Capítulo 165 - A história do Fred
Eu: Desculpa me intrometer, mas tu quer falar o que com ele?
O Matt me olhou feio, mas pelo menos eu pedi desculpas no começo da frase, o que já um grande avanço pra mim. O Fred pode ser mesmo esquisito, mimado, vaidoso, mas se tem uma coisa que não combina com ele é mau humor. E ele tava irritado demais com a presença da mãe dele pra eu não estranhar.
Mãe do Fred: Ah, coisas de mãe e filho. Tu sabe. Eu: Na verdade não. Minha mãe saiu de casa quando eu tinha dezessete anos e a gente só se viu umas duas vezes depois disso. Mãe do Fred: Hm. - ela claramente não sabia o que falar. Eu: Mas eu to tranquilo. Mãe do Fred: Eu e o Frederico também não costumamos nos ver muito. Mas é por escolha dele, que fique claro.
O Matt me olhou de canto. Pude ver nos olhos dele algo parecido com um pedido de socorro.
Matt: Eu vou falar com o Fred, ver como ele tá. Quem sabe eu consigo convencer ele a falar contigo pra tu não perder a viagem.
Ele nem esperou a gente responder e já saiu em direção ao quarto. Não dava pra saber se ele tava fazendo aquilo por pura bondade ou se só queria se safar daquela conversa embaraçosa.
Mãe do Fred: E então... Como estão as coisas? Eu: A gente já falou sobre isso. Tu já perguntou se tava tudo bem. Mãe do Fred: Tu tá sendo ríspido comigo ou é impressão minha? O que houve?
Eu realmente não consigo disfarçar. O que quer que eu sinta fica estampado na minha cara.
Eu: Impressão tua. E as viagens, como tão? Tu veio de onde agora? Mãe do Fred: Menino, acabei de voltar de Mallorca, conhece?
Eu não sabia se aquilo era um país, um aeroporto ou uma lanchonete.
Eu: Acho que não. Mãe do Fred: É uma ilha na Espanha. Ma-ra-vi-lho-sa! Um sonho realizado!
Queria saber o que uma pessoa que acaba de voltar de uma ilha paradisíaca para milionários pensa quando se senta num sofá encapado de tecido verde limão cheio de marcas de cigarro.
Eu: E qual é o próximo destino? Mãe do Fred: Ainda não sei. Estou pensando em Myrtos.
Continuo sem saber do que se trata. Mas sorri.
Mãe do Fred: Mas talvez eu volte pra Mallorca, fiquei simplesmente apaixonada. Eu amo sol, praia, calor, tu sabe! Aqui já tá fazendo frio pra mim. Sol é vida, deixa as pessoas mais felizes, alegres, bem humoradas, saudáveis, tem vitamina D...
Dava pra perceber de longe que a mãe do Fred era o tipo de pessoa que passava os 365 dias do ano bronzeada. Também dava pra perceber de onde o Fred tinha puxado o falatório.
Mãe do Fred: Tu não gosta muito de sol, né? Eu: Por quê? To muito branco? Mãe do Fred: Branco e com a cara fechada. Parece o Frederico! Cansei de tentar levar ele pra praia. É filho de inglês mesmo. Eu, se puder, acompanho o sol ao redor da Terra pra não precisar pegar nem um diazinho de frio sequer. Eu: E como tu que odeia tanto o frio fez pra morar com o Fred na Inglaterra?
Antes que ela pudesse me responder, vi o Matt discretamente me chamando do corredor, pedindo pra que eu fosse até lá.
Eu: Eu vou no banheiro e já volto. Tu pode ficar à vontade, beleza? Mãe do Fred: Ah, tudo bem. Obrigada.
Fui até o Matt, ele entrou no banheiro e pediu pra que eu fosse junto. Assim que fechei a porta, perguntei pra ele o motivo daquele mistério todo.
Matt: O Fred não quer falar com ela nem fodendo. Eu: Quê? Mas por quê? Matt: Eu não sei! Ele não quer falar com ela e não quer me contar o motivo. Eu: Caramba. Se o Fred não quer falar sobre alguma coisa, é porque o negócio tá feio mesmo. Matt: E agora? O que a gente faz? A mãe dele tá aí esperando. Eu: Eu sei lá, Matt! Essa treta não é nossa. Matt: Lá vem tu de novo tentando se safar de ajudar os outros. Primeiro a Marcela, agora... Eu: Ajudar? Eu to fugindo de encrenca, isso sim! Matt: Eu não posso ficar aqui. Preciso sair pra uma entrevista. Tu se incomoda de ficar sozinho com os dois? Eu: Me incomodo. Eu já não curto ficar sozinho com o Fred porque nunca sei o que esperar, imagina ficar com ele e com a mentora dessa loucura toda que ele tem. Matt: É... O jeito é pedir educamente pra ela ir embora, porque o Fred não quer cooperar. Só precisamos pedir e explicar com jeito, ela vai entender. Eu: Boa. Solução prática.
