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@maxpond
We need to talk — Victoire & Maxwell
Encostou-se na parede ao lado dele, escutando com atenção. A curiosidade para ouvir sua resposta se confundindo com a curiosidade sobre o que estava o incomodando. Provavelmente não era algo tão simples como a preocupação de que uma garota gostava dele, e ainda debatia se deveria questioná-lo ou simplesmente deixá-lo em paz. Afinal, não era todo mundo que gostava das pessoas se intrometendo em seus assuntos. No entanto, Max era seu amigo, não era? Se ele podia ajuda-la, era apenas justo da parte dela oferecer ajuda também. “Você está bem, não está?” perguntou, notando que podia soar rude ao quase cortá-lo. Arqueou uma sobrancelha a certeza com que ele afirmava que Adam gostava dela, mas logo viu a mentira na frase seguinte. Adam tinha uma ex. Evans, uma ruiva da Gryffindor, que Victoire não conseguia parar de pensar que era muito melhor que ela mesma. Não sabia porque terminaram, mas sabia que continuavam amigos. “Bem, ele realmente gagueja muito.” Murmurou, um sorriso pequeno nos lábios. Ela não se importava, mas não podia negar que o problema de dicção do garoto era grande.
“Eu sei que ele não me odeia, ou algo do tipo, mas…” Mas queria que fosse mais. Não queria que fosse algo rápido, que ficassem algumas vezes e então continuassem sendo só amigos. Realmente gostava dele, de uma forma que nunca gostara de ninguém antes. Já tivera interesse por outros garotos, é claro, mas não assim. Até mesmo seus irmãos perceberam. “Enfim. Obrigada.”
A conversa com Victoire, apesar de absolutamente sem sentido, serviu para Max se distrair das próprias preocupações. Focava-se agora nas da colega de casa visivelmente apaixonada por um de seus melhores amigos. Wright, porém, parecia ter percebido que havia algo de errado em seu comportamento, visto que o analisava com certa curiosidade. Não demorou muito tempo depois de seu pequeno monólogo para que a questão viesse. Havia sido interrompido por causa de uma pergunta cuja resposta certamente seria artificial. Max não respondeu. Arqueou uma sobrancelha para a ruiva de olhos azuis e permaneceu em silêncio. Responderia afirmativamente mesmo se não estivesse, mas a última coisa que desejava era conversar a respeito de si próprio.
A ravenclaw era insegura demais, não parecia tão satisfeita com as palavras que havia dito a respeito do que pensava de Adam. — Sim, ele gagueja — concordou, e viu o primeiro sorriso de Vic. Talvez ela tivesse entendido o que Max queria dizer desde o início. Balançou a cabeça em sinal afirmativo quando ela continuou a falar, mas a frase não fora concluída. —... Mas? — encorajou curioso. O que a garota temia? Ela ainda não parecia satisfeita, e ele não queria deixá-la ir com a dúvida. Por todos os fundadores, Adam parecia gostar mesmo dela. Perguntou-se por alguns instantes se deveria se oferecer para conversar com o amigo para fazê-lo abrir os olhos ou qualquer coisa parecida. — Victoire, espere — chamou soltando a respiração através dos lábios quando a garota agradeceu e fez menção de se retirar. — Eu acho que a nossa conversa não terminou — desencostou-se da parede de pedra e descruzou os braços. Sabia que a atitude lhe custaria algo – talvez uma confissão sua –, mas não queria que a amiga fosse embora tão receosa quanto antes.
