New York, the Empire State
As melhores lembranças a gente não consegue guardar em fotos. Nem mesmo sabemos explicar quando nos perguntam. As melhores lembranças são uma grande mistura de sentimento, principalmente, com clima, com sabor, com olhar, tudo muito particular.
Quando pisei em solo americano, na primeira vez em que saí do Brasil, eu senti uma enorme vontade de fazer xixi. Uma fila imensa me esperava, cheia de outros brasileiros, de europeus, de asiáticos... Eu só queria ir ao banheiro e não via nada além da plaquinha "Restrooms" lá no final do corredor do aeroporto. Não me toquei que estava em um dos aeroportos mais importantes do mundo e que muita gente famosa já tinha passado por ali. Aliás, esse foi um pensamento que eu tive depois, durante quase toda a viagem.
Chegou a nossa vez, minha e do Lucas, de provarmos que poderíamos entrar no país de verdade, sem causar problemas. Eu sei que o Lucas fica um pouco envergonhado quando falo sobre isso, mas foi bonitinho o jeito dele. Ele quis se explicar demais e respondia antes de ser perguntado e, talvez por isso, o senhor da alfândega acabou nos dando seis meses pra ficarmos lá. SEIS meses! Vocês sabem como isso é raro? Logo depois disso eu fiquei tão aliviada que quase fiz xixi nas calças mesmo.
Nós tivemos a brilhante ideia de irmos para o hotel de trem e de metrô. Depois, andaríamos um bocado até o hotel. Brilhante por dois motivos: tava muito frio, mas muito frio mesmo e nós não sabíamos que a neve é tão escorregadia. Pegamos um trem que conecta o aeroporto a uma estação de metrô próxima a Manhattan. Até então tava tudo tranquilo, ventava pouco e o frio tava suportável. Tinha um grupo de homens bem atrás da gente falando sobre mulheres. Eram todos negros e falavam como os negros dos seriados, dos filmes e das músicas falam. Eu achei aquilo maravilhoso, mas ao mesmo tempo achei estranho. Não conseguia ver mistura naquele trem. Os negros eram negros, os brancos eram brancos e os asiáticos eram asiáticos, ponto final. Não tinha um mulato, um cafuso... os únicos morenos, como eu, eram estrangeiros, provavelmente latino-americanos. Via a neve do lado de fora do trem e tinha vontade de tocar, de pisar. Ouvia os homens conversando e tinha vontade de perguntar, de saber mais sobre eles, sobre como é a vida nos Estados Unidos, esse lugar que nunca esteve entre meus preferidos no mundo pra visitar, mas que, daquele momento em diante, me deixava fascinada. Me contive e fiquei quieta, só ouvindo as gírias muito específicas pra serem entendidas e o jeito todo nova-iorquino de falar.
Percebi logo que o povo daquela cidade não gosta de esperar. Eu adorei isso! Penei um pouco no começo porque, brasileira como sou, estava acostumada a esperar muito e, por isso, demorava pra escolher, pra decidir, pra fazer. Bastou uns dois "Next!" que, pronto, eu passei a escolher, a decidir e a fazer tudo antes de pedir, de perguntar, de interromper alguém na rua. Eu era tão feliz naquela cidade e acho que essa coisa de nada demorar, de não ter fila, de tudo ser tão prático combinava demais comigo. No caminho da estação do metrô ao hotel (dez ruas, DEZ), o vento deixou meu rosto dormente, minhas orelhas congeladas e as pontas dos dedos quase roxas. Fiquei tão furiosa com o Lucas e comigo mesma por ter esquecido as luvas que nem prestei atenção no prédio que estava bem na minha frente. Era o Empire State nos dando as boas vindas. Mas eu queria mesmo era entrar em algum lugar e colocar todas as roupas da mala pra ver se a sensação de banho gelado passava. Quando chegamos na Times Square, minha raiva era tanta que só consegui rir um pouquinho quando ouvi Tchakabum tocando em alguma loja ali perto.
