𝐭𝐨 𝐲𝐨𝐮 , 𝐞𝐯𝐞𝐫𝐲𝐭𝐡𝐢𝐧𝐠'𝐬 𝐟𝐮𝐧𝐧𝐲 , 𝐲𝐨𝐮 𝐠𝐨𝐭 𝐧𝐨𝐭𝐡𝐢𝐧𝐠 𝐭𝐨 𝐫𝐞𝐠𝐫𝐞𝐭 & 𝐢'𝐝 𝐠𝐢𝐯𝐞 𝐚𝐥𝐥 𝐈 𝐡𝐚𝐯𝐞 𝐡𝐨𝐧𝐞𝐲 𝐢𝐟 𝐲𝐨𝐮 𝐜𝐨𝐮𝐥𝐝 𝐬𝐭𝐚𝐲 𝐥𝐢𝐤𝐞 𝐭𝐡𝐚𝐭 . ( point of view : 001 )
um ano atrás. escritório de leyla, cabana da família aguirre-thomas, oregon.
— eu já passei muito tempo longe dela. — harvey argumentou, sua voz firme enquanto ele tentava não perder a razão. ele não sabia que aquela viagem se tornaria aquilo, mas agora já era tarde demais para recuar.
harvey tinha aproveitado seu feriadão para ir visitar sienna em oregon e algo que já estava na sua mente há um bom tempo tinha vindo a tona em um dos passeios que fez com a filha.
“eu quero voltar para florida com você.” ele estava dirigindo o jeep alugado até o local mais próximo da cachoeira onde eles iriam fazer um piquenique. sienna estava no banco de trás, como sempre, e ele desviou o olhar da estrada por um segundo para olhar ela. ela o olhava de volta.
“você sabe que não é tão fácil assim. sua mãe quer você perto.” ele não gostava de jogar a culpa das coisas em leyla, mas ele já tinha dito que poderia muito bem cuidar de sienna durante o ano letivo e ela não aceitou. harvey também não queria a dor de cabeça de entrar na justiça e ter que enfrentar a realidade de que seu trabalho era muito instável.
“eu quero ir embora. aqui é horrível! eu odeio morar aqui, longe de tudo!” sua filha já estava perdendo a paciência que pouco existia, começando a fazer birra no banco de trás. felizmente harvey já estava estacionando.
“não grita!” ele advertiu, certeiro, assim que soltou o cinto. ele já tinha ensinado a maneira correta de se portar no carro, então ficou surpreso dela agir daquela maneira. “eu prometo que vou conversar com a sua mãe, mas não sei se vamos chegar num acordo. está certo? você tem que obedecer ela, independente. promete?” sienna ficou quieta e apenas balançou a cabeça. harvey fez um som de contentamento e saiu do carro para descer ela e as coisas que eles haviam trazido.
leyla ficou quieta e ele prosseguiu.
— e não foi por escolha minha! você levou ela embora e eu aceitei por que sei que era o melhor a se fazer, mas agora… agora ela quer ir morar comigo, eu tenho como sustentar ela, pagar uma escola boa, dar tudo que ela precisa, você sabe disso. meu emprego é estável…
— estável? — ela cortou suas súplicas com um olhar de desdém. — você pode morrer a qualquer momento. e pelo quê? — harvey sabia muito bem o que leyla achava da sua profissão, mas aquilo não era nem um pouco justo.
— você teve a chance de fazer a faculdade dos seus sonhos. eu não. eu fiz o que deu para fazer e me desculpe se eu pulei na primeira oportunidade de ter mais dinheiro! — ele respondeu entredentes, por que aquilo não era justo.
— você está culpando a mim e a sienna por não ter conseguido ir para faculdade?
— não! é claro que não! — e de repente ele lembrou do porque eles não estarem mais juntos. mesmo que eles se entendessem, o ressentimento ainda estaria ali. — eu só estou dizendo que… você fez o que queria com a sua vida. eu não. e agora eu finalmente estou num momento bom, eu posso cuidar dela.
— a cada quarenta e oito horas você vai precisar deixar ela sozinha por um dia inteiro. — os horários de harvey eram um problema, claro. ele sabia que ela iria trazer essa questão e era completamente compreensível, mas ele não era o único pai da estação que tinha que conviver com horários difíceis e com babás.
— ela quer isso. ela me pediu. — era o argumento que restava. — no momento que ela decidir que quer voltar… eu não vou pedir para que ela fique.
— eu não vou querer voltar! — harvey e leyla viraram em direção a porta do escritório num milésimo de segundo, seus rostos surpresos de ver que sienna estava escutando atrás da porta.
— você não pode fazer isso, eu já te disse. — harvey repreendeu, mas sienna já estava no colo dele, se colocando na situação como uma testemunha chave para aquela discussão.
— eu quero ir morar na florida, mãe… — ela não estava brava ou fazendo birra, só estava pedindo genuinamente. — eu gosto de morar aqui, mas eu sinto falta do papai. e eu disse para ele — sienna olhou para harvey, como quem pedisse reforço e ele concordou com a cabeça mesmo antes dela terminar de falar — que vou vir passar as férias aqui, qualquer final de semana que der, todos os feriados que conseguir, tudo, tudo! — harvey precisou se segurar para não rir de ver uma menina de sete anos falando desse jeito. ela já tinha feito esse mesmo discurso no piquenique que eles tiveram no dia anterior e ele se perguntou quanto tempo ela ficou pensando e ensaiando isso.