We need to talk — Victoire & Maxwell
Abriu a boca, a fechando logo em seguida. As palavras lhe foram engolidas, e ela percebeu que se tornara exatamente o tipo de garota que não queria ser. Não queria ser o tipo de garota que dá gritinhos e fica nas nuvens o resto do dia apenas porque um garoto lembrou de lhe dar oi, mas estava começando a ficar assim. Ali estava ela, perseguindo o melhor amigo de Adam para perguntar sobre ele, sem nem sequer se importar em perguntar a Max como ele mesmo estava. Não precisaria perguntar para perceber que algo estava errado, e teve que morder a língua para não questioná-lo. Embora não eram extremamente próximos, ela se preocupava com o rapaz, e iria tentar arrancar algo dele assim que falasse o que queria. Se arrependeu de ter começado o assunto antes mesmo de perguntar sobre o seu bem estar, mas não podia voltar atrás agora e parecer mais patética do que já estava. “Acha… Acha que ele gosta de mim?” perguntou, encostando-se na parede também, querendo ter a certeza. Sabia que Adam já namorara a ruiva da Grifinória, e não podia evitar a pequena insegurança que sentia de não ser tão boa quanto ela.
Talvez ele nem sequer gostava dela. Só era demasiadamente gentil para dispensá-la. Ele era inteligente demais comparado a ela, e provavelmente devia se irritar com ter que explicar tudo para ela. Além de tudo, ela o deixava desconfortável, a gagueira provava isso.
Ainda antes de a ravenclaw inquirir a respeito do seu amigo e colega de quarto, já sabia qual seria a indagação. E a resposta. Talvez fosse aquilo o que precisasse naquele momento, distrair-se dos próprios pensamentos e se focar em algo mais leve, mais simples. Como o início do relacionamento entre Victoire e Adam. Balançou a cabeça para cima e para baixo, encorajando a garota que parecia titubear a seguir com a dúvida. A pergunta por fim foi proferida, uma pergunta óbvia com resposta igualmente previsível. Não queria ser grosso ou rude com Wright, que parecia verdadeiramente temer o que quer que saísse através dos lábios de Max. — Claro que sim, Victoire — foi direto, balançando os ombros. Caminhou até a parede para que pudesse encostar as costas, cruzando os braços em seguida.
Talvez ela precisasse ouvir mais alguma coisa.
— Veja bem — franziu o cenho tentando colocar o que pensava em palavras. — Eu nunca vi Adam conversando ou saindo com uma garota por tanto tempo... — errado, Max. Tentou novamente. — ... Quer dizer, ele parece gostar da sua presença. Ele gagueja mais do que o normal quando perguntamos sobre você no dormitório — disse como se fosse algo bom. E era, afinal, não era? Quando estão gostando de alguém, as pessoas costumam se comportar de maneira estranha. — Acho que você não deveria se preocupar com isso. Ele não estaria saindo com você se não gostasse — referia-se ao dia em que ambos sumiram misteriosamente, com Adam aparecendo horas depois exibindo um sorriso bobo e uma expressão – surpreendentemente – aérea.
We need to talk — Victoire & Maxwell
Odiava que os garotos tinham as pernas tão longas e tanta facilidade para andar rápido mesmo sem tentar. Precisou correr para alcança-lo, e agradeceu aos céus por Maxwell estar sozinho. Não que não gostasse da companhia de Adam, muito longe disso, mas precisava tirar algumas dúvidas e manter sua dignidade o mais intacta possível. E ninguém melhor para pegar informação com do que o melhor amigo do tal garoto. Só esperava que Pond não abrisse a boca e contasse sobre sua tentativa quase que desesperada de contato.
Desistiu de segui-lo em movimento, percebendo que era praticamente impossível manter o passo e parou no meio do corredor. “Pond!” gritou, um pouco mais alto que necessário, encolhendo os ombros em um pedido de desculpas silencioso, e começou a andar novamente quando viu que ele havia parado. Finalmente, chegou perto o suficiente para ser ouvida sem precisar que todos os alunos ao seu redor também escutassem sua conversa. “Eu… Preciso falar com você.” Já pode sentir o rubor aparecendo em suas bochechas, e se odiou mentalmente por isso. Raramente sentia vergonha, mas era só pensar em falar sobre o que sentia por Adam em voz alta que ficava parecendo um tomate. “Sobre o Adam.”
