lutos patrocinados por dostoievski, um casal inseparável e a viagem no tempo
veja bem: esse texto vem sendo escrito de um lugar tão dolorido aqui em plenas cinco da manhã de uma noite em claro, então é de se saber que é sincero, mesmo. acho que até mais sério, sem piadas entremeadas pelas meiucas. tentarei dizer coisas aqui sem pensar muito, como diria aquele rapaz da polônia (que não sei bem se é da polônia mesmo), com a mente esvaziada; hoje, apenas escreverei, sem ter um destinatário, sem intectualizar sentimentos (se é que existe a palavra intectualizar – bom, agora existe) e sem me preocupar muito onde essas palavras irão parar de qualquer forma.
em quase todas as relações que chegaram ao fim na minha vida, o que fica Ă© o mesmo. me esmiuço em pedaços tĂŁo pequenos de saudades eternas, que tenho plenas convicções que terminarĂŁo um dia. acho uma boa introdução de ano, começar do fim. isso significa que algo de bom irá começar, com certeza. mas lĂłgico, o que somos nĂłs sem a nostalgia? eu mesma afirmo pra vocĂŞ, de mim mesma: eu, nada. vivi várias alines desses 23 anos pra cá, e devo dizer que todas me dĂŁo saudades imensas. e todos os serezinhos que vieram junto tambĂ©m.Â
uma parte da gente (e do outro) sempre morre no fim de uma relação. às vezes morre antes da relação acabar, inclusive. ou várias milhares de partes. de fato, a gente vê tantos casais que terminam aos pouquinhos antes de terminar de verdade. é triste ver como o amor pode vir a ser algo que machuca tanto, mesmo sem querer. devo dizer que nunca amei dessa forma antes. é a primeira vez. existem mesmo sujeitos que amei do fundo do coração, este aqui é da mesma forma. não tenho uma coleção grande, mas é o bastante pra ensinar o que preciso aprender, por enquanto.
dizia em um post de qualquer rede social essa madrugada um inĂcio daquela mesma discussĂŁo infinita que ultrapassa esses confins da galáxia, o seguinte: devemos nos curar antes de entrar em uma nova relação? a resposta Ă© nĂŁo. – ou ao menos era o que afirmava o post. há, no mĂnimo, um zilhĂŁo de posts nas redes sociais que se dizem vir de um lugar de estudo psicolĂłgico, de clĂnicas renomadas, de nomes de grandes profissionais, que dizem tamanhas potocas. acho um bom ponto de discussĂŁo, mas nĂŁo um bom ponto de afirmação.
ao que me lembro se baseava no fato de ser dentro das relações que nos machucávamos, que era dali que saĂamos feridos. ali teria mesmo de ser o ambiente da cura. nĂŁo necessariamente na mesma, mas em alguma. sozinhos nĂŁo conseguirĂamos atingir o lugar exato onde fomos acertados. era preciso diálogo e ajuda do outro. vou te falar uma coisa: nĂŁo acho a cura uma receita de bolo, nĂŁo discordo plenamente da afirmação, mas nĂŁo concordo de todo coração, de forma alguma.Â
anos e anos atrás, talvez mais que quatro e com certeza menos que dez – na cabeça de uma pessoa completamente desmemoriada – passei por outro tĂ©rmino doloridĂssimo atĂ© o fundo da alma. terminamos como amigos, mas lĂłgico que a princĂpio Ă© quase que impossĂvel separar essa ideia de amor de romance e amor de amizade. algo que me lembro bem foi o dia apĂłs o tĂ©rmino. funeral completo. vindo de um lugar absolutamente misterioso, pegou tambĂ©m meus pais de surpresa, que tentaram me consolar – comigo em plenos pulmões recheados de choro e mais choro – dizendo que dor de amor passa.Â
de fato, passou. o que arde, no inĂcio, Ă© sempre a lacuna que fica. Ă© um corte aberto, com uma boa copada de água oxigenada derramada sobre ele. por uma semana, fiquei todo santo dia no chat do sujeito, chorando minhas pitangas. mas nĂŁo voltaremos? isso nĂŁo pode mudar? e pelo amor de deus, deixe-me pegar meu livro emprestado de volta com vocĂŞ, como uma desculpa de tentar te conquistar no meu estado mais sexy, cheia de olheiras, nariz vermelho e chororĂ´? ao passo que o sujeito pacientemente me respondia nĂŁo, nĂŁo e pelo amor de deus, nĂŁo.