O Matt concordou com a cabeça, parecendo confiante. Vamo nessa. Abrimos a porta do banheiro e fomos até a sala. Cheguei anunciando:
Eu: A gente quer que tu vá embora. Matt: Porra, Thommo!!! Mãe do Fred: Oi?! Eu: Tu veio aqui pra falar com o Fred, ele não quer falar contigo. Acho que é isso.
Ela fechou a cara e fingiu que eu não existia. Me empurrou pro lado com o braço cheio de pulseiras tilitando e saiu batendo o salto em direção aos quartos. Primeiro abriu a porta do banheiro.
Mãe do Fred: FREDERICO!
Depois, abriu a porta do quarto do Felipe.
Mãe do Fred: Tu vai falar comigo AGORA!
Abriu a porta do meu quarto.
Mãe do Fred: Quer tu queira...
E, por fim, a porta do quarto do Fred.
Mãe do Fred: Quer não. Fred: EU NÃO QUERO FALAR CONTIGO! Mãe do Fred: PROBLEMA TEU!
Ela bateu a porta com toda força, e mesmo assim dava pra ouvir os dois berrando do lado de dentro. Eu e o Matt ficamos parados olhando.
Matt: Bom, acho que é isso. Vou nessa. Eu: Boa sorte na entrevista. Matt: Valeu. Acho que agora vai.
Ele saiu de casa e eu fui pro meu quarto passar o tempo. Peguei um livro amassado no meio das coisas do Dudu e sentei na minha cama pra ler. Era difícil me concentrar com o barulho vindo do quarto do Fred, mas depois de um tempo tu te acostuma com qualquer coisa. O nome do livro era Subliminar e falava sobre a influência do insconsciente nas nossas vidas. Que viagem.
A treta do Fred e da mãe dele durou uns vinte minutos. E foram vinte minutos de briga insana, nos quais eles não passaram nem dez segundos sem berrar, especialmente o Fred. Só soube que tinha terminado quando ouvi os saltos da mãe dele batendo cada vez mais longe, até terminarem no barulho da porta da sala fechando. Ela finalmente tinha ido embora.
Pensei em ir até o quarto do Fred perguntar se tava tudo bem, mas se bem conheço ele, daqui dois segundos ele vai aparecer aqui metendo o pau na mãe dele e contando a história toda, em detalhes que ninguém tem o menor interesse em saber.
Mas ele não veio.
Eu: Fred?
Ninguém respondeu.
Eu: FRED!
Caralho. Vou ter que ir até lá? É, me levantei e fui até lá. Encontrei o Fred sentado na cama do Matt, abraçado nos joelhos e encarando a parede da frente.
Eu: Fred, e aí? O que tá pegando? Fred: Vocês são uns merdas. Por que deixaram ela entrar? Eu: Tu queria o quê? Que eu imobilizasse ela?
Eu nem sei fazer isso.
Eu: Mas o que aconteceu? Por que tu tá tão irritado com ela? Fred: Ah, sei lá. Eu: Fala aí, meu. Não acredito que vou precisar insistir pra tu falar alguma coisa nessa vida. Fred: Tu sabe o que ela veio fazer aqui, não sabe? Eu: Eu deveria. Fred: É... Acho que não. Eu: Então, me fala o que foi. Fred: Caralho, Thom. Eu: Fala, porra!
Ele bufou.
Fred: Eu sempre ganhei mesada do meu pai, tu tá ligado. Eu: Eu imaginei que sim. Fred: E eu acabei de fazer dezoito anos! Eu: E? Fred: E, teoricamente, ele não tem mais obrigação nenhuma comigo. Eu: Mas tu continua ganhando mesada, certo? Ele continua pagando? Fred: Continua, mas é que... Porra, é foda. Eu: Tu vai precisar me explicar com mais detalhes. Eu não faço a menor ideia de como são os problemas de quem tem dinheiro de mais. Fred: Pra resumir, a minha mãe veio aqui fazer o que ela sabe fazer de melhor. Eu: Tomar sol? Fred: Não, veio ver como tava a fonte inesgotável de dinheiro dela, que agora corre o risco de não ser mais inesgotável.