Corria, sem parar um minuto sequer. Corria tanto que não podia mais observar as coisas como observava antes. Não corria de verdade, é claro, mas sentia como se o fizesse. Desde o dia em que Vincent Williams o procurou, Maxwell Pond não tem tido muito talento para lidar com o que adviera. Se erguesse a mão e tocasse a pele agora intacta, poderia sentir o calor que emanava naquele local devido o toque do melhor amigo. E justamente por isso, seu cérebro tornou-se uma verdadeira maratona. Porque se não corresse, pensaria demais. E se pensasse... Rowena, ele não poderia.
Foi preciso alguns segundos para notar que estava sendo chamado. Max achava, honestamente, que aquilo estava se tornando um hábito entre os estudantes; gritar por seu nome no meio dos corredores. Parou, contudo, procurando pela dona da voz que havia gritado seu sobrenome, percebendo logo que era Victoire. — Hey — parou, enquanto esperava a menina inúmeros centímetros menor se aproximar. Não fazia ideia do que ela queria, nem fazia tanto tempo que conversaram pela primeira vez. O assunto da conversa não o espantou, porém, tampouco a cor escarlate que combinava com os cabelos. Não lhe era segredo que existia algo entre a seeker do time de quadribol e o cara mais inteligente e irritante que conhecia. — Pode dizer, sou todo ouvidos — deu de ombros encostando-se na parede. A corrida em sua mente perdendo a velocidade. Precisava daquilo, concluiu, um desvio de foco.
But if I could change your mind. Max’s Point of View.
Você já estava exaurido em ouvir sobre o herdeiro da tradicional família Williams, o mocinho gentil, educado e único filho de um dos melhores amigos dos seus pais. Além de possuir o mesmo nome de um dos maiores artistas que já viveu, parecia também ser dotado do mesmo dom de Van Gogh, o de enxergar a vida de um modo só dele. O “rapazinho adorável” que tomou para si o coração de sua mãe e talvez de todos aqueles que já tiveram o privilégio de conhecer, te fez compreender a razão de ser tão querido. Na primeira vez em que o viu, admitiu que ele pudesse ser realmente uma boa pessoa, mas isso não te impediu de ficar emburrado quando foi obrigado a dividir a mesa com ele na sua própria festa de aniversário. Você apreciava o silêncio, e aquela invasão abrupta de onde você julgava ser seu espaço pessoal trouxe consigo o barulho incessante das palavras que saíam em disparada dos lábios alheios. Demorou sete anos para que vocês se conhecessem, e mais quatro meses para que Vincent lhe arrancasse um sorriso. O primeiro de outros raros, mas cheios de significados.
Inconscientemente, você começou a chamá-lo de melhor amigo. Mas talvez ele fosse seu único amigo. A personalidade que seu pai moldou não permitia a aproximação de outras pessoas. Você os repelia, e ele, mesmo com tantos amigos e sendo o principal alvo de seu tratamento imerecido, nunca pareceu se importar com isso. Ao contrário, te dava uma atenção especial, essa que você reconhecia não ter direito. Ele te irritava determinadas vezes, e você o tratava mal sem qualquer razão. Inúmeras foram as ocasiões que você foi grosso ou indolente. Você sabia como o magoava, mas precisava agir daquele jeito para provar a si mesmo que ele não poderia te desarmar. No entanto, ele já tinha o feito desde que você sorriu para ele pela primeira vez.
