UM SOCO NO ESTÔMAGO
"Bacurau" é um apelo para que resgatemos nossa principal arma de resistência: a nossa identidade. Sem ela, é fácil para o outro desumanizar, destituir e aniquilar. É por meio da identidade que marcamos território e impomos respeito. Quando descaracterizados, viramos uma massa homogênea passível as mais variadas formas de violência. É um filme necessário pra refletir sobre a importância de sentir que pertencemos ao mesmo lugar. Quando os forasteiros oriundos da região sudeste matam seus "iguais", fica clara a ferida exposta por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
Fingimos o tempo todo que somos o "diferente". "Bacurau" exalta as insígnias identitárias de um povo...o NOSSO POVO, aquilo que somos e o que nos torna semelhantes. Mostra um Brasil dentre os "Brasis" que existem e do qual pouco ouvimos falar porque ignoramos e viramos as costas. "Quem mora em Bacurau é o quê?", pergunta a forasteira, que ouve de um garoto inocente a ávida resposta "é GENTE!". Sim, eu chorei nesse e em outros instantes. Negamos os contrastes, nossas características e a miséria que nos assola. Negamos os sujeitos. Enquanto isso acontece, interesses externos podem chegar no Brasil a qualquer momento e tomá-lo completamente para si.
O momento político atual é assombroso nesse aspecto. A política subserviente interna quer destruir nossa cultura, ciência, saberes, patrimônio e história devido uma lógica de dominação e subordinação neocolonialista. Em analogia, os "forasteiros" que ocupam o executivo, o legislativo e o judiciário desconhecem o nosso povo; o apetite deles é pela destruição da ideia de uma identidade nacional. Dialogam com interesses que não são os nossos. Lembrei do Mbembe que recorreu a noção de biopoder (Foucault) e estado de exceção (Agamben) para formular o conceito de NECROPOLÍTICA.
Esse conceito ajuda a compreender que "as várias maneiras pelas quais, em nosso mundo contemporâneo, as armas de fogo são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar ´mundos de morte`, formas únicas e novas de existência social, nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o estatuto de mortos-vivos.” E é contra essa lógica que os habitantes de Bacurau insurgem...usando as MESMAS ARMAS DOS INIMIGOS QUANDO NECESSÁRIO.
Os tiros saem de dentro das casas e, em certa medida, parece que a própria Bacurau está revidando os ataques. As pessoas, unidas, se tornam um ser só. No esboço da banalização da violência e da desumanização, temos a imagem dos caixões. Um caminhão cheio deles era a principal forma de "assistência social" para o lugar. Imagem assustadora até mesmo pra quem estava tomado pela impiedade, no caso, os gringos. É forte. Intenso. Tem muito a nos dizer sobre as formas de reagir ao neofascismo que mata...seja pelo regaste da história (o museu no centro da cidade), pela arte (o violeiro), pela gastronomia (Domingas)...ou até mesmo apelar para a violência, como última forma de resistência.
"Bacurau" é o despertar. RESISTIR SEMPRE!














