“... Não sei se você sabe, é muito provável que não, mas... Eu cresci num convento.” A voz suave tinha um quê quase confessatório. Intimista. “Freiras, cânticos, missões para ajudar os necessitados... se eu fechar os olhos, ainda consigo lembrar o som das missas de domingo ecoando pelos corredores.” Descansando das pálpebras, pôs um sorriso nos lábios que dava a entender o quanto se deixava levar pelas memórias longínquas -- Ainda que, na realidade, as odiasse. Seu passado era uma pedra no sapato que, quando conveniente, recorria a tratar como uma pérola perdida; algo precioso e que, certamente, tornava-na única. Achava hilário como aquelas quatro palavrinhas transformavam-na numa santa perante a maioria dos ouvintes. “Tudo isso... toda essa violência e, por Deus, deuses!” Os olhos abertos tinham agora uma pitada de angústia. “Às vezes me pergunto se não estou presa num pesadelo.”