Com o tempo, cada um aprendeu a respeitar espaço e os costumes do outro, cuja personalidade e o modo de lidar com a vida eram completamente distintos. Seu sorriso já não era mais tão difícil de ser visto, e quando estava com ele, conseguia enxergas as coisas como ele via. E tudo era diferente. Sua devoção pela arte, principalmente por Vincent van Gogh se transformou no desejo de fazer o mesmo que ele fazia. Ser ao menos uma pequena parte do que ele foi. Você já era capaz de ver o mundo com outros olhos, e tudo parecia mais belo assim. Você esperou tempo demais pela motivação ou pelo menos o apoio de seus pais, mas só pode encontrá-los em Vincent. Ele mudava e te surpreendia a cada dia. O garotinho baixo demais para a sua idade e com feições que poderiam ser comparadas facilmente com as de uma criança havia crescido. Entretanto, os orbes de um azul intenso nunca perderam o brilho ingênuo e até mesmo infantil que chamava a atenção de todos. Vincent era todo em cores, o seu modelo favorito. Mesmo que ele nunca soubesse, você costumava desenhar e pintar seu rosto muitas vezes, não compreendendo a razão de uma pessoa instigar tanta curiosidade. Eram muitas cores, muitos traços, muita coisa que ninguém poderia ver se não prestasse a devida atenção. Vocês se conheciam há mais de uma década, você sabia tudo sobre ele. Mas aquilo não parecia ser o suficiente.
Ao contrário de Vincent, você havia regredido. O Maxwell de sete anos parecia ter retornado. Além das expressões emburradas e respostas malcriadas, algo em seu peito parecia lhe consumir. Doía, como uma mão invisível apertando seus órgãos vitais sem dó alguma cada vez que você ouvia a voz alheia ou via seu sorriso. Essa dor só lhe causava mais chateação. Vocês começaram a brigar com mais frequência, e ele passou a tomar uma posição sobre elas. Você sentiu na pele o que ele possivelmente guardava para si. Vincent era compreensível e te valorizava, Max. Mas até ele, até seu melhor amigo que sempre esquecia e te perdoava, se cansaria. Uma discussão em especial construiu uma barreira entre vocês. Como um muro impossível de ser ultrapassado ou escalado. Você nunca se sentiu tão infeliz quanto nos poucos dias em que se afastaram. Você sabia que estava errado, mas era orgulhoso demais para assumir o próprio erro e buscar o perdão. Você precisava destruir aquele muro denso envolto a ambos enquanto havia alguma chance. E sem abrir mão do seu orgulho, foi ao seu encontro. Quando você teve coragem para encará-lo nos olhos, uma atitude impensada pegou a ambos de súbito. Você o beijou.
O primeiro beijo que vocês trocaram surpreendeu a ambos. A ele por ter sido em meio a uma discussão, e a você por ter esclarecido tanta coisa em tão pouco tempo. Você nunca deu indícios de que sentia qualquer coisa por ele, e nem ele por você. Precisou de uma briga séria e um beijo para que você compreendesse que aquela dor, aquela pressão em seu peito fosse amor. Com os lábios grudados ao de seu melhor amigo, você se sentia tonto, e em dúvida se essa reação era por causa do prazer físico ou a grande quantidade de informações que passavam em sua mente. Você o amava. Ao processar a informação que pensando bem, estava claro para os dois, você se afastou imediatamente olhando-o como se fosse a primeira vez. Vincent era uma aquarela naquele momento. Os olhos azuis estavam largos e muito mais claros do que o habitual, e dessa vez brilhavam em dúvida e confusão. Os lábios entreabertos, assim como as maçãs do rosto tinham um tom rubro. A sua maior vontade, Pond, era tomá-lo em seus braços e se entregar ao sentimento recém-descoberto, mas não podia. Não com aquele turbilhão de emoções e pensamentos dominando seus pensamentos.
Você estava assustado com a intensidade daquele sentimento. Estava em duvida se era recíproco, se não seria desprezado. Tinha medo. Medo de não conseguir lidar com algo tão grande e sincero, medo do que aconteceria quando descobrissem que seu coração pertencia a outro rapaz. Medo do que poderia escapar dos lábios que foram tocados pelos seus há poucos instantes. Incapaz de enfrentar Vincent, e você mesmo, você foi embora. O melhor aluno da sala durante anos, o rapaz confiante e centrado que orgulhava os pais a cada dia, aquele que prometia ser um artista de sucesso, demonstrando a avalanche de sentimentos que não conseguia expressar em cada quadro que pintava foi embora. Você não sabia lidar com os próprios sentimentos. Eles te assustavam, porque você sempre foi deveras racional. Você não podia lidar com aquilo.
