Open your eyes, and share this burden somehow
Personagens: Kim Dokyun (Ryo) & Wen Yeongsuk (Flora) Classificação: +14 Observações: Privado (quarto de Flora).
Assim que o ensaio da banda acabou entrou direto no carro do manager, tentando evitar os outros membros. Queria evitar questionamentos pela pouca presença do baterista durante o dia, assim como a falta de ânimo do mesmo. O caminho foi sem falar uma palavra, afundado no banco do carona enquanto mandava uma mensagem para a amiga. Avisava por mensagens de sua futura chegada, essa qual felizmente – ou infelizmente – não demorou para ocorrer. O caminho até o quarto alheio também foi rápido, principalmente quando mais parecia um fantasma pelo campus da escola do que alguém realmente vivo, fazendo a maioria das pessoas o evitarem. Estava destruído, com cara de poucos amigos, olheiras profundas e estranhamente cansado.
Parado a porta de Flora, deu algumas batidas apenas para anunciar sua chegada, entrando sem rodeios no quarto já bem conhecido. — Boa noite, Flor. — Sorriu da melhor maneira que conseguia naquele estado, sentando-se sobre a cama da garota enquanto respirava fundo, rindo de forma fraca e soprada de si mesmo. Não conseguia nem mais esconder seu estado através de piadas ruins e sorrisos falsos, que decadência. — Como você ‘tá? Porque eu estou um lixo.
Flora chegou exausta do treino que havia acabado de ter. Tinha treinado por uma hora extra à pedido de Victoria naquela tarde e o esforço feito em combinação com as noites mal dormidas mais a falta de comida havia deixado a menina acabada. No entanto, não si deixara transparecer. Assim que voltou para o quarto, teve certeza de que as coisas que havia comprado naquela tarde ainda permaneciam onde estavam e correu para o banheiro, esperando que a água quente fosse lhe revigorar. Estava penteando os cabelos molhados em frente ao espelho quando Ryo chegou, a voz baixa e o barulho da porta denunciando sua presença.
Ao sair do banheiro, viu o menino se sentar em sua cama, e nos poucos segundos que o encarou foi possível notar a aparência de "lixo", como ele havia descrito. Não é preciso mencionar que apenas aquilo já deixou Flora extremamente preocupada, mas tentou apenas passar conforto enquanto trazia a sacola plástica consigo para a cama. — Você tá com uma carinha péssima. — Foi a primeira coisa que disse ao se sentar na própria cama, um bico em seus lábios enquanto levava uma das mãos para o lado do rosto de Ryong, deixando ali uma carícia leve. — Eu ‘tô bem, um pouco cansada. — Deu de ombros, voltando as duas mãos agora a sacola a sua frente. Tirou dali os kimbaps que havia prometido, assim como alguns doces, refrigerante e o remédio para dor de cabeça. — Aqui, ó. Espero que coma tudo direitinho. — A menina falou brincalhona, esperando trazer um sorriso para o rosto do amigo ao lhe entregar o que havia comprado.
Era difícil acreditar algumas vezes em como Flora ainda mantinha aquela amizade, mesmo Ryo tendo mostrado quase tudo de seu pior lado à ela. E era ainda mais difícil de crer depois do que fizera na festa de sábado, não conseguindo compreender nem um pouco. Mas lá estava ela sendo cuidadosa como sempre, sem pedir por uma explicação ou forçar para que o baterista lhe contasse o motivo da péssima cara que tinha. Como um gato cansado e manhoso, colocou um pouco do peso de seu rosto sobre a mão feminina, fechando os olhos de forma costumeira diante da carícia. Havia sido uma boa escolha passar por ali, no fim das contas. A presença da mais velha conseguia lhe acalmar, mesmo que não por completo, não a sua cabeça que sempre trabalhava a mil com o pessimismo marcado a ferro quente.
— Eu estou péssimo. — Confessou, sem forças para negar qualquer coisa, principalmente por já estar extremamente aparente. Suspirou baixo quando tivera de se recompor, tentando sorrir de maneira um pouco mais amigável que antes. No fim, tomou posse do remédio, retirando uma pílula e bebendo-a com o refrigerante. Em seguida, pegou um dos samgak kimbaps oferecidos, abrindo-o sem a menor pressa e vontade de ingeri-lo. Só iria fazer aquele esforço por não querer preocupar a amiga mais do que já fazia. — Os treinos andam pesados ou só tem dormido mal mesmo? — Tentou sair de uma conversa unilateral, mesmo sabendo que no fim era provável que terminariam onde não gostaria de chegar.