O hotel era muito bonitinho e ficava em uma das ruas nas laterais dos letreiros gigantes da Times Square. Estávamos bem no centro de Manhattan, na Midtown, como eles chamam. Achamos isso o máximo e, depois de nos aquecermos um pouco, fomos andar por aí.
Meu Deus, e como andamos! Fomos sem rumo e acabamos parando bem perto da ponta sul da ilha, da Finacial District, em Lower Manhattan. Voltamos e tiramos aquelas fotos que todos tiram, a noite, com as propagandas enormes atrás da gente. Olhei pra todos os cantos e foi aí que caiu a ficha finalmente: eu tô em Nova York! Sabem quantos filmes foram gravados naquela cidade? Quantas pessoas famosas, políticos, artistas, diplomatas, personagens históricos passaram por ali? Naquele momento eu sorri feito uma criança. Pouco me importava se meio mundo já visitou aquele lugar. EU estava ali.
Destaque para o "Welcome to Times Square".
No outro dia, voltamos para o sul da ilha. Decidimos visitar a área financeira de Nova York. A Wall Street e o novo World Trade Center estavam ali. Fomos de metrô dessa vez, mas tinha tanta coisa no caminho que descemos algumas estações antes e decidimos andar até lá. A neve deixou tudo mais sério e mais pesado, mas infinitamente mais bonito. Passamos por um parque e, ao lado, vimos o tribunal de justiça, a sede do governo de Nova York, os prédios enormes. Passamos pela ponte do Brooklyn e já era noite quando finalmente conseguimos visitar o memorial dos atentados de 2001.
Para conseguirmos entrar, passamos por uma inspeção. Tivemos nossas bolsas revistadas e tivemos de tirar os cachecóis, cintos, sapatos. Passamos por vários policiais e, dentro do memorial ainda tinha mais de uma dúzia deles, espalhados, encarando a gente. Mas, que saber? Aquele foi um dos momentos mais simbólicos e importantes pra mim na viagem inteira.
O memorial e o pequeno museu estão localizados exatamente no local onde as torres ficavam e bem atrás do novo prédio do complexo World Trade Center. São dois enormes buracos, do mesmo diâmetro das torres. Na borda, estão todos os nomes das vítimas, inclusive a dos três brasileiros que trabalhavam na corretora Cantor Fitzgerald, no 105º andar da torre norte.
Em 2001, eu tinha apenas dez anos. Eu sabia que os prédios atingidos estavam cheios de pessoas, mas eu só conseguia enxergar aviões batendo nos arranha-céus. Quando li os nomes, senti um tremor que nada tinha a ver com o frio. No total, 2.749 pessoas morreram. A maioria tinha entre 27 e 40 anos. Em um dos nomes, deixaram uma rosa branca. Tive vontade de chorar.
Nomes das vítimas do atentado ao World Trade Center.
Seguimos para a Wall Street, a poucas ruas dali. Que lugar mais doido! É gente correndo de um lado para o outro e, mesmo passando das 18 horas, basicamente todas as luzes dos prédios ainda estavam acesas, acreditem, com pessoas trabalhando! Pra quem é de Brasília e tá acostumado a ver as luzes dos prédios acesas sem ninguém dentro, isso foi um choque.
Outras vezes, quando passamos por lá pra visitar a Estátua da Liberdade, vimos pessoas comendo pizza enquanto andavam e falando no celular desesperadamente. Todas, claro, com roupas super elegantes. Ainda vou descobrir como algumas mulheres conseguem andar de salto na neve.
The Trump Building é um dos prédios do milionário Donald Trump. Acreditem, o aluguel de um escritório nesse edifício na Wall Street pode chegar a mais de um milhão de obamas (dólares) por mês.
Fachada da New York Stock Exchange, a bolsa de valores de Nova York.
Os outros dias foram uma mistura de passeios pelo Central Park (o parque mais lindo do mundo), bares e restaurantes, museus, igrejas... Conhecemos tanta gente legal! O cara mais legal, entretanto, nem morava na Maçã. O Jimmy (sim, eu já falei tanto dele, mas ele é mesmo muito legal) mora no interior do estado de Nova York e adooooooora falar e eu adorei escutar tudo o que ele disse.
