É incrível como a vida nos causa pequenas surpresas. E são justamente as pequenas surpresas que nos pegam de supetão. Era um dia de Quinta-feira quando recebi um telefonema dos meus pais dizendo que decidiram ir para um asilo em busca de um lugar mais tranquilo para viver. Como entre todos os meus irmãos, eu era o único que possuía filhos, meu pai decidiu que eu poderia ficar com a casa e me desfazer do cubículo onde eu morava. Em poucos dias, colocamos tudo que tínhamos em caixas e na Segunda fizemos a mudança.
Ao chegarmos, junto com o caminhão que aluguei, saí do carro e senti aquele ar de nostalgia no ambiente. Passaram-se anos e aquela casa não havia perdido a beleza que tinha quando eu era menino. Ao entrar, começamos a colocar cada coisa em seu devido lugar e eu percebi que havia uma grande caixa de papelão encostada em uma das paredes da sala de estar. Curioso que sou, resolvi dar uma olhada. E ao abrir, aconteceu aquela pequena surpresa que eu havia falado anteriormente. Mas essa surpresa causou algo maior do que eu imaginava.
Estava ali dentro tudo que fez parte da minha infância. Os gibis, o pião, a bola de futebol, os livros de figurinhas. Quase tudo em bom estado, afinal, o tempo não perdoa. Ao olhar aquilo, voltei no tempo. Lembrei das várias partidas de futebol que joguei na rua com meus amigos do colégio, do jogo de bafo pra tentar ganhar as figurinhas que faltavam no livro, do campeonato de bola de gude... Meu pai fez questão de juntar todas as bolinhas que eu tinha ganho naquela época. Os desenhos na televisão, os brinquedos que eu sempre quis, mas na época não tinha grana pra comprar... Tudo me veio a cabeça.
Embaixo da caixa, um pouco escondida, havia uma carta. Era um típico hábito que meu pai tinha e nunca perdeu, mesmo com a modernidade. Naquela carta, haviam palavras que eu guardaria pra minha vida. “Filho, resolvi guardar nesta caixa aquilo que um dia fez você muito feliz. Espero que esses objetos lhe tragam as mesmas sensações e lembranças que me trouxeram quando resolvi juntá-los. Sei que agora você tem uma família e te faço um pedido: sei que as crianças de hoje vivem enfurnadas na internet, nos videogames, mas acho que não há nada melhor para unir pai e filho do que estes brinquedos que fizeram a sua diversão no passado. Quem sabe, passando um tempo a mais com seus filhos, você poderá passar o gostinho da sua infância pra eles. Um beijo do seu pai”.