Flora observava os movimentos de Ryo de maneira cautelosa, controlando-se para não deixar a preocupação que sentia transparecer ao ver que o menino não parecia ter nem um pouco de fome. Diferente do menino, Flora abriu o pacotinho de maneira rápida, já dando uma mordida na comida apressadamente. Estava morrendo de fome, não podia negar. Não comia nada que saísse de sua dieta já faziam alguns meses e, sem tempo, mal tivera a oportunidade de colocar qualquer coisa em sua boca nos últimos dias. Com os lábios sujos com grãos de arroz em um de seus cantos, a menina ouviu o mais novo com atenção, e mais uma vez deu de ombros como resposta. — É uma combinação dos dois, acho... mas não é nada que eu não aguente. — Ela respondeu, oferecendo um sorriso seguro ao amigo mesmo que mentisse.
Flora mal conseguia se aguentar em pé nos últimos dias, mas nunca admitiria isso quando Ryong claramente estava em uma situação muito pior do que ela, e a última coisa que queria era colocar mais problemas em seus ombros. Muito menos quando a aparência do menino por si só já parecia como um reflexo das ações da argentina naquele último sábado. Tomou um gole do refrigerante que trouxera e o encarou mais uma vez, a voz serena e reconfortante como costumava ser. — Você quer falar sobre o que aconteceu? Ou quer deixar pra lá? Você não precisa falar se não quiser.
Não pode ficar sem sorrir – mesmo que de forma singela – diante da cena fofa, onde Flora até parecia uma criança. Ao mesmo tempo, abaixou o rosto, querendo esconder o momento. Decidiu mordiscar um pedacinho do Kimbap que desceu pesado, exatamente como imaginava. Assentiu com a cabeça diante da resposta, mesmo percebendo que não era bem assim. A amiga conseguia enganar algumas vezes, mas não daquela vez. Porém decidiu deixar de lado por agora, principalmente quando passava por sua cabeça as possibilidades de motivos. Os olhos quase felinos de Dokyun, entretanto, evitavam olhar nos dela quando direcionados para si. Não tinha uma razão exata para isso, provavelmente só não queria se sentir mais vulnerável do que já estava.
E como imaginava, a pergunta que não poderia evitar – mas queria – era posta em jogo, causando-lhe um nó na garganta onde quase não o permitiu falar. — No caso falar de todas as merdas que eu sempre faço, ou a merda específica que eu fiz com a gente? — Segurou com muita força o riso irônico, ingerindo um pouco do refrigerante aberto antes de deixa-lo de canto junto com o Kimbap. A verdade era que depois de beber sem parar três dias seguidos, o baterista só precisava mesmo de muitos litros d'água. — Quase acabei com a nossa amizade, Flora... E pra piorar, devo ter afundado completamente a sua amizade com o Hayato. Eu... Eu queria te beijar, mas não queria que fosse daquele jeito. Nem sequer sei o que deu em mim na hora, só... Não aguento mais ser tão impulsivo e fazer tudo errado por isso.
As palavras que deixaram os lábios do mais novo acertaram Flora em cheio, fazendo-lhe desviar o olhar por um momento breve. Tudo aquilo havia acontecido por causa dela, e ali estava Ryong, levando a culpa por tudo. A menina sentiu o coração afundar, ver o melhor amigo daquele jeito estava sendo mais difícil do que imaginara que seria. No entanto, logo recompôs a postura que não podia perder, pelo menos não naquele momento. Mais uma vez encarando o mais novo, sorriu serena ao levar a mão ao rosto quente, deixando carícias não apenas em sua pele mas também em seu cabelo agora claro.
— Você não fez merda nenhuma com a gente, Ryo... não fale uma coisa dessas. — Ela falou, sentindo a urgência de abraçá-lo mas mantendo sua distância. — Nossa amizade é importante e forte demais pra acabar por causa de um beijo, você não acha? — A menina perguntou, mas não esperou pela resposta, apenas se aproximou de Ryong, plantando um selar em sua testa. — E a culpa foi minha, aliás. Eu também queria te beijar, até pensei em fazer, mas não deveria ter feito o que fiz... — Flora mordeu o lábio inferior, sem jeito, ao admitir o que falava. Os olhos agora em uma indecisão entre fugir do menino e encara-lo, a mente da menina estava a mil. Só esperava poder tirar um pouco do peso que Ryong carregava em seus ombros, fazê-lo se sentir um pouco melhor.
