Esboçou um sorriso sem humor ao pensar na ideia da loura estuporando James, em outras circunstâncias, encorajaria o comportamento e até riria. Porém, aquele certamente não era um bom momento. Mesmo que estivesse ligeiramente distante, ainda conseguia escutar a música que saía das portas do salão, melosa; e em adicional, a iluminação das velas deixava o cenário ainda mais melancólico. Que porra? Ele não estava em um filme clichê adolescente, embora pudesse comparar a situação em que se encontrava com algum do gênero. ‘ Sobre nós e seu casamento, é claro. ’ deixou um riso baixo, sem humor, escapar de sua garganta. Com a pouca iluminação, o Potter não conseguia identificar as reações da mais velha, porém, encontrava-se mergulhado em sua feição. Verena possuía aquele efeito sobre ele, estranhamente confortável e ao mesmo tempo, revoltoso, quase deixando-o eufórico com a sensação de ansiedade e de asas batendo em seu estômago. Quando os dígitos alheios lhe seguraram, imediatamente, quis quebrar o contato, porém, o rosto feminino parecia encaixar perfeitamente em suas mãos, uma breve ilusão, oras. ‘ Não, você está certa. Eu só achei que… ’ disse, não conseguindo completar a própria frase, engolindo duramente as últimas palavras da Mondenschein. Certamente, não era nada para ela. Pois bem, admitir aquilo doía levemente, embora não possuíssem nada além de uma estranha relação. Afastou-se, livrando-a de seu toque e aumentando a distância entre os corpos, era o melhor, para ambos. Suspirou uma última vez, passando os dedos entre os cabelos, como se aqueles movimentos fossem trazer calmaria aos próprios pensamentos, o que não aconteceu. Independente de qualquer coisa, jamais admitiria que estaria se afeiçoando pela alemã, porque não estava, em hipótese nenhuma. ‘ Porra, Verena. Sei que não deve estar sendo fácil pra você, mas podia ter me falado alguma coisa, não sei. ’ deu de ombros, virando-se para fitá-la novamente, as negociações entre as famílias estavam certamente já estavam ocorrendo há alguns meses, casamentos não ocorriam de forma repentina como aquela. Se ela tivesse o contado antes, não estariam ali e teria se afastado automaticamente. Contudo, parecia estar tarde demais para aquilo. Albus estava perdido, transtornado entre duas vontades totalmente distintas; a de beijá-la e a de dar-lhe as costas e retornar ao salão. Ugh, precisava de uma bebida.
Nós. Plural, indicação da existência de algo possuidor de um aspecto coletivista. O que, por um instante, quebrou um pouco mais o coração de Verena em alguns outros pedaços. Até então, como não tinha uma bola de cristal para lidar com Albus, levara aquela situação que vivia com ele, às escondidas, como eventos esporádicos, com um pouco mais de frequência a partir do momento que voltaram para casa para passarem as férias. Nunca achou que ele se preocupava de verdade com ela, com o que fazia ou deixava de fazer. Em sua cabeça, como no caso de tantas outras pessoas com quem Verena lidava no seu dia a dia, Albus sentia mais desprezo pelo sobrenome que ela carregava, do que, efetivamente, algum sentimento forte o bastante que pudesse fazê-lo sentir seu estômago revirando de nervosismo cada vez que ela chegava perto, como era o que acontecia com a alemã quando se topavam, às pressas ou não.
“Sejamos francos, Potter, o que precisa ser escondido pode ser tudo, menos uma coisa boa.” Ponderou. Falava aquilo mais como um lembrete para si mesma: não teria problema nenhum em assumir que já beijara o outro, se não fosse aquela coisa ruim que sentia dentro de si cada vez que pensava na família alheia. Bem como acreditava que ele também preferia não ser associado a uma garota que vinha de um lugar e de uma tradição tão sombria quanto Verena. Então ficavam eles por eles: às espreitadas da madrugada, com olhares atravessados aqui e ali, o que não implicava em uma cobrança naquele momento, nada disso. Era apenas um modo de demonstrar que, no final das contas, os dois não encaixavam tanto assim e agora era hora do tempo cobrá-los por aquela união improvável -- ou era o que a parte consciente da mente de Verena tentava empurrar-lhe garganta abaixo, querendo ela aceitar ou não.
Até que, quando ele se afastou, os lábios avermelhados da Mondenschein se mantiveram abertos em uma expressão de choque por alguns segundos. Silenciosa, mas chocada, enquanto observava os corpos afastados agora. Ela acabou recorrendo às plumas de seu vestido, apertando o tecido com força e respirando o mais fundo possível, sentindo os olhos marejarem. A ação fora impactante, mas testemunhar as expressões do moreno, foi mais ainda.
“Eu --” Ela deteve-se no meio de sua frase, porque ele estava certo. Monden-Rosier era um conglomerado de conspirações envolvendo os nomes de Verena e Thomas há alguns meses agora, especulando sobre a possibilidade de juntar os filhos de cada família. Contudo, nunca se passara pela cabeça dela que eles chegariam às vias de fato; por isso aproveitava cada noite gelada embrenhando-se por aí na companhia de Albus, da maneira mais sincera que podia. Divertia-se com ele, gostava das provocações trocadas que terminavam em um beijo cedido ou mais sofrido... E era aquela a parte que mais a interessava, porque era o que estava em sua realidade e a ansiedade de Verena já a castigava o suficiente para que, além dos problemas habituais, ainda tivesse de se preocupar com o que poderia vir lá na frente graças à loucura de sua família. Ela realmente se apegava aos momentos felizes com todas as suas forças, por mais ínfimos que fossem.
“Me desculpe.” Murmurou, com a voz quase sumindo ao dizer aquilo, enquanto sua mão buscava o tecido da camisa que ele usava, segurando-o por ali, num pedido silente para que ele continuasse por perto apesar de tudo. “Eu estou perdendo o controle da minha vida a cada novo dia e eu não sei mais o que fazer.” Confessou. As bochechas esquentaram mais ainda e, enfim, ela sentiu as lágrimas escorrendo por suas bochechas. Apesar dos pesares, ela já havia dividido algumas de suas inseguranças com Albus, principalmente no que dizia respeito à criação a qual fora submetida. Então ele saberia do que ela estava falando. “Eu deveria ter te contado, mas estava tão... Feliz com o que estava acontecendo?” A fala saíra num tom de pergunta enquanto ela ria baixinho, sem humor, voltando a olhá-lo, apesar de ver o rosto do outro embaçado por conta das lágrimas. “Quando estava com você, essa era realmente a última coisa em que eu poderia pensar.” Uma nova risada, meio soluçada, pensando em como aquilo poderia soar patético se estivesse sóbria e não tão alterada. Então, trocou o peso de uma das pernas para a outra, incomodada com o peso do vestido, com os saltos altos e com a maneira como as lágrimas desciam em profusão por seu rosto, mas silenciosamente, sem que ela alterasse sequer a respiração. “Me desculpe.” Repetiu num tom de voz claramente embargado e abalado. Enfim, ela acabou soltando o tecido da camisa alheia, meio a contragosto, completamente hesitante e visivelmente desnorteada quanto ao próximo passo que deveria tomar. Levou ambas mãos ao rosto para tentar se livrar do choro inconveniente, enquanto balançava a cabeça em negação. Queria dizer mais coisas, mas sentia nós e mais nós se formando em sua garganta, fazendo com que sua única vontade naquele momento fosse desaparecer do mapa.