Virar as costas para Vincent depois de tê-lo tão perto, depois de ter experimentado a melhor sensação da sua vida lhe causou um enorme vazio. Aquela atitude que poderia ter inúmeros significados fez você ter certeza de que o perderia de vez. Portanto, você tentou se convencer de que a presença do menor não te faria tanta falta. Como você foi tolo em cogitar essa hipótese, Maxwell. Mesmo após semanas sem qualquer tipo de contato com ele, você era capaz de visualizar a expressão surpresa que ele assumiu após o beijo. A lembrança dos lábios dele se chocando contra os seus ficaria para sempre com você, trazendo a ânsia por mais contato. Você estava enlouquecendo sem seu Vince. Todos sabiam que isso aconteceria um dia, até você. Você não gostava de discutir com ele, embora a causa da maioria das brigas travadas entre vocês fossem iniciadas por você. Todas as vezes que vocês ficavam sem se falar, ele te procurava para pedir perdão, mesmo sendo desnecessário. Dessa vez foi diferente. A última briga fora esquecida, camuflada por uma razão muito maior. A dor que a distância causava parecia se intensificar a cada dia. Você sentia como se estivessem te rasgando por dentro, e essa sensação te fazia lembrar, ironicamente, daquela dor que você sentiu quando os sintomas da sua paixão despontaram sem você sequer saber. Um sentimento tão puro e julgado ser tão belo deveria causar tanta dor assim?
Ele ainda cruzava o seu caminho, e quando você procurava o brilho familiar nos olhos alheios, você só podia enxergar o opaco. Estava sem vida, pareciam magoados e doloridos. Vincent era todo em cores, o seu modelo favorito. Mas quando você tentou pintá-lo novamente, a cor que predominava sua obra era cinza. Tom esse que permaneceria se você não tivesse quebrado todas as suas barreiras e lutado contra a sua própria razão. Sua razão perderia, porque você precisava tê-lo de volta para si. Você não era hipócrita para alegar que ainda o queria como um amigo. Isso não bastaria, de novo, não era o suficiente. Você compreendeu o mistério que cercava Vince, e precisava desvendá-lo. Você precisava apresentar as cores a ele novamente. O branco de sua pele e sorriso, o azul que não podia ser comparado com nada, o rosado que cobria as maçãs do rosto quando ele estava empolgado ou acanhado. O negro de seus cabelos e o vermelho de seus lábios. Você precisava de Vincent mais do que qualquer coisa. Mais do que a aceitação de pessoas que você nem sequer conhecia ou fazia questão de obter respeito, mais do que sua vontade de ser famoso através do seu talento, mais do que a vontade dele de salvar vidas e roubar sorrisos. Então você foi, e diria o tamanho da sua necessidade. Anularia padrões e preconceitos. Surpreenderia toda a sua família e empolgaria a família Williams. Faria seus amigos em comum e colegas revirarem os olhos como se já soubessem sobre o desenrolar da história entre vocês de cor. No fim, ele te pertencia, e você a ele. E nada mais importava.
Miss Atomic Bomb. July 26, 1966. Max’s Point of View.