...
Eu: Não entendi ainda. Fred: Sou eu, Thommo!!! Eu sou a fonte de dinheiro inesgotável. Ou pelo menos era. Agora eu tenho dezoito anos, não preciso de mais ninguém pra cuidar das minhas contas, posso fazer o que eu quiser com o dinheiro. E adivinha quem tá preocupada com isso? Eu: É lógico que ela fica preocupada, Fred. Tu é tão sem noção que é capaz de comprar um cavalo de cada cor com esse dinheiro. Fred: Não, Thommo! Ela não tá preocupada COMIGO. Ela tá preocupada com ela! Eu: Como assim? Fred: É ela que recebe BOA PARTE do dinheiro! Entendeu? Se ele não tem mais obrigação comigo, ele tem muito menos obrigação com ela. Se do dia pra noite eu resolver sumir do mapa, coisa que eu to louco pra fazer, ela não pode mais nem querer saber da minha conta bancária. Ou pior: se um dia meu pai não quiser mais me mandar dinheiro nenhum, ela se fodeu.
Eu não sabia nem o que falar. A gente pensa que todos os nossos problemas poderiam ser resolvidos com um saco de dinheiro mensal, mas pelo jeito as coisas não funcionam bem assim.
Fred: "Se fodeu" é exagero, porque ela já deve ter outro rico idiota pra bancar ela. Eu: Tá, mas e aí? Por que essa raiva toda? É só tu falar que agora tu é responsável por si mesmo e que espera que ela leve uma boa vida longe de ti. Fred: Como se fosse simples assim. Tu abriria mão de uma bela quantia de dinheiro por mês assim, fácil? Eu: Se fosse do meu filho, sim.
Ele olhou pro chão. É, entendi.
Fred: É o que se espera que uma mãe faça.
Me sentei no chão pra terminar de ouvir a história. Ficamos um tempo em silêncio antes de continuar.
Eu: E o que tu vai fazer? Fred: Eu não sei. Ela vai me encher o saco até eu criar algum vínculo com o meu pai. E óbvio que não se trata de vínculo emocional, porque isso a gente nunca teve. Ela quer criar alguma obrigação dele comigo. Me colocar pra trabalhar pra ele, ou ela vai entrar na justiça e me usar contra ele, eu não sei. Fico cansado só de pensar. Eu: Que merda, Fred. De verdade, eu não sabia que era assim na tua casa. Fred: O quê? - ele riu com deboche. - Tu não sabe da metade. Tu não sabe 1%.
Ele sacudiu a cabeça, olhando pro chão, provavelmente se lembrando de alguma coisa do passado.
Fred: Eu queria amar alguma coisa do jeito que minha mãe ama dinheiro, só pra saber como é. Eu: Que frase triste. Fred: É foda.
Ele coçou a cabeça, olhou pro chão de novo. Eu não sabia o que falar, nunca tinha passado por algo daquele jeito. Talvez fosse melhor ficar quieto.
Fred: Eu nem sempre fui assim, sabia? Eu: Assim como?
Ele apontou pra si mesmo.
Eu: Com cabelo branco? Fred: Não... Com cabelo branco definitivamente não. - ele riu. - Mas, assim, do jeito que tu me conhece. Eu: Vai dizer que tu era quietinho? Fred: Não, nem fodendo. Isso eu nunca fui. Pelo contrário. Causar era o jeito que eu tinha pra chamar atenção dentro de uma casa com milhões de cômodos, empregadas e mil outras coisas mais interessantes que tu, uma criança hiperativa. Eu: No que tu mudou então?
Ele ficou quieto por uns segundos, talvez pensando se devia mesmo falar sobre aquilo ou não, mas continuou.
Fred: Eu me preocupava pra caralho com os outros. Pra caralho. Me preocupava com o que pensavam sobre mim, se eu tava agradando, se eu incomodava. E eu tinha a sensação de que tava incomodando o tempo inteiro. Atrapalhava o trabalho do meu pai porque queria mostrar pra ele um desenho que eu tinha feito, atrapalhava a vida da minha mãe porque obrigava ela a morar num país que ela odiava, atrapalhava as babás que preferiam estar curtindo os filhos de verdade delas em casa ao invés de cuidar de um capeta mimado feito eu por dinheiro.
Achei melhor continuar quieto.