— nós vamos conversar a sós, até por que já está na hora de você ir para a cama. — leyla pegou sienna do colo de harvey e elas saíram do escritório, o deixando para trás. ele não sabe por quanto tempo ficou lá sentado, mas eventualmente entendeu que precisava ir também.
oito meses atrás. casa de harvey, miami.
— papai!
harvey estava no seu quarto. ele tinha que sair para começar mais um turno, mas também precisava levar sienna para a escola. ele sabia que estava atrasado, pois passou tempo demais ajudando ela a achar a meia calça do uniforme. terminou de arrumar o cabelo e enfiou a calça jeans que ia usar de qualquer jeito, se olhando no espelho uma última vez. não podia dizer que era particularmente vaidoso, mas ele gostava de se cuidar.
— já está pronta? — saiu de seu quarto meio correndo, meio andando. viu sienna há dois passos da porta, com a mochila enfiada de qualquer jeito no ombro enquanto tentava escrever alguma coisa no seu caderno. — guarda isso! — ele ralhou, de cenho franzido, já guiando ela pelo ombro porta a fora.
— eu preciso terminar esse trabalho! é um trabalho de pesquisa. — ela explicou e harvey não deu muita atenção para o que ela estava escrevendo, antes de pegar o caderno da mão dela e colocar no banco traseiro da sua camionete e pegar ela pela cintura e jogá-la para dentro. ele não usava força, claro, era apenas uma brincadeira dos dois e ela ainda estava rindo quando ele entrou no banco do motorista.
— você não acha que já deveria ter feito isso, se era tão importante? — harvey olhou por cima do ombro para sienna e esperou ouvir o click do cinto antes de ligar o motor. ela apenas murmurou um pedido de desculpas conforme ele manobrava para fora da garagem. — sobre o que é esse trabalho? eu poderia ter te ajudado.
— sobre a profissão dos nossos pais. eu estou fazendo sobre você. — aquilo foi uma surpresa. ela deveria ter conversado com ele, mas ele percebeu também que ele não tinha olhado o caderno dela nos últimos dias.
— o que você precisa fazer? — ele indagou, dirigindo de maneira calma pela via. mesmo atrasado, harvey era muito cuidadoso no trânsito.
— preciso fazer um desenho e falar alguns fatos sobre a sua profissão. você sabia que bombeiros usavam dálmatas por que dálmatas são amigos de cavalos e bombeiros iam com cavalos para acidentes e incêndios?
harvey sabia disso. ele deu uma risada e olhou para ela no retrovisor, vendo que ela largara sua lista de fatos para adicionar mais detalhes no seu desenho com giz de cera. ele conseguiu ver no reflexo a sua imagem no uniforme de bombeiros, mas apenas por um segundo.
— eu sempre quis ter um dálmata na nossa estação, mas o capitão nunca achou que fosse ser uma boa ideia. — seu tom era descontraído. sienna conhecia seu capitão e o chamava de ‘tio jake’, por isso esperou algum comentário engraçadinho de sua filha, mas ele não veio. — sienna, o que foi?
— nada. — ela tentou, mas harvey conhecia cada tom de sua filha
— fala. — pediu, nervoso com a mudança de energia.
— no google dizia que… que… dizia uma coisa que eu não entendi direito.
harvey sabia o que dizia no google. ele sabia muito bem. ele costumava restringir o acesso a internet de sienna e cuidar o histórico do computador e de alguma maneira ela conseguiu ler o que não deveria. ele falhou. deu sinal no primeiro estacionamento que viu e entrou, parando a camionete na primeira vaga. tirou o cinto e encarou sienna por alguns segundos antes de conseguir falar.
— não vai acontecer nada comigo. — garantiu, colocando sua mão direita sobre o joelho dela. ele sempre foi completamente honesto com sienna, sempre disse que seu trabalho era difícil, mas nunca falou sobre números de suicídio e acidentes. o que quer que ela tenha lido, era preocupante ao ponto dela ficar triste só de falar sobre. ele sabia que o que tinha acontecido com a professora dela a tinha afetado, mas ela precisava saber que ele estava ali. — eu não vou ir embora.
— promete?
— eu prometo.
harvey costumava carregar uma cruz no peito para todo lugar que ia. era parte da tradição que lhe foi ensinada. cruz no peito, leitura da bíblia antes de dormir e missa aos domingos. ele nunca questionou, sempre aceitou que aquela pequena cruz lhe traria forças quando mais precisasse… mas aquilo não era verdade. agora ele carregava um relicário com uma foto de sienna. isso sim lhe dava forças quando ele precisava. quando ele começava seu expediente e precisava tirar seu relicário, ele sabia que ele estaria no seu armário e o protegeria. quando ele ficava preso em incêndios, era nele que harvey pensava.
sete meses e vinte dias atrás. local: casa de harvey, miami.
