desistir de fazer você casar comigo.
– Boa sorte com isso, garotão.
– E, se você não der o braço a torcer, eu peço ajuda a Jade. E nós dois sabemos como ela sabe ser bem mais teimosa que você.
A Seaworth não discutiu com aquilo, não era necessário. Se aquela era a condição daquela vida tudo bem. Quem sabe um dia ela realmente não se casasse com ele? A opção não parecia tão terrível depois de tantos anos.
E então Joseph voltou a recolher os pratos, e Claire foi pra cozinha lavá-los. E fizeram isso na noite depois dessa, e na depois desta, e ainda na seguinte daquela. A Seaowrth não acreditava em felizes para sempre, era verdade, mas do jeito torto deles ela achava que tinham encontrado o mais próximo disso possível.