Quando fomos parados por um policial, daqueles gorduchinhos, com o chapeuzinho meio xerife e o andar engraçado, Jimmy ficou se desculpando e repetindo o tempo todo que a ficha dele tava limpa. Depois de alguns minutos esperando o veredito do policial, Jimmy soltou uma risada daquelas e disse pro oficial que ele iria ao tribunal pela milésima vez pra se defender da multa. Depois disso, ele nos falou que tinha vontade de conhecer o Brasil, coisa que todo americano fala pra gente, ou por gentileza ou por querer nosso dinheiro, mas eu senti sinceridade no Jimmy. Ele falou que amava morar na cidadezinha que fica próxima a Woodbury, nosso destino, e nos contou, com o maior orgulho, que ele nasceu no Bronx e que o Bronx é muito melhor que Manhattan. Os olhos extremamente azuis brilhavam enquanto dizia, com entusiasmo, que o outono era a época mais bonita pra se visitar NY e que nós deveríamos voltar assim que pudéssemos. Nos deu seu número e pediu para que lembrássemos dele na próxima vez em que estivéssemos por lá. Mal sabe o Jimmy que vou me lembrar dele por muitos e muitos anos, com muito carinho. Engraçado pensar que o único taxista que nos atendeu durante toda a nossa estadia não era estrangeiro, não era ríspido e não falava com um sotaque difícil de entender. A conversa fluiu tão bem que fiquei feliz com o meu inglês. Falar qualquer língua fica mais fácil quando as pessoas são gente boa.
Os arranha-céus vistos do Central Park.
Quaaase me esqueci de falar do prédio mais bonito e famoso de Manhattan: o Empire State. Na opinião do Lucas, o mais bonito é o Chrysler, mas não conseguimos entrar nele. Uma pena.
Enfim, o Empire State é um dos arranha-céus mais antigos da cidade. Foi inaugurado em 1931 e tem, ao todo, 102 andares. Nós subimos exatamente no 102º andar e foi a sensação mais gostosa aquele ventinho (gelaaaaaado) na cara. Ok, tava muito frio lá em cima, mas a vista compensou os nossos rostos dormentes.
Me senti importante depois que eu vi as fotos das pessoas que já tinham visitado o topo do prédio. O JAMES FRANCO JÁ PASSOU POR LÁ, QUE COISA MAIS LINDA, MINHA GENTE DO CÉU! (Ainda acho o Lucas o homem mais lindo da vida, não me julguem)
Eu, com cara de bobona, olhando as fotos das pessoas famosas que já visitaram o Empire State.
Assim como a visita ao World Trade Center, ver a Estátua da Liberdade mexeu com o meu coraçãozinho. Não só ver a estátua, mas entender o que ela significa.
Durante muitos anos, no início do século passado, a primeira coisa que os imigrantes viam quando chegavam aos Estados Unidos era aquela estátua. Era ela quem dava as boas vindas aos navegantes e era ela a representação, não só de liberdade, mas também de renovação, de vida nova que levavam essas pessoas a saírem de seus países para se arriscarem na América do Norte. É meio brega, né? Essa coisa de "sonho americano"... Mas eu posso dizer a vocês que é verdade. Até hoje milhares de pessoas querem viver esse sonho e eu vi isso em todos os lugares pelos quais passei nessa viagem. Não sei o resto do país, mas aquela cidade nos convida. Ela ficava sussurrando pra mim, me chamando pra ser a jornalista que eu quero ser, a melhor em tudo o que eu quiser fazer. Essa sensação, mais do que qualquer monumento, museu, bar, rua, é o que me encanta, é o que me leva a querer muito fazer parte daquilo tudo. Quando vocês puderem visitar, morar, estudar em NYC, nem pensem, simplesmente aproveitem a oportunidade! O mundo inteiro está lá! E eu, se Deus quiser, também estarei naquela correria um dia, pronta pra receber vocês, pra gente, quem sabe, beber uma cerveja gelada, comer uns hot wings do KFC e assistir a final do Super Bowl.
A Liberdade, símbolo dos Estados Unidos.