A respiração de Dokyun logo ficou pesada, deixando-se levar e relaxar o máximo que conseguia diante dos carinhos alheios. Sua mente, entretanto, não parava um minuto. Novamente martelava aquelas dúvidas que andavam lhe atormentado. Estava confundindo tudo, tinha certeza. Desde que Hayato aparecera na sua vida, o baterista não conseguia mais definir nada do que sentia com certeza e isso era um problema enorme. Não respondeu, apenas balançando a cabeça sem muita vontade e reabrindo os olhos. Não queria permanecer daquele jeito, não mais na frente de Flora. Estava frágil há muito tempo, mas nunca havia demonstrado tanto como agora e ele achava que não precisava disso.
Deixou uma gargalhada baixa, irônica e soprada escapar os lábios enquanto se ajeitava, não querendo acreditar no que ouvia. — Você não tem culpa nisso, Flora... Mesmo que quisesse me beijar. Eu provoquei e eu que te beijei, podia muito bem não ter sido assim. — Não tinha mais receio em encarar a argentina, as sobrancelhas juntas em uma expressão triste e ao mesmo tempo preocupada. E mesmo depois de todo o desabafo, não conseguiu segurar o próprio impulso. Provavelmente o seu maior inimigo naquela vida, uma parte de si que parecia nunca conseguir mudar nem com muito esforço. Repousou uma das mãos calejadas pouco abaixo das bochechas femininas, inclinando-se para mais perto. Quando percebeu o que estava realmente fazendo, já tinha os lábios juntos ao da amiga mais uma vez. Porém, não fizera o mesmo que na noite de sábado, não deu pra trás. Encaixou-os de maneira que ficasse melhor para ambos, pedindo da maneira mais gentil possível por uma abertura. Talvez estivesse fazendo a pior escolha da sua vida, mas agora era tarde demais.
Flora estava pronta para responder as palavras do menino. Falar quer não devia ter feito a brincadeira, em primeiro lugar, e que se não tivesse decidido levar a diante, ele não teria a beijado, e estaria tudo bem. No entanto, suas palavras morreram em sua garganta com a proximidade do garoto. Pensou em se afastar, confusa pelas ações do baterista que pareciam contradizer seus dizeres, mas o pensamento não durou muito tempo. Logo, os lábios da menina tocavam os dele, e se rendendo a suas vontades, sua mão foi até a nuca do mais novo, deixando carinhos leves no local, assim como os lábios se entreabriram, dando-lhe a passagem por qual pedia. Naquele instante, a mente de Flora dava voltas, havia mil e um pensamentos correndo soltos em sua cabeça e a menina só conseguia focar na mão em sua bochecha, os lábios que lhe tocavam e o gosto de Ryong.
A menina se sentia em transe, e mesmo hesitando em fazê-lo, partiu o beijo, mas não se afastou. A mão continuava firme na nuca masculina, seus olhos estavam fechados, e as respirações quentes se mesclavam pela proximidade. Se o menino queria voltar atrás, a hora era agora. — Ryo... — Flora falou baixo, as palavras provavelmente lhe tocando a pele por ainda estarem tão perto. Não queria liderar o amigo a continuar algo do qual se arrependeria, e por isso parara. Mas em silêncio, em sua mente bagunçada, era como se implorasse para que o menino não simplesmente levantasse e fosse embora. Que não simplesmente lhe deixasse ali.
Por um momento não acreditou que estava realmente fazendo aquilo, beijando sua melhor amiga. Mas estava e não podia negar, era melhor do que o esperado. As línguas entrelaçadas moviam-se de forma lenta, combinando com o momento de descoberta para Dokyun. Como havia aguentado esperar tanto tempo? Não sabia. Ali, aproveitando as sensações do ósculo ao máximo sua mente finalmente aquietou-se. Não chegava a conclusão nenhuma, ainda era o mesmo baterista confuso e quebrado de sempre, mas finalmente alguma coisa parecia um pouco mais certa. Ou melhor, menos errada. O polegar áspero pelo uso constante de instrumentos acariciava a bochecha de Flora com carinho, algo que sempre nutriu pela garota. E a vontade era de que parasse no tempo apenas um pouquinho, querendo que o ato durasse mais.
Suspirou levemente frustrado quando tinha os lábios livres, porém recusando-se a se afastar, juntando assim ambas as testas. Queria dizer diversas coisas, mas as palavras emboladas igual seus sentimentos nunca acharam suas cordas vocais, era demais para uma noite só. Por isso, preferiu utilizar mais uma vez de atos, que com Ryo muitas vezes funcionavam melhor que palavras. Juntou os lábios aos de Flora mais uma vez, agora com consciência no ato, reiniciando o ósculo tão profundo quanto o outro, carregado de um desejo diferente qual não tinha pressa em matar.
(...)