Quem lhe perguntasse algumas semanas depois, ou até mesmo no dia seguinte, Max Pond nunca admitiria que estivesse naquele lugar àquela hora da noite fazendo o que estava prestes a fazer apenas por um pequeno capricho de River. Embora ambos fossem novos demais para se preocupar com a própria integridade, o jovem rapaz achava que aquilo tudo era uma loucura. Eram vinte e três horas e quarenta e cinco minutos do dia do suposto aniversário de River Song e assim como os costumes trouxas, ela pensou em um desejo ao soprar num fôlego só – coisa que se orgulhou e fez questão de jogar na cara do primo que conseguira sozinha – todas as “milhares” velas dispostas no bolo grande, atrativo e repleto de chocolate. Com toda sua excentricidade, Maxwell nunca esperou por um pedido comum, tampouco um que não o envolvesse. Tentou – inutilmente, vale ressaltar – usar todo o poder que a sua voz fina e ainda sem forma possuía para fazer a mais nova mudar de ideia. No entanto, Riv nunca andava para trás com as coisas que colocava em sua cabeça.
O desejo era claro: queria correr por toda a rua do pacato vilarejo bruxo que o garoto residia com os dois pelados. Nus. Sem roupa nenhuma. Nem as peças íntimas, Maxxie! A garota exclamou quando o rapaz abriu a boca em protesto, fazendo as palavras morrerem no meio do caminho. Escapar da casa dos Song naquela noite não foi algo que exigiu muito trabalho dos pequeninos. Depois de toda a bagunça que aquilo que deveria ser apenas uma jantar com um bolinho causou, os primos tinham certeza que nada faria seus pais acordarem antes do início da tarde do dia seguinte. Pensando nisso, River apareceu na beirada da cama de Max que ressonava tranquilamente poucos minutos atrás, fazendo o menino levantar-se num sobressalto após ouvir o chamado sutil da loira. Ele ficou imediatamente mal humorado, fazendo-a ralhar com ele para que deixasse de ser tão ranzinza. Você sabia que mau humor envelhece? Ela questionara provocando-o. Que eu saiba aniversários envelhece. Retrucou sabiamente, não notando o riso sutil que escapou dos lábios femininos.
– Eu teria escolha se não estivesse? – o futuro ravino bufou em resposta ao questionamento sobre estar pronto ou não. Fazia frio, muito frio, e Maxwell tinha certeza que ambos poderiam morrer de hipotermia caso ficassem muito tempo do lado de fora. Sugou o ar gelado pela boca antes de descer as calças largas do pijama. Olhou pelo canto dos olhos o sorriso feliz que não deixava o rosto alheio, enquanto ela puxava a camisola por cima. Não havia malícia alguma por parte de nenhum dos dois, somente cumplicidade quando a menor capturou os dedos finos e compridos do menino e entrelaçou aos próprios. River Song não contou até três quando começou a puxar Max Pond pelos braços, e nenhum dos dois sabia que os gritos dela foram ouvidos por algumas pessoas das casas vizinhas que pediram para seus maridos irem ver o que estava acontecendo. Eles não sabiam que seus pais iriam acordar sim antes da tarde do dia seguinte, tampouco que iriam ficar de castigos (e gripados) durante uns bons meses. Contudo, depois de alguns anos, Max refletiu que cada uma daquelas coisas que lhe aconteceram naquele vinte e seis de julho tornou aquele dia mais especial do que o seu próprio aniversário. Afinal, nem era o aniversário de River Song de verdade – e sim o de seu pai – mas ele não conseguia pensar em outro dia que se divertiu tanto quanto aquele. … E bem, foi com as mãos sobre suas partes íntimas que ele vira Vincent Williams pela primeira vez.
In spite of everything I shall rise again: I will take up my pencil, which I have forsaken in my great discouragement, and I will go on with my drawing. From that moment everything transformed for me.
Vincent van Gogh
You watch us run, winter 1976. Pond & Song.