Fred: Não é à toa que eu fico bravo quando vocês me zoam porque eu tinha tudo que eu pedia pros meus pais. Tu tá ligado, a gente só fica puto com algo que dizem sobre a gente se a gente concordar com aquilo. Por exemplo, se alguém me chamar de feio, eu nem vou ligar.
Silêncio.
Fred: Porque eu não SOU, Thommo. Entendeu? Eu: Acho que sim. Fred: Eu era mimado mesmo, tinha tudo o que eu queria, a qualquer hora do dia. Mas pergunta pro meu pai com quantos anos eu aprendi a ler. Eu: O meu não deve saber também. Fred: E tu se considera um cara normal? Feliz, equilibrado?
Fiz que não com a cabeça. Golpe baixo.
Fred: Meu pai não era melhor que o teu, Thommo. A diferença é que ele passava uns 6 meses do ano viajando. Eu: Não sei se isso é melhor ou pior. Fred: Nem eu. Fato é que eu cresci com esse remorso forte pra caralho em mim. Eu aprontava, era o pior aluno da sala, mas só pra chamar atenção. Eu não queria ser incômodo. Queria fazer os outros rirem ou mostrarem que se importavam comigo. Era a glória quando a professora me chamava pra conversar depois da aula e falava que tava preocupada comigo, porque eu era muito bagunceiro. Pra tu ter ideia, eu fiquei feliz quando me mandaram pro psiquiatra com 6 anos de idade, porque era sinal de que alguém tinha reparado em mim.
Ele coçou a garganta.
Fred: Mas sabe, eu era um troxa de primeira. Fazia tudo pra todo mundo. Se minha irmã escrota me mandasse descer quatro andares pra buscar um copo d'água pra ela, eu ia. Se ela me pedisse e eu não fosse, eu não conseguia nem dormir à noite de tanta culpa que eu sentia. E todos os dias eu tentava arrumar um assunto pra conversar com a minha mãe sobre o qual ela pudesse se interessar, mas tudo se limitava a "aham", "entendi" e "que roupa é essa que colocaram em você?". E eu me sentia um babaca por não prestar nem pra entreter. Eu: E essa coisa com mulher? Tu sempre foi assim? É real quando a gente zoa que tu perdeu o BV com a professora na pré escola? Fred: Cara, vou te falar a real. Não é mentira quando eu falo que eu sou apaixonado por todas as mulheres. Se existe um ser superior, a melhor criação dele, de longe, foi a mulher. E eu já era assim na pré escola. Só que cada vez eu me apaixonava por uma guria diferente da sala. E sempre me fodia, óbvio, porque eu me preocupada DEMAIS com elas e com o que elas pensavam sobre mim. Era angustiante. Eu: E aí? Fred: E aí eu tive meu primeiro psiquiatra, com 6 anos. Ele me receitou tanto remédio que eu passava metade do dia dormindo e outra metade sem falar nada.
Meu estômago revirou quando ouvi aquilo. Não dava pra imaginar um Fred de 6 anos naquela situação, dopado.
Fred: Eu odiava aquilo e sabia que era culpa do remédio, mas não queria ser um problema pra minha mãe. Ela parecia feliz com a minha nova personalidade, por mais que ela fosse moldada à base de Ritalina, Concerta, Venvanse e sei lá o que mais eu tomava. A oferta de remédios era muito maior lá do que aqui. Eu só diminuí as doses depois que a minha professora da escola estranhou meu comportamento, que ultrapassava o de moleque quietinho pra chegar no moleque zumbi.
Eu tava com os olhos vidrados no Fred. Parecia que eu tava sonhando com aquela história, porque parecia coisa de filme.
Fred: E aí ela me chamou um dia pra conversar. Eu tava tão sonolento que nem consegui terminar a frase "eu não gosto de ficar assim". No dia seguinte, ela indicou um outro psiquiatra pra minha mãe. E lá fui eu pra outro, e mais outro, e mais outro... Cada vez um novo remédio, mais alguns meses pra me adaptar, enjoos, dores de cabeça, ataques de ansiedade, de euforia, de depressão, tudo de uma vez. Eu não aguentava mais. Não queria desapontar ninguém, mas também não queria viver passando mal todos os dias. Até que uma vez, quando uma das babás tava indo embora, eu segui ela. Eu sei lá qual era a minha intenção com aquilo. Talvez fosse fugir de casa. Era uma ideia bem estúpida porque, óbvio, assim que ela me notasse, ela ia me mandar de volta pra casa. Mas eu fiz isso mesmo assim.
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