Tw: tortura, branding, insinuações de transtorno de estresse pós-traumático,
Inspo: Camp X-Ray (2014), Questão de Honra (1992), Coragem Sob Fogo (1996) e Road to Guantanamo (2006)
Sobre Pesadelos, Monstros e Demônios
A brisa do mar era o bastante pra me fazer esquecer o porquê estava ali, trancafiado naquele navio, com um amontado de outros marinheiros, rumo à qualquer lugar que fiz questão de esquecer o nome. É ai que o capeta resolve aparecer, para levar de volta ao porão do navio, enquanto os outros estão fora, em algum canto do porto que estamos atracados.
Pela mão, o diabo me guia para a porta de uma cela. Por algum motivo, ele confia em mim, talvez por ser filho do Almirante Jean Jaques Saint Laurent.
- Seu pai ficaria orgulhoso do homem que está se tornando, mon cher. - Balbucia no meu ouvido, colocando a barra de ferro em minha mão. - Agora vá lá, e faça o que lhe pedi, e se tornará o mais jovem Maître Principal** dos últimos 50 anos. - O distintivo de âncora dourado é colocado em meu uniforme, e por algum motivo, aquilo se torna o incentivo que faltava para que eu entre na cela, motivado a cumprir o que o diabo me pede. Afinal, qual o filho que não deseja orgulhar seu pai? Ainda mais, quando se escuta a vida inteira que, o seu melhor nunca vai ser o bastante? Talvez aquilo fosse o suficiente para que o Almirante finalmente me ame como filho das histórias mentirosas que conta aos amigos, invés dos os insultos e comentários desdenhosos que ouvia do próprio pai. Ou que pelo menos, os outros marinheiros me aceitem com um deles, e os olhares de e piadas sobre como não deveria estar ali com eles.
Na cela imunda, com ratos passando por todos os lados, o homem está lá, de joelhos, cabeça coberta por um saco de estopa suja, os braços presos as costas e acorrentado ao chão, sem poder sair do lugar. No fundo, sei que ele não deveria estar ali. É o homem errado, no lugar errado, escolhido apenas para ser o bode expiatório para justificar os tiros que foram dados em alguns civis no cais do porto só por “diversão”. Iriam estampar "terrorista" naquele homem, vendê-lo a imprensa como tal, quando o verdadeiro terrorista estava a bordo, com uma barra de ferro na mão. Mas o capeta não quer saber de justiça, e é uma lição que aprendo da pior forma. Um golpe, um gemido, outro golpe, outro gemido, não consigo ir muito longe. A cada golpe da barra de ferro naquele homem, mais e mais me torno o capeta também. Será que é isso que tenho que me tornar para ser aceito?
- Acabou. Não mais.
E antes que eu perceba, estou junto com o outro homem. A dor excruciante nasce cada vez que o diabo, não sei mais se novo ou antigo, já que agora, são vários me acertam. As costas são a parte favorita deles, ás vezes as pernas e o joelho. E tudo o que sinto é dor, no sentido real da palavra. Por mais que no fundo eu saiba que não tem como aquilo estar acontecendo novamente, que fazem mais de 20 anos que tudo aquilo ocorreu, e que é apenas um pesadelo, no qual posso acordar a qualquer momento, uma parte de mim acredita que tenho que reviver tudo aquilo, que é a única forma de pagar por ter ficado calado e nunca reportado o incidente a oficiais superiores, ao invés de reportado o incidente para oficiais superiores. É uma espécie de terror noturno masoquista, que só para quando o cheiro de carne queimando aumenta, acompanhado de gritos de dor e agonia, com um forte impacto nas costas, seguido do som de algo quebrando.
A medida em que se vai envelhecendo, você vai aprendendo que as coisas que você faz pra sobreviver ou para chegar onde você planeja, é o que causam os pesadelos, na melhor das hipóteses. Os meus, apesar de terem acontecido há anos atrás, ainda os tenho quando menos espero. A última vez que os tive foi na noite passada, ás vésperas do baile de gala. Na verdade, os recebo com tanta frequência que já deveria estar acostumado com eles. Não estou. Ninguém realmente se acostuma com pesadelos, é uma mentira que conto pra mim mesmo, na esperança de que algum dia sumam como mágica, mas lá no fundo, não importa o quanto de terapia se faça, eu sei que eles nunca se vão.