fui um pouco ao pĂ© da letra nesse relato para fins piadĂsticos, afinal, o sujeito realmente teve paciĂŞncia com meu tempo. parei de mandar mensagens desse calibre apenas quando percebi que recebia as mesmas respostas para as mesmas perguntas, sĂł com um detalhe ou outro diferente. nĂŁo dava pra mudar, se o motivo nĂŁo mudava. e muito menos a cabeça do sujeito. o jeito era jogar o celular pela janela e me mudar para o himalaia, longe de qualquer telefone fixo que pudesse ativar qualquer resquĂcio de memĂłria, me fazendo discar o DDD do fulano de tal.Â
ao me levantar para um pips madrugacional, refleti sobre isso nesse tĂ©rmino que se sucede aqui. qual o pior cenário: nĂŁo ver o sujeito nunca mais na sua vida e presenciar as lacunas que ele deixou se fecharem aos poucos, ou vĂŞ-lo todo santo dia seguindo sua vida enquanto vocĂŞ presencia a si mesma sendo substituĂda nas lacunas da vida dele?
bom, preferi pensar que nĂŁo estou na pior das situações, mas findei o pensamento ali mesmo. se existir um cenário mais difĂcil (e do fundo do meu egoĂsmo, que exista!) ou nĂŁo, que nĂŁo me contem. prefiro nĂŁo saber.
recalibrar os pneus do amor Ă© uma tarefa árdua. ver que tudo mudou rápido demais Ă© ardido tanto quanto. ter paciĂŞncia para se respeitar nessa meiuca temporal Ă© mais complexo ainda.Â
tenho passado madrugadas em claro, vendo vĂdeos e mais vĂdeos sobre o amor, sobre relações, lendo artigos, folheando livros, anotando ideias dostoievskianas. essa madrugada mesmo, passei na companhia de jout jout e do rapaz da polĂ´nia, num assunto completamente off topic do amor romântico. lembrei que gosto de pesquisar tudo do mundo, e que sou curiosa com tudo. meu maior problema tem sido este: Ă s vezes, misturo o passado com o presente, e viajo no tempo. entĂŁo, minha felicidade desaparece, pensando no que foi. mas o que foi, já foi…
nada se há para fazer com o amor que já foi. alguns dizem que se Ă© amor mesmo, nĂŁo morre mais nunca. e de fato, nĂŁo morre mesmo. amei um gato pingado antes desse, e hoje esse amor já nĂŁo Ă© mais romântico. este aqui há de se transformar em breve. tenho esperança de que fique tudo de lindo, como diria jordana. nĂŁo quero me lembrar do que foi no fim dolorido, e sim, do carinho do inĂcio, do meio, de onde quer que ele apareceu.
em um conversa com ele, me disse que era Ăłbvio que as coisas nĂŁo permaneceriam para sempre. a paixĂŁo inicial Ă© ardente, e como fogo, dissipa, depois de um tempo. tem um fundo de verdade. o amor Ă© mais calmo, com certeza, mas nĂŁo acho que um anda separado do outro. nĂŁo acho que sejam coisas diversas assim. Ă© o famoso “como amo estar com ela… espere aĂ, estou apaixonado!”. atĂ© mesmo o verbo amar está presente dentro da paixĂŁo. sĂŁo um casal inseparável. tem que lembrar de se apaixonar, e de se fazer apaixonante, mesmo depois de tanto tempo.Â
o amor Ă© a flor mais linda do mundo. sĂł tem que cuidar com os espinhos. mas o que nĂŁo Ă© espinhoso nessa vida?
enfim. nĂŁo sei bem mais o que dizer. sei que tudo o que queria dizer, nĂŁo disse. e tudo o que disse, pelo visto, queria dizer. um abraço a ryan, da polĂ´nia, que tem me ensinado atravĂ©s de palavras a sĂł ser. nesse texto, sĂł fui. sĂł escrevi. chegou a algum lugar, visto que nĂŁo sou mais a mesma do primeiro parágrafo, que prometi nĂŁo fazer uma mĂsera piada. ainda bem.
o que Ă© o inferno? defino-o assim: o sofrimento da incapacidade de amar. (dostoievski)

