Max tentava se lembrar em qual ponto da sua vida tinha deixado de seguir as próprias decisões para acatar desejos abusivos. Em nenhuma das vezes que decidiu sair com algum dos amigos para lugares novos, eles acabaram bem. Agora, levar River Song para um pub trouxa poderia ser considerado como a maior loucura que Maxwell Pond faria em vida. É claro que o rapaz tentou de todo o modo que conseguia negar o pedido e tentar contornar a vontade da prima. No entanto, teimosa e decidida como era, fora River que o contornou o rapaz, conseguindo tornar sua vontade em algo concreto. O rapaz até tentou apelar pelo bom senso dos pais e tios que por sua vez, tinham plena confiança nele, achando que aquela ideia poderia trazer uma boa experiência para os dois – além de controlar os ânimos da única filha dos Song. Rendido concordou em levar a garota até o lugar, com a condição de apenas levá-la. “Tente respeitar o horário de encontro dessa vez.” Rabiscou no final pergaminho que escrevera antes de se arrumar para o passeio.
Faltavam poucos dias para o fim de 1976 e a chegada de 1977, e Max não conseguia imaginar algo melhor para fechar suas “férias de Natal” com chave de ouro. Além de ser proibido de colocar os pés para além da porta da sala durante os dias que estivera em casa – incluindo ali seu aniversário de dezessete anos –, a única vez que sairia no pequeno recesso, foi para levar a prima mais a uma festa cujo interesse de sua parte era inexistente. Ajeitou pela última vez a gola da camisa xadrez sob o casaco preto grosso que utilizava a fim de se proteger do frio e alcançou sua varinha e uma carteira trouxa que continha algum dinheiro para que pudesse se virar com a garota. Marcaram de sair da casa da menina às nove horas da noite, para que chegasse ao local antes do indicado no maldito folheto que River havia encontrado no malão de uma amiga antes de sair de Hogwarts. Desceu até a sala de estar, onde Adam Pond o aguardava com as últimas recomendações e ordens sobre horários e postura. Max o ouviu em silêncio apenas assentindo quando achava ser necessário, enquanto tentava ignorar o pensamento de que já era maior de idade e que ordens como aquela eram totalmente desnecessárias há algum tempo.
Livre do discurso do pai e de todos os abraços e beijos preocupados da mãe, se preparou para aparatar até a casa dos Song que ficava a uma distância relevante da sua. Concentrou-se em todas as recomendações dadas pelo funcionário do Ministério no ano anterior e meditou sobre os três “D”s. Não era a primeira vez que aparatava sozinho, portanto sentia-se mais confiante em seu sucesso. Planeou seu destino, conhecendo a sensação desconfortável que o tomava sempre que usava algum meio mágico para se locomover. Para seu alívio, percebeu o chão sob seus pés e todos os membros em seus devidos lugares. Abriu os olhos certificando-se de que aquela era a cozinha dos tios e tratou de caminhar em direção à sala de estar, onde todos possivelmente estariam. Tia Amy e tio Rory sorriram compreensivos encolhendo os ombros como duas crianças que acabaram de serem descobertos pelos pais depois de aprontarem alguma traquinagem. Max ignorou o gesto dos mais velhos e os cumprimentou, ouvindo a promessa de que a filha estava quase pronta.
Ao contrário do que acreditava diante do aviso dos tios, Maxwell se viu esperando River por cerca de meia hora. Pond detestava esperar. O humor que lhe restava esvaía-se junto com a pouca paciência que possuía habitualmente. Quando ouvira passos do andar superior da casa, Max levantou-se tentando controlar a perna direita que batia furiosamente no chão em um gesto de nervosismo. Tia Amy se levantou, aproximando-se de Max dando-lhe um beijo na bochecha e saiu da sala sendo seguida por Rory, que apenas acenou para o sobrinho em um gesto quase imperceptível com a cabeça. Max retribuiu o aceno sem conseguir disfarçar a insatisfação por ter ficado de molho durante tanto tempo. – Meia hora, River Song. Trinta minutos! Não é possível que você tenha tido a noite inteira disponível para se arrumar e resolveu começar tão em cima da hora – ralhou emburrado gesticulando enquanto encarava a causa de toda a sua chateação com uma expressão séria.