o homem e a planta
esbarra na planta
uma de suas folhas cai
diante dela
se desculpa
a linguagem é tudo o que tem

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@poucaluz
o homem e a planta
esbarra na planta
uma de suas folhas cai
diante dela
se desculpa
a linguagem é tudo o que tem
¨
não estou dormente
há vida em volta de mim
minha mente anda com pressa
os tempos não se alinham
mas não estou atrasado
estou vivo
nem fora nem dentro
agora
não se fixar ao chão
se fixar em uma plataforma móvel
que desliza pelo chão
ou pelos ares
para deixar a plataforma
e se perder entre terra e céu
¨
e se o futuro estivesse atrás?
se o futuro estivesse à esquerda?
¨
a planta que murcha sem água
me fala do tempo que passa
***
em dezembro não sonhei
palma mater
nós coletamos cada espécime e propagamos através dos continentes as sementes, os ovos, os inóculos, dos insetos, das plantas, das aves, dos peixes. exemplares das coleções, ornamentações, o que é mato a gente tira e joga fora. frutíferas, florindo, vegetais da ásia na mesma floreira lotada de mato da América do Sul. caju da América do Sul. mas não tinham trazido da frança? fruto roubado é melhor que fruto queimado. fruto da terra e do mar não é roubado. que fique a palmeira, que os raios derrubem os impérios!
ralo raiz, 2018
no ralo a raiz
os nutrientes
aranha
as ações de nossos ancestrais se multiplicam através do tempo e repousam por debaixo da pele dos seres das gerações seguintes. com as condições favoráveis as partículas se agitam e em um ricocheteio se revela a teia de relações que de tão transparente parecia invisível. mas agora que estou preso na grande teia, como uma daquelas formigas que ganha asas durante as chuvas e voa cega para a luz, não posso mais negar sua opacidade. mesmo sem conseguir enxergar todos os detalhes que sustentam essa estrutura translúcida, a fibra pegajosa que segura todos os meus membros me segura também na realidade enquanto tento atirar minha própria mente para longe do meu corpo pendurado. não me movo e penso: até que momento continuarei a pensar se a aranha aparece para devorar-me a cabeça?
***
a luz dessa cozinha tá cada vez mais fraca e hoje especialmente me pareceu uma iluminação vinda de um sonho, aspecto de amanhecer em plena noite, luz baixa com sombras. lá vem o gato com a sombra dele. adiei tanto a escrita e a vida. o lance é esse, dar os pulos nos momentos certos. esses dias tô pra espocar com a solidão e com o sofrimento no mundo. a galera realmente opera nessa de autopreservação o tempo inteiro, mesmo se dizendo pelo coletivo. é da hora de subir no ônibus até a hora de enfiar comida na boca. naturalmente essa imposição de si nos espaços é mais ou menos essencial pro indivíduo dependendo de seu recorte social cultural econômico + + + + mas de qualquer forma ainda há uma obrigação quase geral de se colocar em primeiro lugar. quem pode negar ajuda? quem pode negar comida? quem pode negar visibilidade? quem pode negar a identidade?
***
chove o dia todo. as poças no chão preto piche e o ar gelado pra quem toma sol nas costas o ano todo. daquela rua de uma esquina a outra era só cheiro de mofo. só o senhor que varria a calçada quebrava a rua no meio com o cheiro de cigarro. mas o resto era mofo. apagão. de repente achava que era um planeta ou cometa bem vermelho. a gente se encontrou do outro lado.
o semblante determinado e atento daquele que sofre com as turbulências mas encontra fortalecimentos ao seu redor e em si mesmo para seguir olhando e sendo olhado. os olhos bem atentos as mãos habilidosas são a prova da destreza do ser que encontrou a chave para manter girando a roda da existência.
um cachorro com máscara preta descansa no meio da noite de fortaleza. um buraco afundado no seu crânio bem em cima de seu terceiro olho. parece mesmo aquelas cavidades do crânio que recebem os olhos. ele é violento! grita uma figura que surge na esquina. ele morde! enquanto acaricio a cabeça do cachorro sentindo as bordas do seu terceiro olho grito de volta pra figura que abana os braços e some na curva. os cachorros têm olhos mais doces.
olho de tigre, 2018