O suor parecia sair de todos os seus poros, escorrendo pela ponta de seu nariz e cabelo, pingando no chão. A cabeça baixa estava quase tentando procurar abrigo em meio as mãos que pendiam sem animação, os cotovelos apoiados no joelho. Parecia que todo o peso que pensava sentir durante aquele dia todo finalmente havia encontrado uma posição confortável em seus ombros. Também, depois do discurso praticamente berrado na sua cara pelo treinador, Jae não conseguia sentir nada além de vergonha. Sentia muito por não ter conseguido levar o time à vitória - pior que isso, haviam perdido de lavada - e agora, sentado num banco do vestiário, conseguia repassar com calma todos os movimentos e percebeu que falhara muitas vezes. O time todo estava decepcionado com ele, apesar de muitos baterem em suas costas e dizerem que não era sua culpa somente.
Mas era. Sung reconhecia a importância de sua posição e isso implicava no fato de que qualquer deslize afetaria todo uma tática treinada durante meses. Só que o que parecia dar mais nos nervos do treinador era a briga que quase arranjou. Precisava de um banho. Foi até um dos chuveiros e com a água quente batendo em seu corpo, conseguia refletir que não deveria ter reagido daquele jeito com o outro jogador por causa de um esbarrão; acontecia muito em jogos. O problema é que mais uma vez, sua essência parecia estar fragmentada deixando que seu pior lado escapasse por entre as brechas. Seu humor não era dos melhores: fora visitar a mãe e deu de cara com o pai, que o cumprimentou com um belo “não quero esse traste dentro da minha casa”. Estava magoado e Jae tinha um jeito esquisito de lidar com a mágoa, uma vez que negá-la e negar também sua fraqueza resultava em um estado de estresse e sensibilidade. Só queria ir para casa onde poderia deitar com os fones de ouvido e não pensar em mais nada.
Secou-se, colocou roupas limpas e saiu enquanto esfregava a toalha nos cabelos úmidos. Achou que estava sozinho, mas acabou percebendo que uma figura loira estava ali como a melhor companhia que poderia querer no momento. Ia passar reto porque não estava com humor para os joguinhos existentes entre eles, mas porra, num banco daquele tamanho, Kiho tinha que sentar logo em cima do uniforme que esquecera ali? “Kiho, você pode sair de cima da minha camiseta?” A voz saiu com um tom de aspereza que não tencionava aplicar, porém, só de notar a expressão de deboche estampada naquela cara lavada, Jae sentiu o sangue ferver. Se o outro tinha um problema com ele, que dissesse logo.
A boca entreaberta, o corpo fervendo em chamas e a umidade presente em cada centímetro do seu corpo era o que integrava Nam Kiho. O árbitro apitara e o assobio parecia ter estrondado seus tímpanos por conta dos sentidos aguçados, marcando o fim de mais um jogo e o início de uma batalha que enfrentariam fora do campo. ‘’Uma vergonha!’’ Era o conseguia ouvir do treinador enquanto caminhava para o vestiário na companhia dos outros colegas de time, todos com a postura de quem participara do show de vergonhas como protagonistas da temporada. E ao invés de sentir-se aliviado pelo fim do espetáculo, era naquele instante que os holofotes se viravam para eles e iluminava minuciosamente cada detalhe. As conversas a ala dos chuveiros e dos armários não eram as mesma de sempre, apenas murmurinhos e um comentário dali sobre assuntos aleatórios. Ninguém queria relembrar o placar, ninguém queria relembrar o tombo na classificação do time. Ninguém queria tocar nas raízes dos problemas. Ou melhor dizendo, na raiz do problema.
Seria tolice da sua parte e de qualquer outra pessoa dizer que erros se cometem sozinhos. Não, erros são consequências de processos feitos anteriormente, que em determinada etapa, fora corrompido por substâncias -escolhas- estranhas que se mesclaram até formar o produto final. Ou seja, uma coisa dependia da outra. Em cada passo havia uma ilha de botões que levariam a outra ilha e assim sucessivamente. E acertá-las de primeira, bem, era impossível. Nesse contexto, pessoas do time inteiro cometeram que no final os levou a um erro em grupo. O mesmo havia ocorrido com Jae. As más escolhas durante o jogo trouxe consequência, os erros. A raiva o corrompeu e assim abriu portas para que outros erros fossem cometidos, como a briga com o jogador adversário. E pronto, o produto final era composto por: perder + quase briga que somava-se a uma bola de estrume que provavelmente teriam que engolir a força pelo treinador Lee. Porém, mesmo com toda essa história de reconhecer o erro em grupo, não era novidade o capitão ter uma grande parcela de culpa. E claro, também não era novidade Kiho fazendo de tudo para apontá-la.
Estava estirado no banco desde o primeiro minuto que entrava naquela ala do vestiário, apenas deixando que sua mente barulhenta trabalhasse enquanto sua boca mantinha-se calada na companhia da garrafa de água, sua fiel escudeira. A imagem exterior era de alguém muito cansado, mas a interior ainda continuava em constante atividade para canalizar seu descontentamento com toda aquela situação. Cada vez mais o lugar ia se esvaziando, as vozes se tornavam distantes e abriam espaço para que o silêncio engolisse cada ruído do ar... Mas dentre todos os sons que Kiho gostaria que interrompesse o ritual, aquele era sem dúvidas, o mais estridentes da face da terra. ‘’O que?’’ As pálpebras se abriram com certa dificuldade após virava o pescoço na direção do garoto. E o pequeno príncipe ataca novamente. Refletiu enquanto passou segundos encarando a postura maioral de sempre. “Nem depois de toda essa porcaria você é capaz de baixar sua bola, Jae?” As palavras escaparam de seus lábios antes mesmo de calcular sobre que os elas tratavam, inclusive antes mesmo de enxergar o pano preto debaixo de sua bunda.
“Já parou para pensar que esse seu ar de superioridade, de quem pode tudo, de quem faz tudo, talvez seja a raiz do problema?” Ainda que a intenção se tratava do jogo, era como se se toda sua fúria reprimidas por N razões tivessem achado um fresta para finalmente se manifestarem, independente do sentido que elas poderiam gerar ao serem arremessadas em uma frase só. ‘’Você já refletiu isso, capitão?” O tom acusatório tomou controle de Nam, que levantara do banco em um salto e começava se aproximar de Jae.