— papai! — sienna gritou da sala, mas dessa vez ele não estava atrasado. se olhou no espelho com o uniforme formal do corpo de bombeiros, arrumando seu cabelo por uma última vez.
— vem aqui, sienna! — ele gritou, colocando o pescoço para fora da porta. rapidamente escutou os passos rápidos dela pelo corredor, seus sapatinhos rosa com miçangas fazendo um barulho irritante. normalmente ele não deixaria ela usar esse tipo de sapato para escola, mas como ele iria com ela e voltaria com ela, ele permitiu. quando ela entrou no quarto, ele pegou ela pela cintura e colocou em cima de uma cadeira que tinha no quarto, de pé. — coloca a medalha em mim?
desde que sienna entregara seu trabalho, os pais foram informados de que seriam convidados a falar para a turma sobre seus respectivos trabalhos. sienna disse que ele precisava ir e precisava levar sua medalha de honra, já que todos os pais estavam levando coisas sobre seus trabalhos. se o pai da becky j. poderia levar um volante de carro da nascar e a mãe de jack h. poderia levar um kit cirúrgico inteiro, é claro que o pai dela precisava levar sua medalha e falar o quão grande herói ele era! palavras dela, não de harvey.
algumas horas depois. escola de ensino fundamental da sienna, miami.
— eu trouxe essa medalha de valor para representar o meu trabalho. não pelo o que ela é, mas pelo o que ela representa. ela representa um momento em que necessitei tirar coragem de dentro de mim quando achei que não tinha mais… — harvey parou, seus dedos tocando com cuidado a medalha pendurada no pescoço e a placa que recebera junto. estava errado, completamente errado. — eu posso começar de novo?
seu olhar perdido foi em direção à nova professora de sienna, a qual já conhecia das várias vezes que ele foi lá para fazer treinamento com os alunos. o assassinato de sua colega tinha afetado todos e era essencial fazer aquele tipo de evento, tentar trazer a normalidade a vida, mesmo com um julgamento acontecendo. harvey entendia e sentia pena ao mesmo tempo. ela pareceu confusa e apenas concordou com a cabeça.
— eu acho que deveria estar falando de outra coisa. — harvey abriu o botão mais alto do seu uniforme e puxou o relicário em que carregava a foto da filha. — eu não seria um bom bombeiro sem esse colar. — ele abriu o relicário, mesmo sabendo que seria difícil de todos os alunos verem. — quando eu preciso de força para encarar um fogo, um furacão, qualquer emergência que seja, eu sei que preciso dar o meu melhor porque tenho alguém me esperando em casa. alguém que depende de mim e eu não posso falhar porque se eu falhar, nada disso vai valer a pena. — ele fala da medalha, fala do seu emprego e fala de sua vida. harvey teve muitos motivos para desistir de tentar ter a melhor vida que poderia ter, com seus pais o destruindo de dentro para fora, com sua alma sendo condenada ao fogo eterno e com seus sonhos destruídos. ele não ligava para isso. cortou relação com os pais, enfrenta ao fogo enquanto continua vivo e construiu novos sonhos por que alguém precisava dele. sienna valia a pena, sempre.
dias atuais. dormitório do c.c.c.
harvey acordou suando, nervoso. tateou ao seu redor, procurando a luz que tinha instalado do lado de sua cama. seus olhos caíram pelo porta retrato que tinha pedido na fonte nos seus primeiros dias naquele lugar. era um porta retrato que ele tinha em casa, com espaço para quatro fotos. na primeira ele tem dezoito anos, segurando uma sienna recém nascida ainda com as roupas que o hospital tinha dado para ele usar durante o parto. na segunda, ele está segurando a filha com cinco anos e ao fundo é possível ver o castelo da disney. ele lembra que esse dia foi horrível e cansativo, mas a memória se tornou algo positivo com o tempo. na terceira foto ele está com a sua equipe da estação, todos com uniforme de gala após receberem suas medalhas. na última, a foto do dia em que foi na escola de sienna falar com a sua turma. ambos estão de mãos dadas nas escadas da entrada da escola, sorrindo satisfeitos. harvey começou a chorar e soluçar.
antes que pudesse pensar, se levantou de sua cama e saiu andando. seus pés o levando para onde ele não podia adivinhar. era mais forte que ele. o templo das conciliações era intimidador, evitado ao máximo por harvey desde que ele tinha chegado. ele odiava templos, odiava igrejas, odiava qualquer lugar que lembrasse seu passado, lembrasse as coisas que ele sofreu quando criança. entre as figuras religiosas, harvey encontrou um banco para sentar-se. juntou as mãos na frente do rosto e começou a rezar.
— pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome... — sua voz era quase um sussurro conforme ele rezava, pedindo e implorando por algo que não sabia dizer ao certo. perdão, redenção, qualquer coisa. conforme rezava, se ajoelhava no chão e curvava sua cabeça, logo voltando a sentar-se de novo. o pai nosso começava de novo. ficou assim por várias horas, até sentir o cansaço tomar conta do seu corpo a ponto de não conseguir se ajoelhar mais.















