Karou era uma garota estanha – ele não via outra forma de descrever. Não acreditava que fosse cem por cento inocente, como queria fazer parecer, e sempre tinha passado a impressão de maluca ao carregar aquele animal para toda parte. Tinha sido por isso, aliás, que Njord tinha ameaçado o bicho: ele era a forma mais fácil de afetar alguém como a Bredenberg. “ É, acontece que ele não é uma pessoa ” disse teimoso, mantendo certa distância ao pensar que o animal estava enfeitiçado, e o Westergaard já tinha tido sua dose de feitiços para toda uma semi-vida. “ Texugo. Que seja ” revirou os olhos, pensando se aquela informação já não tinha sido repassada a ele em algum momento. Com as dores de cabeça constantes, o dreno de força física e a falta de sono, sentia algo afetando sua memória, e lembranças menos importantes tendiam a desaparecer rapidamente. Seria o mesmo que embarcar na loucura da garota acreditar que um texugo tinha ressentimentos em relação a ele. Ao perceber que tocava mais uma vez no assunto doença, Krastan entrou em pânico. “ Então não repita isso em voz alta, caramba! ” se exaltou, chegando mais perto, alarmado enquanto olhava para os lados. “ Não sei se faz isso de propósito, tentando me ameaçar, ou só porque é idiota mesmo ” agora, mais do que nunca, tentaria esconder o máximo a doença, pois qualquer um perceberia seu estado debilitado. “ Não.Fale.Sobre.Isso ” orientou pausadamente, se inclinando sobre a mais baixa. “ Nunca, está bem? ” depois, se recolheu, analisando se podia confiar nela, afinal, nenhum boato surgira em Aether durante todo o tempo desde que Karou tinha ouvido aquela conversa. A fala seguinte, contudo, fez com que se sentisse péssimo, irado, desconcertado. A verdade era absolutamente deprimente. Ele estava se tornando um ser deprimente. Se a outra olhasse mais atentamente, veria o rosto encovado, as olheiras arroxeadas e os olhos vermelhos que não indicavam saúde perfeita. “ Ainda posso ferir seu animal, e vou fazê-lo, se continuar falando do assunto, ouviu? Just… Me deixe em paz ”
❛ Eu não entendo porque não pode falar mesmo não sendo uma pessoa. ❜ Se o príncipe era teimoso, encontrara uma criatura tão teimosa quanto ele. Para defender o direito de fala do seu texugo, iria continuar discutindo. ❛ EuEu nunca diz nada demais. Ele, na verdade, faz comentários pertinentes, às vezes. ❜ Quando não estava ameaçando pessoas, como agora, o texugo poderia realmente dizer coisas importantes, como quando relatou a Merlin ter visto uma pessoa estranha. Mas, aquela coisa: para o texugo, que não conhecia todos os aprendizes, qualquer pessoa era estranha. Mas a discussão sobre EuEu poder ou não falar acabara sendo esquecida pela aproximação brusca do homem, fazendo com que Karou se encolhesse como se, de alguma forma, pudesse acabar sendo ferida. Era menor do que o outro e ele parecia realmente irritado. ❛ De-de-de- ❜ e não conseguia completar o pedido. A garota não havia falado demais por mal, entenda; ela usualmente o fazia e, agora, acreditava que Westergaard não estava mais doente, portanto, não havia motivos para não dizer em voz alta. Assentiu nervosamente com a ordem porque, no final, havia uma hierarquia. A garota se esquecia muito facilmente em Aether, quando seus amigos eram bruxas e princesas, mas existia. Plebeias não poderiam falar dessa forma com a nobreza. Ela poderia ser, de alguma forma, assassinada. Não apenas EuEu, mas a própria Karou poderia acabar na forca se o príncipe se irritasse demais. E o pânico tomou conta definitivamente! Suas mãos tremiam e ela só queria correr. ❛ Desculpa, Senhor Westergaard. Eu não-não- ❜ e tornou a assentir, sem concluir sua fala. Se ele havia dito para se retirar, era melhor se retirar o mais rapidamente. ❛ E-e-e ❜ embora EuEu fosse pesado, a garota o pegou, seus passinhos apressados a levando para longe de Westergaard. Se não havia chorado com os desaparecidos, choraria agora.